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Capitulo 6 a 9

 

 

Capítulo 6, onde se repensa o problema, tentando "pular cercas" epistemológicas

 

O mistério dos gigantes invisíveis

Na maior parte dos textos produzidos, em Portugal, nos últimos anos, sobre a neolitização do território atualmente português, a cronologia antiga da maioria dos menires alentejanos e algarvios não teve praticamente nenhum impacte, ao contrário, por exemplo, do que aconteceu, aqui ao lado, nomeadamente na Extremadura e Andaluzia. [1]

 Primitiva Bueno, num texto sobre as representações antropomórficas peninsulares, refere-se aos menires como "as mais velhas representações escultóricas do megalitismo ocidental" [2]

O desinteresse nacional é curioso, sobretudo à medida que se foram avolumando  os dados disponíveis: datas absolutas, materiais associados, contextos regionais, etc. (Capítulo 5).

De facto, os menires têm permanecido, para a maioria dos nossos neolitistas, suspensos num estranho limbo cronológico,  tornando-se, por isso, apesar das dimensões, virtualmente invisíveis, quando se trata de pensar os inícios do Neolítico em Portugal.

Não é o objetivo deste livro explicar, em todas as suas dimensões, o extraordinário fenómeno da invisibilidade dos menires; porém, é justo  recordar que os modelos de neolitização, atualmente em disputa, foram construídos numa época em que o Alentejo era ainda um enorme vazio, em termos de Neolítico antigo, e os menires eram ainda, sem discussão, atribuídos ao Neolítico final... 

Talvez uma parte do problema resida apenas na lentidão com que os novos dados, sobretudo quando disruptivos, são integrados nos modelos teóricos e, principalmente por não dispormos de datações diretas indiscutíveis, num quadro mental em que o radiocarbono foi, a meu ver, sobrevalorizado face aos outros meios de datação disponíveis.

Por outro lado, podemos pensar na própria regionalização da investigação, criando fronteiras e focagens exclusivas; o facto de, quer na Estremadura, quer na Costa alentejana, a presença dos menires ser irrisória, pode ter contribuído para esse aparente esquecimento, uma vez que, como sabemos, os mentores dos principais modelos de neolitização, os criaram a partir dos dados daquelas áreas.

Por último, a tendência geral para a especialização tem, provavelmente, criado barreiras difíceis de transpor, entre mesolitistas, neolitistas e megalitistas, embora, felizmente, exista um ou outro caso em que essas fronteiras se diluem.

É claro que aceitar a antiguidade dos menires, implica incluí-los no processo de neolitização, de que o Alentejo Central tem sido, como vimos (Capítulo 3), excluído ou secundarizado. E isso requer obviamente uma boa revisão dos modelos interpretativos em uso (Capítulo 8).

A datação dos menires obriga a repensar a neolitização, como fenómeno geral, e as próprias origens da monumentalidade europeia; para além disso, a concentração de menires e, sobretudo, de recintos megalíticos, obriga a reconsiderar a neolitização do Alentejo Central e o papel desta região no processo mais amplo do sudoeste peninsular e não só.

Porém, essa atitude de negação (uma vez que a maioria do autores nem sequer refuta os argumentos invocados) teve, que eu saiba, uma ou outra exceção.

A principal exceção devemo-la a Pedro Alvim [3] que, infelizmente, nos deixou a meio de um doutoramento que prometia abrir algumas janelas sobre o tema, nomeadamente recorrendo a datações OSL. 

Outra exceção em que a relação entre os menires e o Neolítico antigo/médio não foi sequer questionada, por razões óbvias, foi a tese de mestrado de Manuela de Deus, baseada, em parte, na escavação do recinto megalítico do Alminho, cujos materiais são, como vimos, inequívocos (Fig. 5.6). [4]

The last but not the least, (mais excecional por vir de um neolitista que não tem habitualmente trabalhado com o tema do megalitismo), foi a tese de doutoramento de António Faustino Carvalho, onde o autor admitiu que “uma hipótese alternativa é a proposta (…) segundo a qual parte dos menires e cromeleques do Algarve ocidental e do centro do Alentejo datará da fase de neolitização destes territórios.” [5]

Dito isto, o autor apresentou alguns dos “principais argumentos” que, no Alentejo Central, sustentaram a tal hipótese, nomeadamente “a coincidência espacial daqueles megálitos com manchas de dispersão de artefactos datáveis do Neolítico Antigo”, e “a reutilização de menires na construção de monumentos dolménicos".[6]

Porém, quanto aos menires do Algarve e, em particular, à datação atribuída ao menir do Pedrão, A. F. Carvalho deu eco ao argumento, apresentado, uns anos antes, por João Zilhão, [7] segundo o qual não se poderia associar diretamente o menir e a lareira, de onde foi retirada a amostra datada pelo Carbono 14; esta posição contradiz, curiosamente, a observação publicada pelo autor da escavação, o qual afirmou taxativamente que a “camada arqueológica (C2) a que correspondia a ocupação datada pelo 14C cobria as fossas de implantação dos dois menires, pelo que concluímos serem dela coevos, especialmente o pequeno menir 2, ainda in situ”. [8]

Permito-me aqui acrescentar que, com os dados disponíveis, e com os mesmos argumentos apresentados por João Zilhão, nada obsta a que o dito menir possa ser, efetivamente, anterior à lareira. 

Como felizmente os menires algarvios estão também incluídos no projeto Megalithic Origins, a que fiz referência no Capítulo 4, talvez as novas datações façam com que o mistério fique um pouco menos denso e estas contradições se esclareçam. 

 

 

A datação da Valada no Mato: dar tempo ao tempo

As dúvidas e os silêncios sobre a cronologia dos menires alentejanos são, até certo ponto, extensíveis aos sítios neolíticos de ar livre, conhecidos na região.

Por exemplo, no trabalho acima comentado, [9] a neolitização do Alentejo Central é vista como um fenómeno tardio, posterior à neolitização do Algarve, da Costa Sudoeste ou da Estremadura; esta ideia apoiava-se, por um lado, num modelo teórico que excluía a priori o Alentejo Central do processo e, sobretudo, fazia fé numa única data de 14 C, sobre carvões de espécie indeterminada. 

É curioso que A. F. Carvalho, para situar no tempo as flechas transversais, um tipo de artefacto que considerava tardio, dentro da sequência neolítica nacional, tenha ilustrado essa atribuição cronológica e cultural no conjunto recolhido na Valada do Mato, que, a seu ver, estaria “bem contextualizado e datado”. [10]

Convém recordar que, nessa altura,  ainda não eram conhecidos os exemplares de flechas transversais, de Casas Novas, a que já fiz referência, no Capitulo anterior [11]

Em todo o caso, a datação da Valada do Mato é uma questão em aberto, que importa efetivamente esclarecer, tanto mais que se trata, ainda hoje, do único sítio neolítico antigo datado pelo radiocarbono, no Alentejo Central.

E, naturalmente, na minha perspectiva, por se localizar no “epicentro” dos três grandes recintos megalíticos da região, tal como da mancha mais densa, em território português, de sítios do Neolítico antigo/médio. [12]

 

Conforme já observei, precisamos de datas absolutas indiscutíveis, para o Neolítico antigo e para os menires alentejanos, embora não falte outro tipo de evidências. Na verdade, essas datas são sobretudo importantes, não tanto para datar o fenómeno genérico dos menires, sobre o qual não subsistem grandes dúvidas, mas sobretudo a sua evolução, no tempo e no espaço, ao longo do Neolítico antigo/médio.

Entretanto, é indispensável proceder a uma reavaliação das datas absolutas disponíveis para a Valada do Mato, tendo em conta as novas datações, e não só, em contextos geográficos e artefatuais comparáveis. [13]

Desse sítio, que se tornou icónico por ter sido objeto de cinco campanhas de escavação (de que resultou, entre muitos outros textos, uma tese de doutoramento), [14] foram datadas três amostras (duas delas repartidas por dois laboratórios distintos).

Das cinco datas resultantes, só aquela que foi obtida a partir de uma amostra de carvão, foi aceite como válida, pela responsável pelo estudo. Essa decisão, apoiou-se num parecer do Eng. Monge Soares, na época o responsável pelo Laboratório de Radiocarbono de Lisboa.

Note-se que o referido parecer foi solicitado com base nas discrepâncias entre a data obtida sobre carvão e as outras datas, obtidas sobre ossos carbonizados (uma vez que todas provinham do mesmo contexto estratigráfico).

Esse contributo pôs objetivamente em causa a competência dos laboratórios de Groningen (Holanda) e de Waikatu (Nova Zelândia), onde foram datadas as amostras em questão, ao apontar “uma fiabilidade muito reduzida, uma vez que não está demonstrada a eficácia do protocolo utilizado na descontaminação das amostras” [15].

Isto significa que, apesar de “as duas amostras (…) processadas em diferentes laboratórios”, terem “fornecido resultados estatisticamente idênticos”, considerou-se que os valores pareciam “excessivamente recuados quando confrontados com o intervalo de tempo obtido para a mesma estrutura, a partir de uma amostra de carvão.” [16]

Com base nestas informações, pedi um parecer ao Dr. Michael Dee, atual diretor do Laboratório de Groningen, que respondeu, com prontidão, que se “a mesma amostra foi tratada em dois laboratórios diferentes e os resultados são equivalentes, tenderia a acreditar que estão corretos. Se houvesse contaminação, as probabilidades de esta ter afetado o osso de igual forma, em cada caso, são bastante baixas.”

Note-se que as datações rejeitadas, calibradas a 2 sigmas, cobrem um intervalo entre 5670 e 5081 a.C., sendo que este último valor se articula com a referida data sobre carvão (5040-4790 a.C.); assim, a fazer fé em todas estas datas, a ocupação da Valada do Mato teria arrancado no segundo quartel do VI milénio a.C. e entrado pelo primeiro quartel do V milénio a. C.. Isto é, estaria, no mínimo, entre as datas mais antigas, no território português, perfeitamente compaginável com a data obtida para Casas Novas (Coruche) [17], que é, de entre os sítios até agora datados pelo radiocarbono, aquele que se localiza mais perto do famoso sítio alentejano.

É certo que Mariana Diniz, sugere que “a data obtida a partir do carvão (…) deve corresponder (…) ao momento de abandono do sítio” [18], e que “perante a dimensão do conjunto artefactual e as características das estruturas identificadas, (…) o sítio terá sido objeto de uma ocupação relativamente longa.” [19]

De resto, como sabemos, não são raros os sítios do Neolítico antigo peninsular em que (com base em séries de datações absolutas ou nas tipologias dos materiais), se supõe terem funcionado continuamente ao longo de vários séculos. [20]

Vem a propósito a discussão, apresentada num texto sobre o Neolítico antigo, no Vale de Ambrona (Soria, Espanha), em que os autores, depois de avaliarem dois conjuntos de datas, obtidas a partir de amostras provenientes de contextos fechados, concluem que no estado atual dos nossos conhecimentos” estas datas “lançam muitas dúvidas sobre todo o sistema cronológico que foi construído em torno das origens do Neolítico na Península Ibérica.” [21]

A perplexidade destes autores resulta sobretudo do facto de, no interior das mesmas estruturas negativas, tipo silos, se terem obtido, sobre amostras de vida curta, diferenças de vários séculos, o que levanta obviamente questões sobre a formação do registo arqueológico, mais do que sobre os métodos de datação.

E creio que o mesmo se pode aplicar à Valada do Mato. A coincidência, no mesmo pacote sedimentar, de materiais correspondentes a diferentes momentos da vida dos sítios, é uma situação recorrente e expectável, sobretudo nos contextos habitacionais do Neolítico antigo.

Tendo isto em mente, a maioria das propostas de atribuição cronológica, no que diz respeito a sítios de ar livre, mesmo que com base  em materiais de escavação, é passível de reinterpretação. 

Um exemplo, entre outros, é o do povoado da Salema, atribuído ao Neolítico antigo evolucionado; a presença de cerâmica cardial, a par de exemplares decorados com o caraterístico “sulco abaixo do bordo” pode, em alternativa, implicar uma larga diacronia, desde o Neolítico mais antigo, até ao Neolítico médio. [22]

Muito discutível, a meu ver, é também a cronologia proposta para o sítio dos Cortiçóis, atribuído aos finais do V milénio a.C. (com base na presença de cerâmica com decoração "penteada").[23].

Porématendendo à presença da decoração impressa, incisa e plástica, parece indiscutível que, sem excluir uma eventual sobrevivência  do sítio até momentos tão tardios, estamos perante um contexto que deve ter arrancado bem no Neolítico antigo.

De facto, os autores do estudo sobre os Cortiçóis, começam por reconhecer que o "povoado" se inscreve “em fase adiantada do Neolítico Antigo, comparável a outros registos estremenhos[24], dos quais o mais bem datado é o do Carrascal (Oeiras), abarcando todo o último quartel do VI milénio a.C..” [25] 

A própria atribuição das cerâmicas com decoração penteada, exclusivamente aos finais do V milénio a.C., é altamente discutível; recordo, a propósito, que este tipo decorativo foi igualmente registado no sítio eborense da Valada do Mato. 

No caso concreto dos Cortiçóis, a atribuição cronológica tardia permite manter a narrativa  do modelo colonialista, uma vez que, a ser correta, não teria havido contemporaneidade entre o sítio neolítico e os concheiros de Muge. Havendo contemporaneidade, como me parece óbvio, cai estrondosamente por terra o modelo dos enclaves pioneiros, já abalado pela descoberta do sítio das Casas Novas, que dista de Muge cerca de duas dezenas de quilómetros.

Regressando à cronologia da Valada do Mato, enquanto não dispomos de melhores datações absolutas, termino recordando que alguns artefatos (e resta sempre a dúvida sobre o lapso temporal em que realmente foram produzidos e usados) apontam para os meados do VI milénio a.C., nomeadamente a cerâmica cardial ou as flechas transversais. Outro caso particularmente sugestivo são as peças com decoração antropomórfica esquemática, interpretados como orantes, proveniente da Valada do Mato e do Castelo dos Mouros (Fig. 9.1),  comparáveis, em vários aspetos com os que foram identificados mais a Norte, na Eira Pedrinha e na Galeria da Cisterna. Sem datas absolutas, nem contextos estratigráficos diferenciados, é de crer que a hipótese avançada por A. F. Carvalho de que "os vasos com decoração antropomórfica integram-se em ambas as fases em que se subdivide o Neolítico antigo" [26], se baseia na controversa datação da Valada do Mato, para dar corpo à segunda fase.

Já a peça da Galeria da Cisterna [27] é apresentada como representativa do Cardial clássico, por comparação com exemplares provenientes da Cova del Or Martí e Hernandez, 1988.e, por isso, atribuível à fase mais antiga da neolitização do Sudoeste peninsular.  De frisar que, ao contrário das peças valencianas, de decoração cardial, todas as variantes portuguesas são impressas com outras matrizes.

 

O princípio da Incerteza

É claro que, se aceitarmos que as principais variáveis observadas na cerâmica neolítica não têm necessariamente implicações cronológicas, concluímos que esses sítios, tal como a Valada do Mato, são genericamente contemporâneos de Vale Pincel 1, Sra. da Alegria, Padrão ou Cabranosa, só para citar sítios de ar livre, localizados em diferentes contextos geográficos, mas com datas (algumas discutíveis, como sempre) a partir de meados do VI milénio a. C. até aos inícios do V milénio a. C..[28]

Insisto que, no estado atual dos nossos conhecimentos, e face à relativa falência do modelo cardial (assente na antiguidade absoluta desse tipo de decoração impressa, cuja versão mais barroca quase só tem sido atestada em necrópoles ou achados avulsos e, mesmo aí, com escassa representatividade estatística), a variabilidade artefatual do Neolítico antigo não permite, por ora, inferir cronologias finas.

Com base nos dados da Gruta do Caldeirão e da Galeria da Cisterna (cavidades da Alta Estremadura), João Zilhão propôs que a “cerâmica extensivamente decorada com impressões de conchas e pentes pertence provavelmente” (sublinhados meus) [29] à fase mais antiga que, segundo ele, se relaciona com a chegada de colonos pioneiros.

A fase seguinte seria representada por “outro estilo de decoração – as impressões de conchas formando faixas abaixo do bordo e grinaldas entre os botões de preensão" que "data provavelmente (sublinhado meu) de uma época um pouco posterior.” [30]

 

AB

 

Fig. 6.1 - A: Materiais da Gruta do Caldeirão. (Zilhão, 2021: 754, Fig. 7);

B: Materiais da Galeria da Cisterna (Zilhão, 2021: 749, Fig. 2)

 

Marco Andrade, perante os mesmos dado e as mesmas incertezas, sugere a “coexistência teórica de dois universos culturais distintos”, um deles correspondendo ao cardial barroco e o outro ao epicardial. [31]

Recordo que, há quase meio século, os investigadores da área de Sines já colocavam a “hipótese de (…) a corrente cardial ter sido, pelo menos parcialmente, sincrónica de uma outra formada por cerâmica impressa não cardial, mais relevante e principal responsável pelo desenvolvimento do Neolítico Antigo desta área.” [32]

Esta proposta ganhou, nos últimos anos, atualidade, com novas datações para Vale Pincel 1, Casas Novas e Lameiras, sem as quais esses sítios seriam, mais ou menos automaticamente, encaixados numa segunda fase, dita epicardial ou evolucionada.

Note-se que o modelo de evolução cronotipológica, proposto por João Zilhão e secundado por António Faustino Carvalho, com base nos dados da Estremadura (Gruta do Caldeirão e Galeria da Cisterna, na nascente do Almonda), parece, para já, bastante sólido e não suscita grandes dúvidas [33]. Assente em datações sobre espécies de vida curta, tudo aponta para um início da neolitização, nessa área, a partir de 5400 a.C., ou mesmo um pouco antes, com cerâmica cardial dita barroca, na base. [34] Na verdade, o barroquismo cardial não é muito óbvio; o facto de, na Alta Estremadura, estarmos sobretudo perante  necrópoles, para além de poder implicar uma escolha específica de vasos especiais destinados a funções rituais, como outros autores já observaram, implica também que estejamos perante peças mais completas, comparando com a elevada taxa de fragmentação das cerâmicas dos "povoados", o que, neste último caso, dificulta seriamente a identificação de possíveis barroquismos. Mesmo assim, basta passar os olhos pelos materiais publicados, para reconhecermos que, em muitas das peças destes contextos, a decoração não se limitava a "faixas abaixo do bordo e grinaldas entre os botões de preensão" [35]

Por outro lado, o modelo cronológico em causa, mesmo que válido para as grutas da Alta Estremadura, não pode, aparentemente, ser generalizado, nem sequer aos sítios de ar livre da Baixa Estremadura e, muito menos, às restantes áreas teoricamente em "disputa", isto é, a Península de Setúbal, os Estuários, a Costa Sudoeste ou o Alentejo interior.

Vale Pincel 1 (Sines) e Casas Novas (Coruche), um sem cerâmica cardial (ou quase) e o outro com relativamente pouca, deram datações (talvez um pouco menos indiscutíveis) que, significativamente, concordam com as de Lameiras (Sintra). 

A circulação de pessoas (juntamente com animais, coisas e ideias), relacionada com práticas exogâmicas, e o uso da decoração da cerâmica como marcador identitário, explicariam, só por si, as diferenças regionais (e locais) e a longa duração em que foram usados certos motivos e técnicas, nomeadamente o cardial ou o boquique, só para referir os mais citados e pensando apenas no Mediterrâneo ocidental. [36]

Em última análise, por enquanto, o esquema cronológico mais consensual para o Neolítico antigo/médio, no Sudoeste peninsular, implica uma predominância, nas fases iniciais, da decoração impressa e plástica (com e sem cardial), face à decoração incisa, e uma fase final, em que a decoração se resume a um sulco abaixo do bordo, antes da generalização das cerâmicas lisas, no Neolítico final.   

Voltando à Valada do Mato, apesar do cuidado com que foi explicitado o critério de validação da data mais tardia e apesar da sugestão de que ela corresponderia à data do abandono do sítio (e também de que a respetiva data da fundação deveria ser bastante anterior), isso não evitou que, consciente ou inconscientemente, essas incertezas fossem esquecidas e o sítio repetidamente integrado numa segunda fase da neolitização do nosso território, correspondendo grosso modo, à primeira metade do V milénio a. C.

No limite, a Valada do Mato foi “atirada” para o Neolítico médio, ao lado do sítio algarvio do Castelo Belinho, como “os únicos sítios arqueológicos do Portugal meridional que poderão, sem qualquer tipo de reservas, ser incluídos nesta categoria” (povoados sedentários) e que “datam já do milénio seguinte” (V milénio a.C.). [37]

 

A árvore e a floresta

Já sublinhei, mais acima, o estranho divórcio entre megalitismo e neolitização; esse “bloqueio” aplica-se, nomeadamente, à Valada do Mato, apesar de este sítio se localizar a Oeste de Évora, manifestamente na mesma paisagem onde, como já referi, se encontram os três maiores cromeleques da Península Ibérica, dos quais dista apenas 2-3 Km, no caso da Portela de Mogos e de Vale Maria do Meio, e cerca de 8 km dos Almendres. 

De resto, convém sublinhar que a Valada do Mato faz parte de um vasto conjunto de “povoados” da mesma época, identificados, na sua maioria, no contexto do projeto LAVAMME (Levantamento Arqueológico do Vale Maria do Meio).

Essa campanha de prospecções, levada a cabo em 1994, foi organizada depois de eu próprio ter identificado, nos arredores de Évora, o sítio da Valada do Mato e, com um grupo de alunos da FLUL (com destaque para o Augusto Salgado, que teve um papel importante na descoberta), o recinto de Vale Maria do Meio.

O referido projeto contou com a participação de uma pequena equipe de alunos de Arqueologia da FLUL (Rui Mataloto, Rui Almeida, Nuno Vasco, Sandra Lourenço, Margarida Monteiro, Susana Estrela) e, em duas semanas, foram identificados cerca de três dezenas de sítios, atribuíveis, quase todos, ao Neolítico antigo/médio. [38] Note-se o recinto de Vale Maria do Meio (tal como a Valada do Mato) se localiza nas proximidades do ponto, a que já fiz referência (Capítulo 3), onde se encontram as bacias do Tejo, do Sado e do Guadiana, Calado, 1995a e dos respetivos festos (junto ao Monte da Oliveirinha, perto da Graça do Divor); de resto, a relação entre a Valada do Mato e este ponto especial na paisagem do Alentejo Central, não passou despercebida, no estudo detalhado sobre o sítio (Fig. 6.2). [39]

 

                                        

Fig - 6.2 – Mapa com a localização do sítio da Valada do Mato e limites das bacias hidrográficas do Tejo, Sado e Guadiana. Diniz, 2007: fig. 16

 

 

 

 

 

 

O mito das estratigrafias neolíticas

Tal como me parece difícil interpretar a Valada do Mato (e por extensão, o Neolítico antigo/médio desta região), sem incluir, na equação, os menires e cromeleques, o mesmo se aplica à omissão dos sítios genericamente contemporâneos da Valada do Mato, que, até agora, não foram objeto de escavações (Fig. 6.3).

Nesta questão reflete-se, parece-me, uma tendência relativamente comum, a que já fiz, várias vezes, referência, que consiste em sobrevalorizar os sítios que foram escavados e, dentro destes, os que proporcionaram datações diretas, mesmo que, como neste caso concreto, claramente problemáticas. 

Teoricamente, todos sabemos que as “recolhas de superfície (…) apresentam condicionalismos na caracterização de um sítio arqueológico que só uma recolha em contexto estratigráfico (sublinhado meu) ajuda a esclarecer” [40]

Porém, na prática, considerando apenas os sítios neolíticos, de ar livre, que têm sido escavados, quer no Alentejo Central, quer nas regiões limítrofes, todos os casos correspondem a “sítios monofásicos”, [41] com cronologias deduzidos geralmente da cultura material, com estruturas positivas mal conservadas e estruturas negativas que, por vezes, contêm, como vimos, materiais de várias fases misturados. Destaca-se, infelizmente,  a escassez ou mesmo a ausência de amostras para datação, especialmente, como seria desejável, sobre espécies de vida curta.

No limite, estão aqueles sítios, e são muitos, em que foram reportadas perturbações tafonómicas profundas que pouca utilidade dão ao registo estratigráfico. [42]

Um bom exemplo, é o já referido sítio dos Cortiçóis (Almeirim) onde “o intenso revolvimento da camada arqueológica”, inviabilizou “qualquer análise de distribuição dos materiais arqueológicos pela área explorada, tanto em planta, como em profundidade. [43]

Um cenário muito semelhante é descrito para o sítio da Quinta da Praia [44]. Neste, foram efetuados apenas 3 m2 de sondagens, sem grandes resultados, tendo em conta as perturbações estratigráficas detectadas; uma única datação, sobre amostra recolhida na camada julgada mais intacta, deu uma data de época moderna/contemporânea. Perante este resultado, os autores optaram, sensatamente, por dar preferência às prospecções de superfície.

Em suma, nos sítios de ar livre, quase sem exceção, as estratigrafias ditas monofásicas, são, provavelmente, em muitos casos, estratigrafias-palimpsestos, acumuladas e misturadas ao longo de séculos.

Perante isto, conclui-se facilmente que, na prática, os resultados da escavação, neste tipo de sítios, pouco diferem dos que se obtêm através da prospecção de superfície, sobretudo no que respeita à cronologia; em ambos os casos, resta a informação veiculada pela cultura material, como um pacote, isto é, sem a virtude da ordenação estratigráfica. 

Claro que as escavações (dependendo, como vimos, da extensão da área escavada) podem, à partida, proporcionar um número mais elevado de artefatos e, apenas elas, em áreas privilegiadas, obter ecofatos e datações…

 

Muita gente...

Há vinte anos, reuni, no terceiro volume da  minha tese de doutoramento, (disponível online em https://www.academia.edu/), uma listagem de mais de 2400 sítios, genericamente atribuíveis ao Neolítico e ao Calcolítico, incluindo menires, antas, arte rupestre, achados avulsos e, sobretudo, “povoados”, a esmagadora maioria dos quais, como resultado das prospecções que efetuei ou coordenei, no Alentejo Central, ao longo dos vinte anos anteriores (Capítulo 1).

Para o que aqui nos interessa, destaca-se um conjunto de 80 sítios, praticamente todos adossados a afloramentos graníticos mais ou menos monumentais, e que, com base na presença de lamelas e/ou cerâmica decorada, atribuí ao Neolítico antigo/médio. Desses, alguns (poucos) foram entretanto escavados, como aconteceu com a Valada do Mato [45] e o Patalim [46], em Évora, ou a maioria dos sítios da Baixa do Xarez, em Reguengos de Monsaraz [47] e, como seria de esperar, essa cronologia genérica foi confirmada, em todos eles.

Designação

      nº

cmp

     M

     p

cerâmica decorada

lamelas

silex

Concelho

Pucícaros de Cima

272

409

208475

213500

x

x

Mora

Olival

318

410

216075

210175

x

x

Arraiolos

Monte do Paço 1

355

422

191750

200825

x

Montemor-o-Novo

Quintais

442

426

256975

201450

x

Borba

Estrelada

538

437

203125

199550

X

Arraiolos

Montinho 1

577

437

214100

192825

x

Arraiolos

Santarém

603

437

202975

198925

X

Arraiolos

Ferrenha 6

717

439

242800

193625

X

Redondo

Bencatel

782

440

260325

198200

x

x

Vila Viçosa

Carrascal 2

790

440

253325

191000

X

Redondo

Mamões

822

440

248650

196789

X

Estremoz

Casa Nova

927

447

186100

186600

x

Montemor-o-Novo

Azinhalinho 4

961

448

213325

181825

X

Évora

Casbarra

980

448

211925

183575

x

x

Évora

Casbarra 3

982

448

212525

182475

x

Évora

Jarro

1007

448

209975

181475

x

Évora

Jarro 2

1008

448

209950

181150

x

Évora

Laranjal da Varge 3

1012

448

211599

182035

x

Évora

Laranjal de Varge 2

1013

448

211050

182100

x

x

Évora

Laranjal de Varge 5

1015

448

210625

182050

x

Évora

Monte da Pouca Farinha 6

1038

448

212925

182215

x

Évora

Oliveira 4

1058

448

214975

186025

X

X

Évora

Oliveira 5

1059

448

214625

184575

X

X

X

Évora

Paicão 1

1061

448

207375

180300

X

X

x

Évora

Patalim

1065

448

204982

183460

x

X

x

Évora

Páteo do Azinhal 1

1068

448

212150

181975

X

X

Évora

Páteo do Azinhal 2

1069

448

212000

182000

X

X

Évora

S. Matias

1087

448

211735

180583

X

X

Évora

Sobral 1

1097

448

210291

181300

X

X

X

Évora

Valada 14

1104

448

210625

182950

X

Évora

Valada 4

1109

448

211100

183100

X

Évora

Valada 5

1110

448

210875

182800

X

X

Évora

Valada 7

1112

448

211025

182650

X

X

Évora

Valada do Mato 2

1118

448

212100

182775

X

Évora

Valada do Mato 4

1120

448

212150

182300

X

X

Évora

Vale Maria do Meio 10

1135

448

211075

183450

X

Évora

Vale Maria do Meio 11

1136

448

210975

183450

X

Évora

Vale Maria do Meio 4

1141

448

210950

183375

X

Évora

Vale Maria do Meio 6

1143

448

210650

182325

X

Évora

Vale Maria do Meio 8

1145

448

210325

182325

X

Évora

Vale Maria do Meio 9

1146

448

210550

183250

X

X

Évora

Carrascal 1

1174

449

224575

187525

X

Évora

Monte do Pomar de Cima

1202

449

216225

185425

X

X

X

Évora

Penedo do Ouro 1

1220

449

217550

184500

X

X

Évora

Vale de Anta 2

1458

451

250625

189525

X

X

X

Redondo

Quinta do Gato 8

1541

458

190225

173100

X

x

Montemor-o-Novo

Alcamizes

1554

459

212550

176025

x

x

Évora

Almendres 1

1558

459

206700

176400

x

x

Évora

Almendres 2

1560

459

206295

176583

x

x

Évora

Almendres 3

1561

459

206073

177200

X

Évora

Cabanas 1

1586

459

206125

173375

x

Évora

Cabanas 3

1590

459

206125

173375

x

x

Évora

Malhada do Esbarrondadoiro

1627

459

213575

180475

X

x

Évora

Maré

1628

459

214125

179975

X

x

Évora

Monte dos Almendres

1652

459

207550

177600

x

x

Évora

Viscossa 2

1692

459

215182

178422

X

Évora

Alto de S. Bento

1696

460

216974

179079

x

X

x

Évora

Freiras

1831

469

189800

169675

X

x

Montemor-o-Novo

Carrascosa

1922

472

236300

162500

x

x

Évora

Monte do Ramal

1931

472

233678

169567

x

X

Évora

Montinho

1933

472

234284

163889

x

x

Évora

Barrocal

1956

473

262150

164300

X

x

Reguengos de Monsaraz

Barrocal 19

1967

473

262075

164125

x

Reguengos de Monsaraz

Barrocalinho 14

1985

473

259225

163900

X

x

Reguengos de Monsaraz

Barrocalinho 16

1987

473

259700

163950

X

x

Reguengos de Monsaraz

Barrocalinho 17

1988

473

259700

164400

X

x

Reguengos de Monsaraz

Contenda 2

2013

473

251675

167150

X

x

Reguengos de Monsaraz

Gorginos

2027

473

260925

163300

X

x

Reguengos de Monsaraz

Santa Margarida 6

2081

473

260925

163300

X

x

Reguengos de Monsaraz

Fonte dos Sapateiros

2103

474

264625

161525

x

x

Reguengos de Monsaraz

Xarez 12

2137

474

266625

161000

x

X

x

Reguengos de Monsaraz

Xarez de Cima 4

2164

474

264375

161550

x

X

Reguengos de Monsaraz

Monte da Serra

2195

480

222950

155400

x

x

Évora

Murteiras

2204

480

222240

157098

x

X

x

Évora

Vale de Chaissos 1

2225

480

222250

156250

x

Évora

Carraça

2274

482

262740

161208

X

x

Reguengos de Monsaraz

Estabulinho 3

2315

482

254450

157550

X

Reguengos de Monsaraz

Pipas 1

2395

482

263200

157300

x

X

x

Reguengos de Monsaraz

Torre do Esporão

2408

482

250800

158350

x

Reguengos de Monsaraz

Malhada dos Gagos 6

2434

483

264800

158900

x

Reguengos de Monsaraz

 

Fig. 6.3 -  Lista dos sítios do Neolítico antigo, de ar livre, no Alentejo Central (Calado, 2004b, adaptado)

 

A     B

 

Fig. 6.4 -A: Casbarra 2 (2-5); S. Matias (6 e 7); Oliveirinha (8); Montinho 1 (9); Laranjal da Varge (10); Vale Maria do Meio 4 (11); Jarro (12) e Palheireiros (13,14): materiais de superfície (cerâmica) (seg. Calado, 1995; Calado, 2004b: 348); B: Vale Maria do Meio 1 (1); Vale Maria do Meio 4 (2 e 3); Jarro 1 (4); Vale Maria do Meio 12 (5); Jarro 2 (6 e 9); Laranjal da Varge (7 e 8): materiais de superfície (cerâmica e líticos) (seg. Calado, 1995; Calado, 2004b: 349).

 

         A       B

 

Fig. 6.5 – A: Carrascosa: materiais de superfície da (cerâmica) (seg. Calado, 1995; Calado, 2004b: 350; B: Oliveira 5: materiais de superfície (cerâmica e líticos). (Calado, 2004b: 353)

 

 

   B 

 

Fig. 6.6 – A: Materiais de superfície do Jarro 1 (Calado, 2004b: 360); B: Vale Maria do Meio 4 (1);Vale Maria do Meio 11 (3, 5); Laranjal da Varge 5 (2) e Laranjal da Varge 2 (4): materiais de superfície (cerâmica). (Calado, 2004b: 361)

 

A B

 

Fig. 6.7 – A: Nó Poente (1); Barrocalinho 17 (2); Pedra da Moura (3); Vale de Anta (4): materiais de superfície (cerâmica). (Calado, 2004b: 362); B: Arredores de Vale Maria do Meio: materiais de superfície (cerâmica).

 

Porém, convém deixar claro que excluí, desta lista, outros 309 sítios, todos com cerâmica manual e todos relacionados com afloramentos graníticos, mas que, por falta de elementos mais específicos, atribuí genericamente ao Neolítico/Calcolítico.

Dentro deste conjunto, destaca-se um subconjunto (44 sítios), em que, além da cerâmica manual, sem decoração, foram registados restos de talhe de sílex. Como sabemos, este material torna-se relativamente raro, a partir do Neolítico final, nesta região, em comparação com a quantidade de fragmentos cerâmicos; pelo contrário, no Neolítico antigo/médio, o sílex tende a ser estatisticamente muito mais abundante que a cerâmica. [48]

Seja como for, é absolutamente previsível que, destes sítios excluídos, uma parte significativa venha a acrescentar a lista do Neolítico antigo/médio centro-alentejano. Isto, para além dos registos que incluí na categoria de “achados avulsos”, normalmente sem cerâmica, mas também com artefatos genericamente neolíticos ou calcolíticos.

E, finalmente, convém sublinhar, mais uma vez, o facto de existirem ainda, no Alentejo Central, extensas áreas graníticas por prospetar, pelo que o que conhecemos é apenas a ponta do iceberg.

Mas, se considerarmos “apenas” os 80 sítios atribuíveis ao Neolítico antigo/médio (em 2004) e os tomarmos como amostra representativa da região, concluímos que a distribuição dos sítios não depende (ou não depende apenas) do “estado da arte”.

Desses, 49 (62%) localizam-se no concelho de Évora e 16 (19%), no concelho de Reguengos de Monsaraz.

Os restantes 15 sítios distribuem-se, do seguinte modo: Montemor-o-Novo, 4 (5%); Arraiolos, 4 (5%); Redondo, 3 (4%); Mora, 1 (1, 25%); Estremoz, 1(1, 25%); Vila Viçosa, 1(1, 25%), Borba, 1(1, 25%).

Em Alandroal, Portel, Viana do Alentejo e Vendas Novas não se conhece nenhuma ocorrência; nos três primeiros casos, foram publicadas as respetivas Cartas Arqueológicas. [49] Como a maior parte do concelho de Vendas Novas abrange a bacia terciária ("terra de ninguém"), que, por enquanto, é um vazio absoluto, em termos de ocupação humana antiga, resta-nos Viana do Alentejo onde, à partida, como referi, esperaríamos encontrar menires e sítios do Neolítico antigo, articuláveis com o estuário do Sado, através da Ribeira do Xarrama e os trabalhos recentes vieram a confirmar (Capítulo 4).

 

 

Fig. 6.8 - Distribuição dos sítios do Neolítico antigo/médio, no Alentejo Central (Calado, 2004b).

   

 

Fig. 6.9 – Sítios do Neolítico antigo e os três maiores recintos megalíticos de Évora. As linhas a traço interrompido são os festos. (Calado, 2004b)

 

Na minha perspectiva, a extraordinária densidade de sítios do Neolítico antigo/médio, na região, era perfeitamente expectável, uma vez que a monumentalidade dos grandes menires e recintos megalíticos exigiria obrigatoriamente uma elevada disponibilidade de mão-de-obra, sem nada que se compare, nessa época, nas restantes áreas peninsulares.

Quanto à diacronia destes 80 sítios, é provável que a maior parte corresponda ao Neolítico antigo (grosso modo 5500-4500 a.C.), sobretudo aqueles em que foram identificadas cerâmicas decoradas, uma vez que estas tendem a desaparecer no Neolítico médio. De resto, de entre os outros 309 sítios, todos com cerâmicas lisas, muitos poderão cobrir essa fase ainda mal balizada cronológica e artefatualmente.

Para ter uma noção comparativa, em termos nacionais, basta consultar o Portal do Arqueólogo (última consulta em 29.11.2015). Nessa base de dados (incompleta e com algumas lacunas, por definição) aparecem apenas 68 dos sítios atribuíveis ao Neolítico antigo (todos de ar livre, exceto a gruta do Escoural), no Alentejo Central. Em contrapartida, aparece uma centena de sítios dessa época, no resto do país, dos quais 18 são grutas e outros 19 ou são achados avulsos (vasos), ou não entregaram cerâmica, pelo que "povoados" de ar livre, seguindo os mesmos critérios que usei na minha lista, contabilizamos apenas 63.

Com base nesta informação, em termos de densidade de sítios por Km 2, a diferença é superior a 1 para 10. 

 

                         

 

             Fig. 6.11 - Densidade de sítios do Neolítico antigo, por cada 1000 Km2, em Portugal.

 

Seguindo a tradição, tenho vindo a chamar “povoados” a estes pequenos sítios com cerâmica, entendidos sempre como locais de habitação mais ou menos permanente, numa economia de base agropastoril.

Porém, tudo indica que, no Alentejo Central, como noutras áreas do Sul da Europa, estamos efetivamente perante unidades de tipo familiar, apenas com duas ou três cabanas e explorando, provavelmente, os terrenos nas imediações das áreas residenciais; isto é, mais do que de povoados, no sentido de aldeias, trata-se, muito provavelmente, de quintas familiares ou, atendendo à terminologia regional, dos primeiros “montes” alentejanos [50].

Essa foi, por exemplo, a conclusão a que se chegou, com base na escavação integral de um sítio neolítico antigo, de ar livre, no Norte de Espanha, El Prado.[51] Estes sítios funcionaram aparentemente em clusters, organizados em redes de vizinhança; em geral, nas áreas que foram melhor prospetadas, os sítios localizam-se a distâncias da ordem das poucas centenas de metros, como se verifica, por exemplo, na Baixa do Xarez, nos arredores do Vale Maria do Meio ou, como veremos, no Freixo do Meio.

É claro que, no limite, podíamos interpretar estes pequenos sítios como o resultado de uma pequena comunidade, com uma agricultura itinerante, mudando regularmente de sítio, ao longo de um milénio.

Pelo contrário, a cronologia dos menires e a exigência de mão-de-obra, para os concretizar, assim como a rápida expansão do Neolítico pelo interior peninsular ou os dados sobre a deflorestação, apontam para um sedentarismo de longa duração que alguns sítios ibéricos, que proporcionaram séries de datas, parecem confirmar. [52]    

Fosse qual fosse exatamente a fase de arranque, e independentemente da identidade dos  protagonistas, a imagem de que dispomos sugere que a colonização do interior peninsular, a partir do litoral, tenha alastrado rapidamente, abrindo clareiras, alavancada presumivelmente por um crescimento demográfico excecional e caraterizada por uma ocupação sistemática, mas desconcentrada do território. Por hipótese, de cada unidade residencial, em vez de crescer a população, sairiam novos colonos (enxameamento), fundando novos “montes”, nas proximidades, numa progressão ao longo de áreas bem definidas (que se relacionam com geologias específicas, nomeadamente, como vimos, os granitos e os calcários, por esta ordem).

Nesta progressão (tipo onda de avanço) foi certamente importante a transitabilidade natural dos territórios, dependente principalmente dos rios navegáveis e das linhas de  festo, mas também, em alguns casos, afetada pela orografia. [53]

O abandono de muitos destes sítios, como parece ter sido o caso da Valada do Mato ou do Freixo do Meio 1, ainda no Neolítico antigo, talvez se relacione com a “perda de fertilidade dos solos, como consequência do regime intensivo de aproveitamento”.[54] Concordo inteiramente com  Mariana Diniz quando propõe que os “solos menos férteis da Europa mediterrânea e do Sul da Europa atlântica apresentam sérias limitações a uma continuada exploração agrícola” pelo que “as escassas evidências de continuidade, nos lugares de habitat, podem estar associadas a contingências pedológicas que determinam a procura de novos territórios, por esgotamento dos anteriores” [55]

Este é um tema que se relaciona diretamente com as preocupações atuais do projeto do Montado do Freixo do Meio, em que se procura precisamente avaliar o impacte da agricultura na fertilidade dos solos e, dentro do possível, reencontrar um equilíbrio sustentável entre a atividade agrícola/pastoril e a floresta.

Voltarei, mais adiante, a este assunto.

Em síntese, importa, para já, reter esta ideia importante: o povoamento do Neolítico antigo, no Alentejo Central, tal como o megalitismo menírico, atingiram uma pujança muito especial, quando comparadas com as áreas vizinhas e mesmo com outras realidades peninsulares contemporâneas.

E o mesmo se pode afirmar, indiscutivelmente, em relação aos concheiros mesolíticos dos estuários adjacentes, que são parcialmente contemporâneos. [56]

 

 

 

O Tejo-Sado: uma certa economia agro-estuarina?

A descoberta e publicação, nos últimos 20 anos, de mais de duas dezenas de sítios de ar livre, atribuíveis ao Neolítico antigo e médio, [57] e implantados ao longo da faixa de terraços quaternários, junto à margem esquerda do estuário do Tejo, veio introduzir, nos modelos que se propõem interpretar a neolitização em território português, um elemento perturbador.

Nesse sentido, num dos textos publicados sobre o sítio neolítico antigo de Casas Novas (Coruche), Victor Gonçalves e Ana Catarina Sousa, sublinharam que “a presença de um habitat desta fase na margem esquerda do Baixo Tejo é especialmente relevante, atendendo que os atuais modelos démicos aplicados ao território português propõem que as primeiras ocupações neolíticas se tenham instalado fora das áreas dos últimos grupos de caçadores‑recoletores.” [58]

Ora, restam poucas dúvidas sobre o facto de os últimos caçadores-recoletores e os primeiros neolíticos terem coexistido, no tempo, em muitas áreas europeias e, nomeadamente, em Portugal; quanto aos sítios neolíticos do Estuário do Tejo, fica igualmente claro que eles coexistiram, também no espaço, com os concheiros mesolíticos; nesse sentido, o exemplo mais notório é o de Cortiçóis, [59] a que já fiz referência, localizado a curta distância dos concheiros de Muge.  

 

Casas Novas, coisas novas

O sítio de Casas Novas, localizado na margem esquerda do Sorraia, em frente a Coruche, foi objeto de uma escavação extensiva, abrangendo, no total, cerca de 400 m2. Uma única datação (5665‑5528 a.C), obtida a partir de carvões de espécies não identificadas, deu um resultado inverso ao da Valada do Mato, isto é, aponta para a fase de fundação e não para a fase de abandono do sítio.

Para além da proximidade relativa entre Casas Novas e os terrenos granitóides do Maciço Antigo alentejano, cerca de 20 km, foi sugerida, pelos responsáveis pela publicação do sítio, uma relação funcional, com base no estudo petrográfico das cerâmicas, uma vez que muitas delas contêm elementos não plásticos que denunciam solos de matriz granítica.[60]

A relação com o Maciço Antigo manifesta-se igualmente, como seria de esperar, nas matérias-primas usadas nos instrumentos de pedra polida e nos elementos de moagem. [61]

 

           

              Fig. 6.12 – A relação entre Casas Novas e o Maciço Antigo (Gonçalves e Sousa, 2018)

 

Um dos aspetos mais disruptivos, introduzidos pela descoberta do “povoado” de Casas Novas, foi a extensão inusitada (cerca de 30 ha); até recentemente, em Portugal, o único vagamente comparável, era o sítio de Vale Pincel 1, em Sines (com cerca de 10 ha).[62]

Porém, ao contrário de Vale Pincel 1, que foi interpretado como um povoado sedentário, apesar de alguma contestação, [63] para Casas Novas foi proposto um “modelo de ocupações curtas, sazonais, eventualmente associadas com a exploração de recursos ligados ao meio ribeirinho.” [64]

Já agora, note-se que outros sítios neolíticos da margem esquerda do Baixo Tejo, apesar de não quantificadas as respetivas áreas, são descritos, mais ou menos sucintamente, como ocupando grandes extensões.

No caso do sítio dos Cortiçóis (Almeirim), por exemplo, os autores apenas afirmam que “a estação se estende por vasta área” [65] e colocam a “hipótese de a formação desta extensa estação arqueológica ter resultado de sucessivas ocupações do local” [66]

Já o sítio da Quinta da Praia (Alcochete), publicado depois de Casas Novas, foi descrito, em termos dimensionais, como "a mais ampla realidade neolítica antiga documentada até ao momento na região" [67].

Voltando a Casas Novas, interessa sublinhar que “o elevado número de geométricos (41% dos registos de artefactos líticos) assume uma expressão muito superior ao registado em sítios neolíticos contemporâneos, o que pode indicar uma funcionalidade específica de Casas Novas ou mesmo a sua sazonalidade.” [68]

Esse caráter sazonal deduz-se também da baixa densidade de artefatos [69], comparando com os raros sítios do Alentejo Central que foram igualmente escavados e para os quais se propõe uma ocupação permanente.

Por exemplo, o número de fragmentos cerâmicos decorados proveniente de Casas Novas, [70] é praticamente idêntico ao que foi recolhido no Freixo do Meio 1 (perto de uma centena de exemplares, dos quais, num e noutro caso, cerca de uma dezena com decoração cardial). (Capítulo 8)

No entanto, no Freixo do Meio 1, foi escavada apenas uma área com cerca de 40 m2, face aos 400 m2, escavados no sítio de Coruche.

Note-se, como já sublinhei, que, em todos os sítios de ar livre, desta época, as escavações revelaram estratigrafias positivas pouco complexas, quase sempre resumidas a uma única camada de ocupação, com cerca de 30 cm de espessura, em média. A variável principal é, realmente, a densidade da cerâmica, por m2

Em qualquer caso, o principal argumento que tem sido utilizado a favor da sazonalidade dos sítios neolíticos do Baixo Tejo, reside no escasso potencial agrícola das áreas onde estes se instalaram: no Sorraia, Victor Gonçalves e Ana Catarina Sousa invocaram o facto de o local estar sujeito a inundações periódicas e de “os solos arenosos” afastarem “uma utilização agrícola desta área”. [71]

Outros autores, a propósito também dos sítios neolíticos dessa área, têm chamado a atenção para o facto de que os solos eram (e, em parte, ainda são) [72] impróprios para a agricultura, devido, sobretudo, à elevada salinidade. [73]

César Neves, um desses investigadores, concluiu, na sua tese de doutoramento, publicada recentemente, sobre o sítio do Neolítico médio da Moita do Ourives (Benavente), que, se a agricultura teve um peso significativo no subsistema económico deste grupo e na estratégia desta ocupação, então essa atividade terá sido realizada em outros espaços, ainda não identificados, possivelmente mais interiores no território, onde se encontrariam solos mais aptos.” [74]

Como já vimos, no Capítulo 3, o recorte cartográfico utilizado, por estes autores, obliterando o Alentejo Central, talvez seja parcialmente responsável pelo esquecimento. O vazio arqueológico, na "terra de ninguém" que separa o estuário do Maciço Antigo, ajudou certamente à confusão. 

Como o leitor certamente já adivinhou, do meu ponto vista, esses “outros espaços”, “mais interiores no território” e, supostamente, “ainda não identificados” só podem corresponder às manchas de rochas granitóides do Alentejo Central (e do Alto Alentejo), onde não faltam, como vimos, sítios do Neolítico antigo/médio.[75]

Na hipótese que proponho, cruzando os dados disponíveis, terão sido os grupos que habitaram, em permanência, os numerosos pequenos sítios no Alentejo Central (e, até agora, com muito menor visibilidade, no Alto Alentejo) a fazer curtas incursões periódicas às margens do estuário, com o objetivo de desfrutar dos recursos proporcionados pelo ambiente estuarino, nomeadamente a pesca e o marisqueio, mas não só.

A grande maioria dos sítios do Neolítico antigo/médio alentejano localiza-se, no máximo, a cerca de um dia de marcha, a partir dos sítios neolíticos do Baixo Tejo; a separá-los, a “terra de ninguém”.

Trata-se de uma área extensa, que corresponde, em termos geológicos, às bacias terciárias do Tejo e do Sado, composta por terrenos detríticos, sobretudo areias e cascalheiras, de muito fácil transitabilidade, [76] mas de escasso potencial agrícola, agravado pelo défice de água superficial, apesar de esconder, em profundidade, um aquífero notável. [77]

Manuela de Deus observou, a propósito, que “o aparente vazio de povoamento na bacia terciária do Tejo (…) também ocorre na região de Montargil. Não foram identificados vestígios de povoamento na grande mancha de terrenos terciários” [78]

No início do Neolítico, extrapolando os dados polínicos de que dispomos, essa área estaria coberta, tal como o Maciço Antigo, por densas florestas de pinheiros e carvalhos; junto ao estuário, esta floresta alternava com áreas mais ou menos pantanosas onde foram registadas espécies halófitas. [79]

Teoricamente, a total inexistência, ao longo de todo este vasto território, de evidências de povoamento neolítico, poderia resultar de um défice da investigação; porém, esse vazio, em termos de ocupação humana, manifesta-se igualmente em todas as épocas, até à Idade Moderna, certamente pelas mesmas razões.

A transitabilidade central desta “terra de ninguém” era assegurada pelo festo Tejo-Sado, a principal linha estruturante da paisagem regional que, como vimos, é um dos grandes caminhos naturais de ligação entre o litoral e o interior peninsular; subsidiariamente, podemos considerar, em escalas mais próximas, que a ligação “viária” entre os limites superiores dos estuários do Tejo ou do Sado e as bordas do Maciço Antigo seria feita pelos festos secundários que separam os principais afluentes (basicamente, o Sorraia e o Almansor, de um lado, e as Ribeiras de Valverde e do Xarrama, do outro).

Na verdade, a provável navegabilidade dos referidos afluentes, por embarcações de pequeno porte, entre os estuários e a periferia dos terrenos graníticos, contribuiu naturalmente para a conexão regular entre estas duas paisagens complementares.

Note-se que, no estudo sobre o conjunto megalítico da Herdade do Deserto, os autores defendem a relação desses monumentos com o “longo corredor de circulação entre o interior alentejano e o vale do Tejo, formado precisamente pelo interflúvio Rib. do Lavre – Rio Almansor.”[80] 

 

 

Um sabor a sal…

A falta de evidências (nomeadamente faunísticas) não permite estabelecer em que alturas do ano seriam frequentados os sítios neolíticos ribeirinhos, cuja sazonalidade parece, em todo o caso, bastante consensual; contudo, a hipótese mais razoável será, sem dúvida, a época estival, a mais apropriada, nomeadamente para o marisqueio e para a pesca, atividades que, no interior, seriam impraticáveis ou irrelevantes. Era, ao mesmo tempo, a época em que, terminadas as colheitas de cereais e leguminosas e terminada a ordenha dos ovicaprinos, no início do Verão, a atividade agropastoril se reduzia. Tal como as pastagens.

Porém, sem excluir, antes pelo contrário, o papel da pesca e do marisqueio, acrescentaria outra motivação, que creio bastante coerente com os dados disponíveis: a pastorícia.

No Neolítico antigo centro alentejano, a pastorícia e a agricultura são arqueologicamente pouco evidentes (por razões que têm a ver com a conservação dos materiais orgânicos), em termos de vestígios diretos.

No entanto, longe dos recursos aquáticos, a base económica dos primeiros neolíticos centro-alentejanos, teria sido, certamente, por exclusão de partes, a agricultura e a pastorícia, naturalmente complementada pela caça e recolecção, assim como pelo acesso mais ou menos regular aos ambientes aquáticos, sobretudo estuarinos, que as distâncias envolvidas certamente permitiam.

Por outro lado, é possível que a pastorícia tenha tido uma importância especial, na atividade económica destes grupos; esta preponderância pode deduzir-se a partir das representações dos báculos, nos menires e recintos megalíticos [81], mas também da preferência pelas áreas graníticas, muito mais adequadas à pastorícia do que à agricultura.

De resto, sabemos hoje que uma economia plenamente neolítica, em termos agrícolas e pastoris, estava bem instalada, desde datas muito precoces, no lapiás das Lameiras, Sintra, onde ossos de ovelha e restos de cereais se conservaram. Davis e Simões, 2016

Tendo isto em conta, os sítios do Baixo Tejo, poderiam ser os locais de acampamento, em época estival, das populações neolíticas (ou de um segmento delas), instaladas no interior, que conduziriam os rebanhos até às lezírias, numa transumância que, em princípio, coincidiria com a referida redução das pastagens verdes, no interior, isto é, os meses de Julho e Agosto.

Esse pastoreio implicaria, para além da estadia nas zonas mais ou menos pantanosas, junto às áreas afetadas pelas marés, durante um certo período, o aproveitamento das pastagens, sempre mais frescas, no Verão, ao longo das margens e do leito dos afluentes que ligam o estuário ao interior, nomeadamente o Sorraia e o Almansor.

É preciso notar que a salinidade dos solos, sendo incompatível com a agricultura, não é, necessariamente, incompatível com o pastoreio, embora este deva ser equilibrado com períodos em pastagens não salinas.

Um exemplo contemporâneo muito conhecido é o do Mont de Saint Michel (França) onde se criam ovelhas que, durante cerca de sessenta dias por ano, se alimentam das plantas tolerantes à salinidade elevada, numa área ciclicamente inundada pelas marés. O curioso é que a carne denominada “prés salés” é considerada de qualidade superior…

Essa prática é, aliás, tradicional noutras partes da Europa, nomeadamente na Baía do Somme, também em França, nos Países Baixos ou no Reino Unido e Irlanda. [82] Outro aspeto que importa considerar, nesta provável sazonalidade, é a produção de sal, prática que, até agora, os dados arqueológicos só confirmaram a partir do Neolítico final, nomeadamente nos sítios da Comporta e do Baixo Tejo,[83] mas que fazia certamente parte do quotidiano das populações do Neolítico antigo, como produto fundamental na conservação de alimentos e não só.[84]

Saliento que, em algumas áreas mais afastadas dos litorais, encontramos concentrações de povoamento neolítico antigo, próximas de explorações de sal gema, nomeadamente Rio Maior, na Alta Estremadura, ou Ambrona, no interior da Meseta.

Com ou sem rebanhos, podemos ver na complementaridade entre uma economia de base agropastoril, só praticável plenamente no interior, e uma economia de pesca e marisqueio, exclusiva do estuário, uma variante do conceito de economia anfíbia ou agromarítima, proposto pelos investigadores de Setúbal, para o Neolítico da Comporta.[85]

De facto, uma complementaridade económica entre os sítios neolíticos da margem esquerda do Baixo Tejo e os sítios do Alentejo Central e Alto Alentejo, poderia consistir numa relação de troca entre comunidades diferentes, ou, em alternativa, das mesmas comunidades que viveriam, de forma permanente, no interior, e se deslocariam, anualmente, durante o Verão, todas ou em parte, para explorar os recursos estuarinos (a pesca, o marisqueio, o sal e, eventualmente, as pastagens salgadas).

Esta segunda hipótese não exclui a possibilidade de as deslocações regulares, ao longo do ano, para obtenção de produtos sazonais frescos.

A complementaridade litoral/interior está igualmente na base de uma reflexão recente sobre o escoamento da produção de sal, no Neolítico final do Baixo Tejo, em que os autores propõem, depois de avaliarem as alternativas mais plausíveis, “uma relação preferencial com a periferia Noroeste do mundo do Alentejo Central”, por razões de proximidade espacial, naturalmente, mas também com base nos dados arqueológicos, nomeadamente as características das cerâmicas. [86]

Também os responsáveis pelo estudo (sem escavação) do sítio das Casas Velhas do Coelheiro, atribuível a uma fase mais avançada do Neolítico antigo/médio regional, reconheceram que “o Tejo e seus afluentes, bem como as vastas planícies existentes na envolvência, permitiam aos grupos humanos um ritmo de mobilidade sem grandes condicionalismos geográficos, possibilitando a deslocação até territórios e contextos geológicos distintos - Estremadura e Alentejo interior - com melhores condições para a prática da pastorícia e agricultura” [87]

As deslocações da margem esquerda do Tejo para a Estremadura justificam-se, objetivamente, em função da obtenção do sílex; quanto à agricultura e à pastorícia, o Alentejo interior seria naturalmente a opção mais plausível.

Seja como for, é possível que a dimensão excecional de Casas Novas, tal como dos restantes sítios neolíticos da margem esquerda do Estuário, se deve relacionar diretamente com a densidade excecional do povoamento neolítico centro-alentejano; esta relação preferencial não exclui naturalmente outras áreas adjacentes, nomeadamente, em primeiro lugar, a Península de Setúbal, e, na margem oposta, a Península de Lisboa.

Em boa verdade, quanto à interpretação das dimensões excecionais ocupadas pelos sítios neolíticos ribeirinhos, na margem esquerda do Baixo Tejo, podemos, teoricamente, considerar várias hipóteses.

Uma delas foi avançada para o sítio das Casas Velhas do Coelheiro (Salvaterra de Magos), cuja ocupação, segundo os autores, se deve “ter efetuado de forma horizontal, ao longo da plataforma, em diversos episódios ocupacionais, de forma temporária, embora enquadrados num mesmo patamar crono-cultural.”[88]

Esta leitura desconsidera as implicações, em termos do potencial demográfico envolvido; teoricamente, um pequeno grupo, ao longo de séculos, poderia ter criado esta imagem arqueológica; faltaria, no entanto, explicar por que razão mudariam de local de acampamento. Outra possibilidade, que me parece mais consistente, seria toda a área ser ocupada em simultâneo, com uma malha de povoamento mais ou menos frouxa, durante um tempo limitado.

Se compararmos a densidade das cerâmicas decoradas, por m2, do sítio de Casas Novas com a do Freixo do Meio 1 (na razão de 1/10), e admitirmos, por hipótese, que ambos funcionaram, em paralelo, ao longo do mesmo período de tempo (por exemplo, entre 5500 e 5000 a.C.), a permanência em Casas Novas seria da ordem de um a dois meses por ano, perfeitamente compatível com a sazonalidade proposta.[89]

 

Os caminhos das pedras

Escrevi, em 1993 (antes da descoberta do Vale Maria do Meio, da Valada do Mato ou da escavação dos menires de S. Sebastião) que os “cromeleques parecem pontuar um trajeto entre os estuários do Tejo e do Sado e o Rio Guadiana; os menires ocidentais deste conjunto aparecem-nos, no festo entre os dois primeiros rios, logo que se atingem as primeiras formações graníticas” [90]

Nesse mesmo texto (em que, pela primeira vez, usei o conceito de Alentejo Central), ligando os menires à neolitização e esta implicitamente aos concheiros, aludi a um “processo que deve ter-se desenvolvido do litoral para o interior, a partir do Neolítico Antigo/Médio”, dando origem às “primeiras redes de povoamento sedentário” [91] Isto significa que, desde então, creio que o que define melhor a personalidade geográfica do Alentejo Central e, ao mesmo tempo, a sua relação com as áreas adjacentes, é a rede viária natural, de que se destaca o caminho de “pé enxuto” que, ligando o litoral e o interior peninsular, é a “espinha dorsal” da região. 

Mas, para além desta via principal, importa referir que o festo Guadiana/Sado (e, depois, Guadiana/Mira), é o caminho natural por excelência, de Évora para o Baixo Alentejo e o Algarve. De resto, a relevância que, em termos nacionais, Évora assumiu, em época romana mas, sobretudo, no início da Idade Moderna, teve certamente a ver com a sua posição geográfica privilegiada.

 

 


 

 

Capítulo 7, onde se apresenta o neolítico do Freixo do Meio

 

Eureka!

As prospecções na Herdade do Freixo do Meio e na área envolvente, decorreram intermitentemente durante a pandemia. O tipo de uso agro-florestal, quase sem lavouras e mantendo preferencialmente o coberto vegetal, não facilita, naturalmente, a prospecção de superfície, em boa parte deste território. Mesmo assim, aproveitando os aceiros, gradados todos os anos, para prevenção de incêndios e a época, mais ou menos longa, em que a redução da vegetação herbácea permite uma maior visibilidade do solo, foi possível registar um número elevado de sítios inéditos, a acrescentar a uma mancha de povoamento (mormente achados avulsos), aliás excecional, no âmbito do concelho, que constava já do PDM de Montemor-o-Novo.

As prospecçôes contaram com a participação ativa do proprietário, Alfredo Sendim, cujo profundo conhecimento sobre a paisagem da Herdade, junto com um interesse muito forte em acrescentar-lhe a dimensão tempo, foram fundamentais. 

Os sítios identificados distribuem-se por várias épocas (do Paleolítico à Idade Média/Moderna) e diferentes tipologias, nomeadamente achados avulsos, mas também "povoados", sepulturas, pedras com covinhas, entre os que mais interessam para os temas do megalitismo e da neolitização (Fig. 7.8).

Nesse grupo, destaco a identificação (e escavação [92]) do “povoado” do Freixo do Meio 1, assim como o registo de um menir, decorado com covinhas, a escassas centenas de metros do “povoado”.

 

        A B

                                    C

          Fig. 7.1- A: Menir decorado com covinhas; B: Freixo do Meio 1, Sondagem 1 (Foto Claudia Tholen); C:  Freixo do Meio 1, Sondagens 1, 2 e 3, no final dos trabalhos.

A descoberta do Freixo do Meio 1 merece uma descrição mais pormenorizada. 

Na primeira visita que fiz ao local fiquei, desde logo, convicto da alta probabilidade de estar perante uma ocupação do Neolítico antigo: a monumentalidade dos afloramentos graníticos (mais destacados no lado NW), delimitando uma plataforma bastante aplanada, aberta a Nascente-Sul, era, só por si, um elemento promissor[93]

Era Primavera e a erva estava crescida, tornando muito difícil a visualização de materiais de superfície. Felizmente, depois da quase extinção dos coelhos, ainda se mantêm ativas, no Freixo do Meio, algumas tocas de texugos e raposas; foi precisamente junto a uma dessas tocas que, nesse dia, encontrei os primeiros indícios de que a primeira impressão devia estar correta: um fragmento de cerâmica manual, sem decoração, e uma lasca de pedra siliciosa. Bastou para ter proposto ao proprietário e limpeza da vegetação herbácea, para podermos observar a superfície do solo.

Ligou-me, uns dias depois, informando que, como se esperava, lá estava o que procurávamos: lamelas e cerâmica decorada.

Uma nota curiosa: soube, entretanto, que o local tinha, uns tempos antes, sido escolhido por alguém que procurava um cenário bonito para uma sessão de yoga, ao ar livre. Isto demonstra que, mesmo sem nenhum viés arqueológico, o local tem, indiscutivelmente, uma beleza natural sugestiva.

Aproveito para aconselhar a visita ao local, com guia, integrada no contexto do percurso temático "Origens". Creio, aliás, que o Freixo do Meio 1 é o único sítio do Neolítico antigo, em Portugal, com visitas guiadas organizadas...

O Freixo do Meio 1 (genericamente contemporâneo da Valada do Mato) localiza-se a cerca de 6 km a Norte do recinto megalítico de Cuncos Gomes, 1986, e a cerca de 10 km a Sul do Arneiro dos Pinhais, onde existiu, em tempos, outro destes monumentos. Mataloto, 2017

A paisagem é, atualmente, um belíssimo montado de sobro e azinho, numa topografia  suave, pontuado por "ilhotas" graníticas, localmente designadas por arrifes, onde prospera uma vegetação mais diversa, nomeadamente o medronheiro (Arbutus unedo), o sanguinho (Ramnus alaternus), o aderne (Phyllirea latifolia) e algum zambujeiro (Olea europaea, var. sylvestris).

 

A terceira dimensão

Foram escavados apenas cerca de 40 m2, no total, em duas pequenas campanhas, em 2021 e 2022; na primeira campanha, foram abertas quatro sondagens de 2m x 2m, dispostas estrategicamente na plataforma onde se identificaram os materiais de superfície, tendo em vista a identificação de áreas especificas, com maior potencial arqueológico. Todos os sedimentos foram crivados.

No lado Oeste, junto ao maior afloramento, o qual coroa a parte superior da plataforma, a sondagem forneceu escassos materiais, sugerindo que este espaço, com uma localização privilegiada, foi ocupado por uma cabana.

No lado Norte e no centro da plataforma, apesar da abundância de materiais, a indefinição estratigráfica foi interpretada como resultado da atividade agrícola, ao longo de séculos, a somar-se às  perturbações de origem natural.

Atendendo aos resultados obtidos, a segunda campanha, em 2022, concentrou-se na área localizada mais a Sul (Sondagem 4), uma vez que foi a única das quatro sondagens em que se identificou alguma complexidade estratigráfica, indiciando uma menor afetação, em termos tafonómicos. 

 

   

                                Fig. 7.2 - Plantas da escavação da Sondagem 4. 

 

Sem surpresa, por ser essa a norma habitual, em contextos comparáveis, a estratigrafia resume-se, em toda a área, a uma camada superficial, com materiais, mas claramente afetada quer pelas lavouras, quer por agentes naturais. Sob esta camada, foi identificada, com maior ou menor nitidez, conforme as sondagens, uma outra camada, de coloração mais escura, com espessura média de 30 cm. O substrato geológico é, em vários pontos, constituído por afloramentos graníticos ou por areão estéril, resultante da alteração da rocha-mãe.

Quanto à sondagem 4, o maior grau de preservação estratigráfica explica-se, sobretudo, por se encontrar protegida por afloramentos, dificultando as lavouras.

Nesta área, foram identificados, sob a camada arqueológica melhor conservada, restos de estruturas negativas pouco profundas (silos ou fossas). A única vasilha cerâmica, quase integralmente reconstituída (Fig. 7.3, nº1), provém do fundo de uma destas estruturas.

A interpretação das estruturas negativas é, como habitualmente, problemática. Neste caso, tanto podem ser os fundos de silos (sem barro cozido) muito destruídos, no troços superiores, como podem corresponder a pequenas fossas, de função desconhecida, entretanto colmatadas ou reutilizadas.

Faltam evidências, mas à luz do pouco que sabemos sobre este tema, nesta época, podia inclusivamente tratar-se de fossas funerárias. Porém, faltam carvões ou ossos e, à parte o referido vaso em conexão, nada aponta para oferendas funerárias. 

A continuação da escavação, nesta área, poderia eventualmente resolver algumas das dúvidas que subsistem e, com sorte, obter datações absolutas credíveis.

 

Os artefatos

Os artefatos recolhidos, quer à superfície, quer na escavação, constituem uma amostra bastante representativa do Neolítico antigo, atribuível à segunda metade do VI milénio a. C., por comparação com os sítios que dispõem de datações absolutas e que já foram, no essencial, apresentados e discutidos, nos capítulos anteriores.

Quanto aos materiais cerâmicos (Fig. 8.2), dominam as decorações impressas, incluindo a cardial, mas estão igualmente bem representadas decorações incisas e plásticas. De assinalar que está ausente o caraterístico sulco abaixo do bordo, ficando descartada, à partida, uma continuidade pelo Neolítico médio. 

 

          1  2

 

      3  4

 

  5  6

 

  8

 

9  10 

 

     11  12

13 14 

 

                                Fig. 7.3 - Cerâmica decorada do Freixo do Meio.

 

 

Quanto aos materiais líticos, destaca-se também a presença de indústrias microlaminares, maioritariamente em sílex, com a presença de dois crescentes. Estão atestados, em proporções semelhantes às da Valada do Mato (isto é, reduzidas), os elementos de mós e a pedra polida.

  A B

 

Fig. 7.4 – A: Elementos de mós manuais (moventes); B: Instrumentos de pedra polida.

 

 

 

A  B C

Fig. 7.5 - A: Dormentes de mós manuais; B: Percutor de quartzo e barro de cabanas; C: Paleta e polidor de contas de colar

 

.

             Fig. 7.6 - Amostra de materiais líticos (sílex e quartzito)

 

In medio stat virtus

Em suma, apesar de a amostra ser quantitativamente mais reduzida do que no povoado eborense, tudo aponta para uma contemporaneidade genérica entre o Freixo do Meio 1 e a Valada do Mato, localizada a cerca de 30 km, a SE.

Comparando as localizações de ambos, no contexto geográfico regional, pode afirmar-se que o sítio da Valada do Mato se implantou no centro do Alentejo Central, perto do ponto em que as três linhas de festo principais se encontram, rodeado por uma mancha densa de sítios contemporâneos e no aro imediato dos grandes recintos megalíticos, enquanto o Freixo do Meio 1 se localiza na periferia ocidental, em plena bacia do Tejo, com uma mancha de pequenos sítios em redor, associados igualmente aos afloramentos graníticos e alguns recintos megalíticos e menires, de menores dimensões.

Na verdade, se concebermos uma penetração de grupos neolíticos ou em vias de neolitização, a partir do estuário do Tejo, através do Almansor (ou do festo Almansor-Sorraia) [94], o Freixo do Meio 1 (ex-aequo com Chaminé, Fanica, em Mora [95], ou Cuncos, em Montemor-o-Novo, por exemplo) estaria na primeira linha, isto é, entre as áreas mais próximas, com condições indiscutíveis para a prática da agricultura e da pastorícia, assim como para a obtenção de matérias-primas tipicamente neolíticas, como o granito, para as mós, ou o anfibolito para os machados.[96]

De facto, em termos de acessibilidade, a partir de ambos estuários, é na borda do Maciço Antigo, num arco que vai desde Ponte de Sor, por Mora, Montemor-o-Novo, até Viana do Alentejo, que se localizam, para além do Freixo do Meio 1, uma série de sítios do Neolítico antigo, assim como menires isolados e pequenos recintos (Alminho, Fontaínhas, Vale d'El Rei, Alto da Cruz, Arneiro dos Pinhais, Cuncos, Sideral, Tojal ou Casas de Baixo).(Fig. 7.8). 

          

 

Fig. 7.8 - Distribuição dos pequenos recintos da periferia ocidental (mancha verde), em relação aos sítios do Freixo do Meio 1 e das Casas Novas; 1: Recintos da Portela de Mogos e Vale Maria do Meio; 2 Recinto dos Almendres; 3. Encruzilhada dos 3 caminhos (menir da Oliveirinha).

 

Amigos, amigos, negócios aparte

      No contexto do Sudoeste ibérico, torna-se cada vez mais difícil defender, como já vimos, que “pequenos grupos de navegadores do Neolítico Antigo — culturalmente atribuídos às tradições da Impressa ou da Cerâmica Cardial — parecem ter evitado rigorosamente zonas ocupadas, reforçando o fosso entre estes diferentes sistemas socioculturais.” [97]

É justo referir que a mesma autora não deixou de apontar uma brecha no modelo, ao lembrar que “os vasos cardiais isolados do Cartaxo e de Santarém, recuperados na margem direita do Tejo, em frente a concheiros mesolíticos, revelam a proximidade entre ambos os grupos, apesar do silêncio arqueológico sobre as suas relações” [98] Mesmo assim, a instalação dos primeiros neolíticos em algumas áreas devolutas, não sendo exclusiva, continua a ser um facto, quer se considerem os sítios do Baixo Tejo, quer os sítios do interior, embora, no primeiro caso, esse distanciamento seja menos evidente. 

Porém, essa aparente segregação pode, muito simplesmente, resultar das diferenças, em termos de capacidade de uso agrícola e pecuário dos solos, tornando, por isso, a neolitização in situ pouco interessante para as bem sucedidas comunidades do mesolítico final; pode, por outro lado, ser o resultado clássico dos processos de fissão, em que uma parte da comunidade se afasta, para, com isso, resolver tensões e opções diferentes, para distâncias que garantem a autonomia, mas permitem a manutenção de laços sociais e familiares. 

 

Dating Women and Becoming Farmers”[99]

A velocidade do avanço da neolitização, de Leste para Oeste, só seria viável, alegadamente, através da instalação de colonos, por via marítima. Porém, a mobilidade reconhecida, precisamente por via marítima, das populações do mesolítico final e as redes de contatos de longa distância, comuns, aliás, a outras regiões europeias, seriam, perfeitamente suficientes, para, com base na exogamia e processos associados, “contaminarem”, rapidamente, de Leste para Oeste, os últimos caçadores-recoletores. 

Se uma mulher de uma comunidade já neolitizada fosse parar (patrilocalidade) a uma comunidade ainda não neolitizada, é fácil entender que a neolitização estaria eminente ou já em curso, nessa comunidade.

 

Primus inter pares?

Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, a partir dos trabalhos desenvolvidos na Costa Sudoeste e, em particular, a partir das datações obtidas no sítio de Vale Pincel 1 e do estudo de sítios mesolíticos naquela área, têm vindo a sugerir que, estaríamos aqui e, eventualmente, no Algarve ocidental, perante as mais antigas manifestações da neolitização do atual território português.[100]

Num texto recente, foi usada a expressão “Neolítico antigo arcaico ou pré-cardial” e, desta vez, foram incluídos nessa categoria, ex-equo, os sítios da Costa Sudoeste, do Ribatejo e da Baixa Estremadura, com datas mais antigas (além de Vale Pincel 1), Samouqueira 1, Cabranosa, Padrão, Casas Novas e Lameiras.[101]

João Zilhão, que concentrou os seus estudos nas grutas da Alta Estremadura, defendeu, e continua a defender,[102] que se localizaram aí os primeiros enclaves neolíticos, com cerâmica cardial barroca e as datas mais antigas; recordo que o modelo nasceu numa época em que, por um lado, dispúnhamos de muito menos evidências cronológicas e a anterioridade da cerâmica cardial parecia ainda uma hipótese aceitável, sem discussão.

Por outro lado, o povoado neolítico antigo da Senhora da Alegria, foi incluído “entre os mais antigos para o início do Neolítico no Centro de Portugal.” deixando subentendido o caráter relativamente tardio da neolitização desta região, em relação aos sítios mais meridionais.[103]

Atualmente, outros sítios se perfilaram como possíveis pioneiros, nomeadamente o sítio das Casas Novas, em Coruche. Os autores, a propósito, escreveram que “a homogeneidade da cultura material pode (...) suportar uma proposta de antiguidade para o Neolítico de Casas Novas, num enquadramento eventualmente pré‑cardial” [104], colocando este sítio em paralelo com Vale Pincel 1 e Lameiras; neste último, Teresa Simões e Simon Davis, obtiveram datações semelhantes, mas sobre amostras de vida curta, incluindo espécies domésticas.[105]

Recordo ainda que as escavações no povoado do Prazo[106], tal como no Xarez 12 [107], ou no Alminho[108] levou os respetivos escavadores a assumir a possibilidade de ocupações mesolíticas, sem hiatos, pelo que estes sítios seriam teoricamente integráveis entre os mais antigos.

É evidente que, para uma interpretação cabal do processo de neolitização, não é irrelevante a área onde esse fenómeno ocorreu em primeiro lugar; é um facto também que os arqueólogos tendem a ver, nos sítios e áreas que estudam, os mais antigos...

A exceção a esta tendência é a Valada do Mato, o sítio centro-alentejano mais citado na bibliografia específica, que foi arrumado no chamado Neolítico antigo evolucionado ou epi-cardial e até, como se viu, no Neolítico médio.

Os dados e interpretações acima apresentados (enquanto não dispomos de datações mais fiáveis) pretendem trazer o Neolítico antigo centro-alentejano para o grupo seleto dos mais antigos em Portugal e, para não ser exceção à regra, destacar a hipótese de, nesse grupo, o Freixo do Meio 1 (seguido da Valada do Mato), ser um dos mais antigos.

 

 

 

                        Fig. 7.9 - Cartografia dos sítios neolíticos da área do Freixo do Meio 1 

Capítulo 8, onde se procuram pistas para a "big picture" da emergência do megalitismo atlântico

 

Recapitulando...

Como certamente já ficou claro, não partilho daquele “pressuposto colonialista” que, na opinião de Joaquina Soares, “tem vindo a contaminar o pensamento arqueológico atual”. [109]

Por outro lado, não tenho dúvidas sobre o facto de, em diversos contextos históricos, as invasões e as colonizações, terem sido os motores da mudança e de, na neolitização da Europa, terem existido situações muito diferenciadas.

Seja como for, há vinte anos, expus uma série de argumentos, de claro pendor indigenista, que, no geral, considero ainda válidos, aos quais se juntaram novos dados que, do meu ponto de vista, vieram reforçar o essencial da proposta, [110] embora introduzindo nuances importantes.

Escrevi, nessa altura que “como alternativa ao modelo de difusão démica e, sobretudo, à versão mais radical dos enclaves neolíticos, os dados disponíveis para a neolitização do Alentejo Central podem, com vantagem, ser interpretados como o resultado do dinamismo das últimas sociedades de caçadores-recoletores dos estuários do Tejo e do Sado. A singularidade dos menires alentejanos, exige um contexto singular.”[111]

Recapitulando, para avaliar o papel que o Alentejo Central pode ter tido na neolitização do território português, procurei, entre outros aspetos, entender a relação espacial, nomeadamente em termos de acessibilidade, mas também de complementaridade ambiental, entre esta região e os estuários adjacentes.

Para contextualizar a excecionalidade do fenómeno menírico centro-alentejano, chamei à colação  a indiscutível concentração, sem paralelo na Península Ibérica, das últimas comunidades de caçadores-recoletores-mariscadores, nos limites superiores dos estuários do Tejo e do Sado,[112] e, em paralelo, a densidade excecional de sítios de ar livre, atribuíveis ao Neolítico antigo, no interior alentejano. 

 

Casas Novas, coisas novas...

Como já sublinhei, a principal novidade, nas últimas duas décadas, com fortes implicações na neolitização do atual território português e, em particular, do Alentejo Central foi a descoberta e escavação do sítio de Casas Novas, em Coruche.[113]

Quando, em 2017, tive a oportunidade de visitar a escavação, a convite dos responsáveis pelo estudo do sítio, ficou, para mim, muito clara a necessidade de integrar essa nova realidade, nos modelos interpretativos em discussão.

Desde logo, as dimensões incomuns (30 ha), que é preciso relacionar teoricamente com a excecionalidade dos outros  fenómenos contemporâneos, já mencionados: os concheiros mesolíticos, os povoados "megalíticos" e os menires.

A par destes dados, de ordem arqueológica, volto a chamar a atenção para os elementos, de ordem geográfica, cuja excecionalidade, à escala peninsular, deve entrar na equação, nomeadamente o maior rio da Península e, por consequência, o maior (e melhor) caminho natural, para a ligação do litoral atlântico ao interior. O maior estuário da fachada atlântica europeia, em termos de biodiversidade, e, numa escala mais próxima, a maior mancha de rochas granitoides, diretamente acessível a partir dos estuários e atravessada por aquela via natural de trânsito.

 

                           

Fig. 8.1 - Transição Mesolítico-Neolítico: alguns dados geográficos e arqueológicos referentes ao Sul de Portugal

 

Quanto às Casas Novas, a interpretação do sítio como resultante de “ocupações curtas, sazonais, eventualmente associadas com a exploração de recursos ligados ao meio ribeirinho”[114] implica, obrigatoriamente, a existência de sítios contemporâneos, algures na região. 

As presumidas bases residenciais permanentes, pelo menos as mais acessíveis, encontramo-las, dispersas pelo território do Alentejo Central (e do Alto Alentejo), organizadas maioritariamente numa série de pequenas quintas familiares (montes), que designei como "povoados megalíticos", em número suficiente e suficientemente organizadas, para a realização de grandes obras públicas (menires e recintos megalíticos).

Casas Novas e os outros sítios neolíticos do Baixo Tejo, localizados na margem esquerda do estuário, são provavelmente todos, ou maioritariamente, complementares dos sítios plenamente sedentários, instalados no interior, em áreas mais viáveis, em termos agrícolas e pastoris; essa complementaridade, pode implicar, regular ou sazonalmente, expedições ao estuário, com ou sem os rebanhos de ovicaprídeos, para abastecer a despensa com os recursos aí disponíveis, tendo em conta as distâncias envolvidas (1 dia de marcha, em média).

Esse modelo explicaria, como vimos, a área excessivamente ampla das Casas Novas (e a escassa densidade relativa de artefatos). Mais do que um povoado, seria um acampamento estival, portanto sem necessidade de estruturas permanentes; a presença de vestígios de cereal, cultivado presumivelmente noutro lado, assim como as mós, podem corresponder às provisões que os grupos levariam dos “montes” alentejanos, para processamento e consumo, durante a estadia. Tal como, segundo parece, levaram as vasilhas de barro[115] (a não ser que se considerasse, por absurdo, que o que transitava do Maciço Antigo para o estuário, era o barro propriamente dito).

 

Indígenas q.b.

Assim, se excluirmos a hipótese dos enclaves de colonos pioneiros (vindos algures de longe, como estranhos numa terra estranha) e aceitarmos a neolitização a partir das sociedades mesolíticas indígenas, podemos, em alternativa, considerar dois cenários principais.

Um deles, que corresponde à posição tradicional dos neolitistas que trabalham na Costa Sudoeste, considera os sítios mesolíticos litorâneos dessa área, como os protagonistas das primeiras experiências agropastoris. Essa perspectiva apoia-se, teoricamente, em fatores de ordem ambiental: nos Estuários, sem constrangimentos económicos, ter-se-ia mantido, irredutível, o modo de vida mesolítico; mas na costa Sudoeste, mais limitada economicamente, a transição teria sido mais atrativa... [116]

A apoiar esta leitura, tínhamos, no mesmo tipo de paisagem, na Costa Sudoeste, vários sítios mesolíticos, sugerindo uma neolitização mais ou menos in situ;  por outro lado, os materiais exumados em Vale Pincel 1, nomeadamente cerâmicas impressas e uma indústria microlítica de recorte mesolítico, entretanto reforçados com datações radiocarbónicas, apontavam claramente para o Neolítico antigo.

Esta interpretação escorava-se, de forma implícita, na evidência, que todos partilhamos, de que a neolitização, de uma forma ou de outra, correspondeu a um movimento, por via marítima, de Oriente para Ocidente; ora, se considerarmos o velho modelo da “onda de avanço”,[117] linear e paulatina, é claro que o Algarve e a Costa alentejana, por esta ordem, seriam as primeiras áreas afetadas.

É justo reconhecer, também neste caso, que este modelo foi construído numa época em que os dados disponíveis eram ainda muito balbuciantes: o interior alentejano era, nessa altura, um território aparentemente vazio, onde, em termos de Neolítico antigo, apenas se conhecia um possível episódio funerário, num contexto excecional, a Gruta do Escoural.[118]

Entretanto, João Zilhão, propondo um avanço não linear (leapfrog migration), mais conforme com as datas disponíveis, fez um bypass pela Costa Sudoeste e propôs que os primeiros colonos se teriam instalado diretamente na Alta Estremadura, alegadamente para evitar o contato (e a competição) com os indígenas. Ou, numa versão alternativa, incluindo o Algarve ocidental.[119]

Nessa visão, os concheiros mesolíticos dos Estuários teriam ficado fora do processo, suspensos durante séculos, até, finalmente, se converterem. É aqui um dos pontos em que indigenistas e colonialistas coincidem.

Já da parte dos mesolitistas, o suposto imobilismo dos últimos caçadores-recoletores tende a ser visto de forma mais dinâmica. De facto, Rita Peyroteo-Stjerna, por exemplo, observa que a atividade funerária, nos concheiros, foi esmorecendo, ao longo da segunda metade do VI milénio a.C., em paralelo com a expansão do modo de vida agro-pastoril. A autora não relaciona explicitamente os dois fenómenos, mas o paralelo não deixa de ser sugestivo.[120]

Num cenário alternativo, que há muito defendo e me parece o mais adequado, terão sido as populações dos Estuários do Tejo e do Sado a receber, através das suas extensas redes de contatos, os primeiros influxos neolitizadores, e dessa interação, terão saído os primeiros "convertidos". 

Nesse caso, o Alentejo Central seria o destino mais expectável, atendendo à contiguidade geográfica e à transitabilidade, embora provavelmente a instalação desses pioneiros neolíticos tenha atingido igualmente outras áreas, num processo que, perante a resolução das datas de que dispomos, foi praticamente simultâneo. A Península de Lisboa, em particular, parece ter sido "colonizada" numa fase bastante precoce, atendendo à datas  da primeira metade do VI milénio a.C., obtidas no sítio das Lameiras.[121]

As razões, de ordem económica, que justificam este movimento (que já apelidei de colonização interna, isto é, a ocupação de áreas próximas, até aí devolutas)[122], prendem-se, antes de mais, com a (in)disponibilidade de solos com potencial agrícola, nas  margens dos Estuários, facto que tem vindo a ser reconhecido, por vários autores, mas apenas a propósito dos sítios neolíticos da margem esquerda do Baixo Tejo.[123] Esta limitação  ambiental implica só por si,  que as comunidades mesolíticas ribeirinhas não dispunham das condições necessárias para uma efetiva neolitização in situ

 

Crescei e multiplicai-vos

A comparação entre as datas disponíveis, nomeadamente com base em amostras de vida curta (as mais fiáveis), aponta para uma neolitização muito rápida, de Oriente para Ocidente, ao longo do Mediterrâneo e do Atlântico, mas igualmente rápida na progressão do litoral para o interior da Península Ibérica.

A rapidez da disseminação, cada vez mais evidente, no interior peninsular, nomeadamente no Alentejo Central, é dificilmente compaginável com os pequenos grupos de colonos pioneiros que, supostamente, estariam na origem da neolitização; o potencial demográfico do povo dos concheiros parece, pelo contrário, constituir uma base mais sólida para a rápida ocupação de extensos territórios, no interior.

A chave para entender a velocidade dessa progressão é preciso procurá-la, primeiro que tudo, na alta conectividade das comunidades mesolíticas, denunciada através de relações de longa distância, como as que testemunham, tendo como centro o Tejo/Sado, as semelhanças notórias com a Bretanha[124] , por um lado, e com a região valenciana (La Cocina)[125], pelo outro.

De resto, as capacidades náuticas mesolíticas têm sido apontadas por muitos autores, com base em dados de diversos contextos geográficos europeus, que implicam “viagens de longa distância”  e que “eram obviamente realizadas para estabelecer e manter redes sociais, para trocar notícias e inovações e para abastecer de matérias-primas.”[126]

Porém, convém ter em mente o expectável crescimento demográfico, no Mesolítico final, que, segundo parece, foi uma consequência do aumento da fertilidade feminina e da redução do intervalo entre nascimentos, graças ao incremento da diversidade alimentar e da estabilidade residencial;[127]

É provável que o aumento da população tenha desempenhado um papel importante na rapidez e na extensão da neolitização do interior peninsular, até porque a redução da atividade dos concheiros, a partir de 5500 a.C.,[128] é, à primeira vista, contraditória com o crescimento demográfico dessas comunidades.

De facto, esse putativo crescimento poderia ter alimentado o contingente de pioneiros agropastoris e, simultaneamente, mantido ativos, mesmo em declínio, os concheiros mesolíticos.

Em paralelo, há que considerar a provável alta taxa de crescimento demográfico dos primeiros grupos neolíticos, dispondo de solos virgens, portanto extremamente férteis, sem constrangimentos territoriais, florestas até aí pouco perturbadas (onde não faltaria a caça, nem a bolota, por exemplo) num ambiente de paz e estabilidade, praticando uma economia (agromarítima) em que a caça/pesca/recolecção  deve ter mantido uma importância significativa.

A expansão do povoamento neolítico relaciona-se, naturalmente, com “a nova intensificação económica proporcionada pela integração da agricultura no sistema de subsistência de largo espectro mesolítico” e “ampliou aquela anterior dinâmica de crescimento demográfico, bem expressa na cartografia do povoamento neolítico”,[129] ou, dito de outro modo, na “aparente explosão de povoados a céu aberto que ocorreu no último terço do 6º milénio a.C.”, se não antes".[130] E, na maior parte do território português, mas concretamente no Alentejo Central, a interiorização do povoamento provavelmente nunca implicou um corte radical com as áreas litorais e estuarinas mais próximas, cuja ocupação seria, nesta fase, apenas sazonal ou, no mínimo, esporádica.

 

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra

É  curioso, regressando à nossa Hécate, senhora das Encruzilhadas de Três Caminhos, que, na obra de Hesíodo, a deusa abençoe os pescadores e os pastores (em conjunto com Poseidon e Hermes).[131]

O conceito de economia agromarítima, a que já fiz referência,[132]  pode, com algumas adaptações, (sobretudo se considerarmos as variantes agroestuarina e agrofluvial) ser aplicável, a partir do Neolítico antigo, supondo que a interação entre litoral e interior  “se fizesse através de trocas regulares de bens alimentares: peixe salgado e/ou fumado, sal e moluscos disponibilizados pelas populações ribeirinhas, e, em sentido inverso, pão e gado".[133]

Para os criadores do conceito, o povoamento do interior (deduz-se que o interior alentejano), corresponderia ao “modo de produção doméstico evolucionado ou megalítico” que, na sua opinião, seria “claramente hegemónico”, enquanto o modo de produção “agro-marítimo estuarino”, seria “subordinado ao primeiro”.[134] Apesar de o termo "megalítico" ter sido aplicado, neste contexto, apenas ao megalitismo funerário, parece-me perfeitamente aplicável, mutatis mutandi, aos menires alentejanos que correspondem, na verdade, aos mais antigos monumentos megalíticos, nesta região.  

O caráter "subordinado" dos sítios ribeirinhos, considerando duas comunidades diferentes, mas interligadas por laços de troca, equivale, de certo modo, ao proposto caráter sazonal (ou pontual), considerando, neste caso, que se trataria basicamente da mesma comunidade.  

É evidente que o conceito de economia agromarítima perde eficácia, à medida que nos afastamos do litoral, mas permite encarar uma base económica diferenciada para explicar a densidade e dimensão dos monumentos megalíticos mais antigos, no Alentejo Central.

A complementaridade económica, implícita na economia agromarítima, foi igualmente sugerida, a respeito dos sítios do Neolítico antigo litorâneo da área de Valencia; segundo Pascual Benito, "não é descabido pensar que pelo menos alguns dos sítios neolíticos costeiros eram sazonais, dedicados a alguma tarefa específica, e que estes grupos passavam a maior parte do ano em povoações situadas no interior.”  Concluindo que “o consumo de produtos do mar pode ter ocorrido de forma esporádica, possivelmente durante períodos muito curtos, e como complemento de dietas em que os cereais e os produtos cárneos eram a componente principal.” [135]

Alguns sítios do Neolítico antigo, mais interiores, como é o caso de Los Barruecos, Canaleja 2, Cerro de la Horca,[136] ou La Paleta[137] localizados ao longo do caminho natural, que liga o Cabo Espichel ao centro da Península Ibérica (com o qual, aliás, se relacionam também os principais menires e sítios neolíticos antigos do Alto Alentejo) fazem provavelmente parte de uma sequência, cujos pontos de partida são, no limite, os estuários do Tejo e do Sado, e cujo ponto de chegada coincide, em Ambrona, com uma outra grande via ligando o Mediterrâneo e a Meseta, través do festo que delimita, a Oeste, a bacia do Ebro (Fig.3.3).[138]

Talvez não seja coincidência o facto de, ao longo desse percurso, os menires (e as respetivas dimensões) se irem reduzindo, num gradiente notório, de Oeste para Leste, até ao interior da Meseta, enquanto, noutros aspetos da cultura material, as diferenças são pouco perceptíveis.

O modelo agromarítimo, por outro lado, exige uma revisão da ideia, proposta e aceite, desde há muito, de que os solos arenosos teriam sido os preferidos pelos primeiros grupos neolíticos, atendendo à “incipiente tecnologia agrícola.[139] No mesmo sentido, creio que faz sentido colocar a hipótese, sobretudo no caso de Vale Pincel 1, de uma ocupação sazonal ou periódica, como se propôs, com base em critérios comparáveis, para Casas Novas ou, como vimos, também para os sítios do litoral de Valência.

Note-se que, se tomarmos em conta a densidade dos materiais exumados, apesar de não ter sido ainda publicado o grosso do espólio proveniente de cerca de 2000 m2 escavados, tudo indica que seja muito inferior a sítios de interior, como a Valada do Mato ou o Freixo do Meio 1.

Aliás, a propósito do material lítico recolhido na primeira fase das escavações, em Vale Pincel 1, João Zilhão sugere que a quantidade de peças  por m2 não permite concluir que se trata de um acampamento-base; isto é, seria um sítio de ocupação sazonal.[140] É certo que Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares deixaram bem expressa a ideia de que, naquela área, a economia assentava, fundamentalmente, na “pesca, na caça e na recolecção", acrescentando que "a agricultura ocupa um lugar francamente secundário”.[141]

Indiretamente, reconhecendo o fraco potencial agrícola dos solos de Vale Pincel 1, sugerem que o povoado da Salema, que consideram posterior a Vale Pincel 1, se tenha  estabelecido “a alguns quilómetros da costa e na proximidade de terrenos mais férteis;”[142]

Para além da Salema e dos sítios do Alto Sado, relacionáveis geograficamente com a Costa Sudoeste, talvez falte ainda localizar os sítios do Neolítico antigo, no interior; reconhecendo essa expectável lacuna, Joaquina Soares propôs, recentemente, o “incremento da arqueologia de campo cientificamente orientada”.[143]

Esta necessidade já tinha, aliás, sido apontada no estudo percursor sobre a pré-história da área de Sines, onde se anotaram “lacunas da prospecção arqueológica na faixa oriental da região” [144] e, por extensão, no interior alentejano.

 

Economia agrofluvial

Dentro do Alentejo Central, a área de Reguengos de Monsaraz merece, neste contexto, um tratamento diferenciado.

Na perspectiva que tenho vindo a defender, esta área, com um importante complexo de menires e recintos megalíticos e o concomitante povoamento do Neolítico antigo, dificilmente poderia ser integrada no modelo interior/estuários que se aplica, sem dificuldade, às áreas de Mora, Montemor-o-Novo ou Évora. Por exemplo, o sítio das Casas Novas dista cerca de 30 Km do Freixo do Meio 1 e cerca de 60 Km da Valada do Mato. Já a Baixa do Xarez, em Reguengos de Monsaraz, dista cerca de 120 Km...

Sem excluir que Reguengos de Monsaraz possa ter mantido relações regulares com os Estuários, é razoável supor que estas terão sido relativamente menos significativas. 

Porém, em comparação com os outros sítios do Neolítico antigo do Alentejo Central, concentrados sobretudo nas áreas das cabeceiras fluviais ou nas bordas ocidentais do Maciço Antigo, com uma rede hidrográfica incipiente, Reguengos de Monsaraz dispunha dos recursos cinegéticos e pecuários, proporcionados pelo rio Guadiana. 

Note-se que, até à construção da barragem do Alqueva, o leito do Guadiana (onde se localiza a maioria das gravuras rupestres), na época estival, era usado como pastagem, uma vez que era, na região, um oásis verde e com água, na secura do campo alentejano. O uso deste recurso, para além da dimensão cinegética que o rio potencia, foi possivelmente o pano de fundo para o complexo de arte rupestre do Guadiana, de cronologia maioritariamente holocénica.[145]

Reguengos seria pois o resultado de uma economia agrofluvial bem sucedida, em que o potencial agrícola dos solos graníticos se somou ao potencial cinegético e pastoril do  rio. E onde o Mesolítico, de um modo ou outro, está presente.[146]

Há mais de três décadas, antes das intervenções relacionadas com a Barragem do Alqueva, [147] escrevi que a "distribuição da cerâmica cardial, presente na Valada do Mato, no Escoural e em Cuncos e, até à data, perfeitamente desconhecida em Reguengos" podia implicar uma anterioridade da neolitização da área de Évora em relação à de Reguengos.[148]

Hoje, apesar de a situação não se ter alterado, em relação à cerâmica decorada, penso que as duas áreas podem ser contemporâneas e que, mesmo havendo alguma décalage, ela seria irrelevante.  

 

Obelix

Publiquei, em 2002, num livro editado por Chris Scarre, um texto sobre "Standing Stones and Natural Outcrops"[149], em que comparei os menires do Alentejo Central e da Bretanha.

Para lá das semelhanças, em vários registos, a que já fiz menção, existe, de facto, uma diferença enorme, em termos de escala, no que se refere à dimensão e à quantidade dos menires. Basta recordar que o Grand Menhir de Locmariaquer, só por si, pesa bastante mais que todos os menires dos Almendres juntos. 

É lógico que “arrastar uma pedra de grandes dimensões por vários quilómetros exigiu organização, conhecimento técnico e uma força de trabalho substancial.” [150]

Para tentar explicar as diferenças entre as duas regiões, propus que a "vantagem" da Bretanha seria,  numa leitura estritamente economicista, uma  neolitização costeira, com granitos (e solos adequados à agropastorícia, em terrenos pouco declivosos) junto ao litoral, permitindo um crescimento demográfico muito mais sustentado, uma vez que a adoção das novidades neolíticas não implicava o distanciamento em relação aos recursos aquáticos. Eram agricultores, pastores, caçadores, pescadores e mariscadores, a tempo inteiro. 

Nesse texto, anterior à descoberta dos sítios sazonais da margem esquerda do Baixo Tejo, atribuí os menires do Alentejo Central, a populações oriundas dos Estuários, mas que, ao contrário da Bretanha,  teriam prescindido dos recursos aquáticos. Por isso, com menores capacidades para investimentos coletivos com alto grau de exigência, em termos de mão-de-obra (número de participantes e tempo necessários), em comparação com a Bretanha.

Casas Novas e os outros novos sítios estuarinos vieram trazer à economia dos nossos construtores de menires, embora apenas sazonalmente (ou pontualmente), uma competência comparável à da Bretanha, no que diz respeito aos recursos disponíveis. 

Esta economia agromarítima, comum, em graus diferentes, ao Alentejo Central e ao Golfo do Morbihan, traduziu-se, cá e lá, em menires e recintos megalíticos excecionais, nos mesmos territórios em que se conhecem os famosos concheiros funerários mesolíticos, também eles excecionais, no quadro da fachada atlântica europeia. 

Nas gravuras patentes nos grandes menires do Morbihan, Serge Cassen e Jacobo Vaquero -Lastres  viram uma mistura de temas mesolíticos e neolíticos que poderia ser vista como uma síntese gráfica de uma economia agro-marítima.[151] Tendo em mente as relações entre os megalitismo de ambas as regiões, Chris Scarre observou que os “padrões de movimento, no entanto, não revelam os mecanismos exatos de contacto; se, por exemplo, os ibéricos neolíticos visitaram a Bretanha ou o contrário.”[152]

Esta mesma questão pode ser colocada em relação aos mesolíticos e, como alternativa, podemos admitir que esses movimentos existiram nas duas direções.

Na comparação entre os dois contextos, importa realçar as semelhanças, em termos ambientais,entre o Golfo do Morbihan, o pequeno mar interior (junto com a Baía de Quiberon) e os nossos estuários, em particular, o do Tejo, o maior da Península Ibérica e considerado por muitos como o mais importante da Europa ocidental, em termos de biodiversidade (e o segundo maior, em termos absolutos, depois do Estuário da Gironda que, sendo maior, não apresenta o "fechamento" ao mar que caracteriza o do Tejo).

Têm  em comum a proximidade em relação a diferentes ambientes aquáticos (agua salgada, água salobra e água doce) e terrestres, numa escala sem paralelos, na fachada atlântica europeia. 

Deixo aqui, entre parêntesis, uma menção especial a Skateholm, no Sul da Suécia, instalado nas margens de uma lagoa litoral, junto ao Mar Báltico, portanto num ambiente comparável ao dos estuários ou do "pequeno mar" interior e com um Mesolítico final também comparável, nomeadamente por se tratar de um cemitério (concheiro) e ter fornecido um elevado número de esqueletos. Porém, neste caso, não há os menires (e os granitos estão relativamente longe), mas talvez não seja irrelevante o facto de a neolitização, nessa área, ter arrancado cerca de um milénio depois, numa época em que, um pouco por todo o lado, a monumentalidade se tinha deslocado dos menires para  o megalitismo funerário...

A monumentalidade neolítica europeia (no caso dos menires mais monumentais) parece, pois, ser uma consequência da disponibilidade de terrenos agrícolas (com destaque para os granitos), nas imediações de um forte substrato mesolítico, num gradiente, em termos quantitativos, que varia em função da proximidade/afastamento entre os bons solos agrícolas e os recursos aquáticos.

 

Terceira via

Apresentei, em várias passagens, de forma intencionalmente simplificada, as duas principais correntes que, de perspectivas opostas, têm tentado modelizar a neolitização do sudoeste peninsular.

É claro que essa imagem a preto e branco tem, como seria de esperar, alguns cinzentos, expressos, designadamente, no chamado "modelo dual" que admite a chegada de grupos alógenos, mas dá algum protagonismo aos indígenas, por um lado, e identifica diferentes modalidades de neolitização, por outro.[153] A proposta que apresento pretende integrar, de forma coerente, os dados relativos ao Alentejo Central que, como se viu, têm sido negligenciados; esta perspectiva teve, como principal consequência,  a criação de um modelo de neolitização alternativo, (re)colocando os concheiros mesolíticos do Tejo/Sado no epicentro do fenómeno. 

As semelhanças entre o golfo do Morbihan e os estuários do Tejo/Sado, tinham já uma forte tradição, nos estudos sobre o Mesolítico final; quanto às semelhanças, no que diz respeito ao megalitismo menírico, nas duas áreas, permitem-nos esboçar uma "big picture", aplicável à fachada atlântica europeia, em que o protagonismo dos fatores ambientais parece incontornável: ambientes excecionalmente ricos, em termos de biodiversidade, concentrando as populações dos últimos caçadores-recoletores, com solos aptos para a agricultura, nas proximidades.

Ou, dito de outro modo, os menires são a primeira expressão de monumentalidade megalítica que floresceu, na Europa atlântica, nas áreas que dispunham das melhores condições ambientais para o desenvolvimento de uma florescente economia agromarítima. E as raízes do fenómeno mergulham, aparentemente, no fundo cultural das últimas comunidades de caçadores-recoletores

 

Para terminar

A construção do conhecimento arqueológico faz-se por avanços e recuos, à medida que novos dados o exijam e, muitas vezes, é necessário desconstruir, para avançar.

Reconheço, para terminar, que as ideias que tenho vindo a defender são devedoras do contributo de muita gente.

Menciono apenas aqueles que trabalham no Centro/Sul de Portugal e que mais vezes citei nas páginas anteriores, correndo o risco de deixar, involuntariamente, de fora, contributos igualmente importantes.

Por exemplo, devemos a Carlos Tavares da Silva e a Joaquina Soares, para além da imensidão de dados sobre o Mesolítico e o Neolítico antigo da Costa Sudoeste (artefatos e ecofactos), o conceito de economia agromarítima que considero particularmente operativo para explicar a monumentalidade neolítica alentejana. 

A João Zilhão, devemos o trabalho meticuloso de análise das datas publicadas e, com base nisso, a proposta de movimentos de longa distância (leapfrog), na progressão  do Neolítico, do Mediterrâneo ocidental até ao território português. 

Devemos-lhe, igualmente, uma ordenação cronológica bastante firme,  no que diz respeito à neolitização das grutas da Alta Estremadura.

A Vitor Gonçalves e Ana Catarina Sousa devemos o estudo exemplar sobre a Baixa do Xarez e sobre o extraordinário sítio do Baixo Sorraia, abrindo duas janelas fundamentais para a compreensão do Neolítico regional.

A Mariana Diniz, devemos o estudo aprofundado dos materiais da Valada do Mato, de que destaco a comparação entre as indústrias microlíticas do sítio  e as dos concheiros.

Devemos-lhe, e isso não é pouco, as únicas datações disponíveis para o Neolítico antigo centro-alentejano e a forma honesta como as apresentou. 

Pessoalmente, devo a todos eles (exceto a Joaquina Soares e Ana Catarina Sousa, que estiveram muito bem representadas...) a participação no júri de oito elementos que, há vinte anos, aprovou, por unanimidade, a tese de doutoramento  que foi um dos pontos de partida deste livro.

 

 

 

 

 


 

Capítulo 9, onde as cerâmicas neolíticas são vistas pelo prisma da antropologia cultural  

 

Para começar

“Cada panela tem seu testo” (ditado popular)

A olaria surgiu, na Europa, integrada no chamado “pacote neolítico”, embora ocasionalmente tenha sido adotada por alguns grupos mesolíticos que, como vimos, coabitaram, durante alguns séculos, com os primeiros agricultores-pastores, mantendo, mesmo assim, uma economia de caça-recolecção.

Porém, no Mediterrâneo oriental, de onde o Neolítico europeu foi importado, a olaria fez a sua entrada já numa fase avançada do processo de neolitização, precedida pela domesticação (agricultura, primeiro, e pastorícia, depois).

Em contrapartida, no Japão, na China ou na Rússia[154], a olaria parece ser bastante mais antiga, tendo sido “inventada” e usada ainda em contextos de caça/recoleção. Convém observar que, na Europa, a tecnologia cerâmica (terracota) era conhecida, pelo menos, em algumas regiões, desde o Paleolítico superior, embora rara e usada, quase exclusivamente, na produção de figurinhas, objetos que, como é óbvio, costumam ser classificados no domínio do simbólico.

A aplicação da tecnologia cerâmica na produção de vasilhas teve, pelo contrário, um objetivo indiscutivelmente prático (aliás, notável): para além do uso como recipientes para consumo, transporte ou armazenamento (fáceis de conseguir com recurso a outros materiais), os vasos cerâmicos vieram permitir, pela primeira vez, de forma prática, levar líquidos ao fogo[155], o que teve como resultado uma alteração drástica na culinária e, logo, na gastronomia.

Porém, a questão que tentarei colocar, neste texto, é, até que ponto, para além do lado funcional, a olaria mais antiga, entre nós, funcionou como suporte e veículo de elementos simbólicos.

Não cabe aqui teorizar, em termos gerais, sobre a dimensão simbólica da cultura material, assunto que tem tido particular expressão na literatura arqueológica anglo-saxónica Hoddder, 2011, a partir dos anos 80; tentarei, apenas, procurar elencar e, se possível discutir, partindo de um universo concreto – a olaria do Neolítico antigo, no Alentejo Central e, em particular, no sítio do Freixo do Meio 1 - os diversos aspetos (matéria-prima, técnicas de produção, formas, decorações e usos) em que se podem discernir, ou entrever, implicações de caráter simbólico.

Este exercício parte do reconhecimento de que “os artefatos e as estruturas conectáveis com as práticas simbólicas não constituem materialidades quase anedóticas, e de interesse sobretudo museográfico, mas desempenharam um papel estruturante na definição destas primeiras sociedades neolíticas”[156] .

Convém, desde já, observar que a literatura arqueológica portuguesa tem vindo a usar o conceito de “cerâmica simbólica”, no Neolítico antigo, mas incluindo, nesta categoria, apenas os casos em que, na forma ou na decoração, aparecem expressos motivos reconhecíveis, nomeadamente antropomorfos ou zoomorfos;[157] todos os restantes motivos (impressos, incisos ou plásticos), que constituem, aliás, o grosso das evidências, são tratados como puramente decorativos (talvez, como veremos, com exceção da motivo “em espiga”).

Em contrapartida, a literatura antropológica e etnográfica é pródiga em exemplos sobre o caráter eminentemente simbólico da olaria, em sociedades ditas primitivas.[158]

 

Terra a terra: matéria-prima e tecnologia

Eu sou filho da Terra. A Terra é minha Mãe.” Atharva Veda VII

És pó e em pó te hás-de tornar (Génesis 3, 19)

 

A cerâmica usa, como matéria-prima básica, o barro, material natural que está presente, em abundância, em quase todo planeta e que é, na verdade, o principal constituinte mineral dos solos.

A noção de que os solos “geram” a vegetação e de que esta constitui a base vital de uma infinidade de seres vivos, esteve provavelmente na origem de uma certa “sacralização” da terra, presente, sob várias formas, em muitos mitos, em praticamente todos os continentes.[159]

O mais conhecido desses mitos aparece, como sabemos, expresso no livro sagrado judaico-cristão, segundo o qual Deus criou o Homem a partir do barro da terra (Gn 2,4b-7).

É certo que a Bíblia não explica o processo, mas sabemos que, para produzir cerâmica, é preciso lidar, por esta ordem, com os quatro elementos do pensamento clássico: a terra, a água, o ar e o fogo.

Trata-se, por outro lado, do primeiro material sintético, obra especificamente humana, que se generalizou e ganhou importância, num contexto em que o papel do Homem face à Natureza foi profundamente redefinido. 

 

As formas: o outro lado do espelho

“O homem é a medida de todas as coisas”. Protágoras de Abdera

“At least since the very beginnings of the usage of containers made of burned clay, vessels have been associated with the general shape and the parts of the human body. And even in today’s terminology they are divided into elements like neck, shoulder and body, which is true for almost any language.” Schwarzberg and Becker, 2017

À epígrafe acima, acrescentaria apenas que, na terminologia arqueológica portuguesa, para além dos termos colo, ombro e pança, se usam também outros termos  retirados da anatomia humana, como boca, lábio e, sobretudo,  mamilo.

Com raras exceções, as vasilhas cerâmicas têm formas baseadas em sólidos de revolução; quanto ao processo de fabrico, sabemos que, na grande maioria dos casos, as peças mais antigas eram feitas pela técnica do rolo, ou columbina. Isto quer dizer que, desde a base, as vasilhas iam crescendo em espiral e que, depois de rematado o bordo, se apresentavam, vistas em planta, como uma série de círculos concêntricos. Na maioria dos casos, o alisamento das paredes eliminava a evidência das espirais; isto é, as espirais só eram visíveis durante o processo de fabrico das peças, embora, certamente, estivessem bem presentes, antes, durante e depois da obra, na cabeça da oleira.

É habitual considerar-se que, morfologicamente, na cerâmica neolítica, as vasilhas se baseiam em (ou evocam) volumes arredondados, mais ou menos abertos, como os que encontramos, com frequência, na natureza (a concha das mãos, as conchas de bivalves, as cabaças, os cochos, os ovos, etc.).

Porém, na maioria dos casos, a principal referência, neste caso simbólica, parece ser o próprio corpo humano.

Nas palavras de Chris Scarre,  "vasos e pessoas são, certamente, por vezes, confundidos em comunidades etnograficamente documentadas".[160]

Um trabalho recente sobre as cerâmicas do Neolítico antigo do Mediterrâneo ocidental[161], publicado nas atas de um Congresso, realizado em 2013, titulado expressivamente “Bodies of Clay: On Prehistoric Humanised Pottery”[162], explorou essa possibilidade, com exemplos e argumentos interessantes.

Johanna Recchia classificou, naquele trabalho, as alusões, mais ou menos explícitas, ao corpo humano, na olaria neolítica do ocidente mediterrânico, em três categorias: o corpo inteiro (em que, geralmente, o vaso foi usado como suporte para a execução de uma figura antropomórfica), a cara ou outras partes do corpo.

Limitando o nosso olhar ao material disponível, no Sudoeste peninsular, verifica-se que as duas primeiras categorias são muito raras

No que diz respeito à primeira, destaco aqui, tendo em conta, sobretudo, a proximidade geográfica, em relação ao Freixo do Meio 1, o fragmento de vaso com representação de antropomorfo esquemático, proveniente da Valada do Mato (Évora)[163], e os dois fragmentos, muito semelhantes ao exemplar da Valada do Mato, provenientes do Castelo dos Mouros, Sintra[164].

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Fig. 9.1 - 1. Fragmento com antropomorfo da Valada do Mato (Diniz 2007: fig. 82); 2. Fragmentos com antropomorfos do Castelo dos Mouros (Sousa e Carvalho 2015: fig. 2; Fernandes et al., 2016: 37; Carvalho, 2019: 14).

 

Estes exemplares, para além da raridade, têm sido, naturalmente, usados para questionar as relações inter-regionais e/ou as cronologias; interessa, porém, reter a eventual relação com grafismos executados sobre outros suportes, nomeadamente na arte rupestre ou na cestaria, mas também na arte móvel, em geral, em que o tema dominante é a figura humana, representada de forma esquemática. Abstenho-me, naturalmente, de desenvolver a dimensão simbólica destes vasos por ser um tema bastante consensual.

Quanto aos rostos (também ausentes da arte rupestre regional), creio que, até à data, não foram identificados exemplares, em vasos do Neolítico antigo do Sudoeste; conhecem-se, em todo o caso, alguns raros exemplares, mas, tanto quanto sei, apenas a partir do Neolítico final.

 

 

Corpo a corpo

Porém, a terceira categoria analisada por Johanna Recchia - partes do corpo- pode, logicamente, aplicar-se a praticamente todas as vasilhas e não apenas àquelas que apresentam desenhos ou detalhes antropomórficos mais reconhecíveis.

Assim, se reduzirmos o corpo ao torso, os elementos mais óbvios são, claramente, os mamilos, presentes, com diferentes arrumações, e em percentagem significativa, na olaria do Neolítico antigo regional. (Fig. 7.3, n.os 1, 2 e 3)

A questão de saber se os mamilos são funcionais ou decorativos é um lugar-comum, na literatura arqueológica. Em alguns casos, nomeadamente o dos mamilos perfurados, é clara a dimensão funcional. Noutros, esta não faz qualquer sentido, pelo que, nesses casos, costumam ser, mesmo que por defeito, considerados decorativos. Todavia, tem-nos escapado a dimensão simbólica.

Os pares de seios (muito bem representados no povoado do Neolítico final de Juromenha 1[165], mas também em contextos funerários alentejanos, genericamente contemporâneos[166], ou apenas os mamilos, quase sempre aos pares, implicam, por sinédoque, um corpo humano e, mais concretamente, feminino; creio que o sentido metafórico destes elementos não parece muito difícil de descortinar, uma vez que a olaria se destinava, para além da confecção e armazenamento, ao consumo de alimentos e, neste sentido, comparável à mama/mamilo feminina.

    

 

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Fig. 9.2 - 1. Vasos mamilados do povoado Neolítico final de Juromenha 1 (Calado e Roque, 2014);

2. taças carenadas mamiladas do grupo Crato-Nisa (Andrade, M., 2016);3: Jarro cicládico da Idade do Bronze (Tyler, 2012: 80)

 

 

                                                 

No Neolítico antigo regional, os mamilos sobre o bordo são muito frequentes, mas, curiosamente, estão completamente ausentes, em épocas posteriores. Um interessante exemplar, recolhido no Freixo do Meio 1 e reconstituível integralmente, apresentava originalmente uma dezena de mamilos sobre o bordo, cuja funcionalidade prática, a meu ver, não se coloca.

Porém, tratando-se, como parece, de um recipiente para beber, tipo copo, o utilizador tinha que colocar os lábios junto aos mamilos (sobre ou entre), num gesto que evoca a amamentação...

Uma ideia semelhante surge aplicada num cálice da Idade do Bronze, de contexto funerário, interpretado como parte de um ritual que incluía libações[167].

 

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Fig. 9.3 – 1: Vaso mamilado do povoado neolítico do Freixo do Meio; 2: cálice argárico de Peñalosa (Jaén) (Vico et al., 2020: 337).

 

No mesmo sentido, em África, entre os Fur (Sudão), os potes de cerveja “podem ser chamados de mãe (eja) e às vezes são decorados com duas protuberâncias chamadas seios (nansu).[168]; também entre os Karanga do Zimbabwe, certos tipos de vasos são explicitamente associados com o seio materno[169].

Na verdade, a antropologia mostra-nos uma infinidade de mitos que revelam essa relação. Claude Lévi-Strauss, focado sobretudo no contexto amazónico, analisou e comparou muitos desses mitos[170].

Em jeito de síntese, o autor d’A Oleira Ciumenta, citando Karsten (1935), observou “a interessante conexão entre a mulher, de quem a cerâmica é uma das atribuições, e a terra ou argila que ela utiliza. No pensamento dos índios, o vaso de argila é mulher."[171]

Note-se que na língua dos Jívaros, a proximidade fonética entre as palavras nui, argila, e nua, mulher, são bastante reveladoras dessa identificação.[172]Também na língua dos Tiriyó, um povo indígena com quem trabalhei no Tumucumaque brasileiro, e que pertence a outro tronco linguístico (carib), os termos erï , vagina, eri, barro ou pote e wëri, mulher, têm igualmente, todos eles, a mesma raíz...

 

As decorações

Na olaria do Neolítico antigo regional, mais do que os temas acima comentados (material, técnica, forma, uso) tem sido a decoração o aspeto que, naturalmente, mais tem atraído o interesse dos arqueólogos, até porque (ou sobretudo) lhe reconhecemos um elevado potencial, como marcador cronológico e cultural.

Todavia, com raríssimas exceções, o potencial simbólico dessas “decorações” não tem merecido grandes comentários; pelo contrário, a regra tem sido, “reduzir o estudo destes vasos a simples análises cronoculturais e tipomorfológicas”[173].

Excetuando os temas antropomórficos já mencionados e mais um punhado de possíveis zoomorfos, a maior parte dos motivos presentes na olaria do Neolítico antigo (impressos, incisos e plásticos) são, como salientei, considerados puramente decorativos.

Para dar um exemplo, note-se que nem os mamilos (designação que a maioria dos arqueólogos utiliza, apesar de algumas tentativas púdicas para a substituir por algo mais politicamente correto) têm ganho o estatuto simbólico que, a mim, me parece tão óbvio e que, como vimos acima, a etnografia nos permite entrever.

O único motivo "geométrico" que, tanto quanto julgo saber, mereceu uma tentativa de interpretação (atendendo à forma, mas também ao contexto), foi o chamado motivo “em espiga”, que antes costumava, entre nós, ser designado como “falsa folha de acácia” e alguns referem como "em espinha". 

Apesar de sugestiva (uma vez que o cultivo dos cereais era um dos ingredientes do pacote neolítico), esta proposta não me parece, ainda assim, a melhor, como adiante se verá. Como, de resto, acontece com as decorações, mais tardias, ditas “em folha de acácia”, as quais podem ser consideradas como uma variante do mesmo motivo.

Se assumirmos a possibilidade, sugerida pela etnografia, de potes serem vistos como corpos, as decorações corresponderiam, naturalmente, às pinturas corporais ou às tatuagens/escarificações de que podemos, razoavelmente, suspeitar mas de que, infelizmente, só temos, até agora, evidência direta, na Europa, a partir do Calcolítico, embora existam evidências mais recentes, um pouco por todo o lado[174].

A cerâmica lisa (rara ou inexistente, no Freixo do Meio 1 e, no Neolítico antigo, em geral) seria, nessa perspectiva, um corpo nu, sem adornos; efetivamente, as únicas peças inequivocamente lisas são mamiladas.

Mas, é claro que as pinturas corporais ou as tatuagens se integram, sem dificuldade, no estilo que podemos designar como a "arte linear geométrica" (Capítulos 10 e 11) e, tal como nos restantes suportes, ganharam significados e foram usadas, conscientemente ou não, como marcadores de identidades. 

Mas vejamos, com mais detalhe, alguns destes motivos "decorativos".

 

Colares e luas

No caso das “grinaldas”, como são frequentemente designados os motivos, dispostos em semicírculos pendentes, penso que a iconografia pré-histórica e proto-histórica tem bastantes paralelos que permitem alguma reflexão. Desde logo, se pensarmos que os vasos são, metaforicamente, corpos humanos, esses cordões podem, com vantagem, ser interpretados como colares, adereços de adorno, usados ao pescoço, cujo significado, tal como nas tatuagens e nas pinturas corporais, ultrapassa o simples valor estético. E contas de colar não faltam, no registo arqueológico (nem etnográfico)[175].

Em paralelo, uma curiosa analogia formal entre o colar e o crescente lunar talvez mereça ser considerada, tanto mais que a Lua e os seus ciclos foram certamente observados e valorizados, pelo menos a partir do Neolítico, e algumas dessas observações simples, fenomenológicas, ficaram registadas na disposição cenográfica dos nossos megálitos[176].

            

                                      

                                       Fig. 9.5 - Luas e colares pré e proto-históricos

 

                         

Fig. 9.6 - Menires do Sul de França, com colares.

 

Acrescente-se, no entanto, que este motivo, presente em diversas culturas, tem sido objeto de outras leituras alternativas e igualmente sugestivas; propôs-se, nomeadamente, que representasse um barco ou que fosse a figuração de um dos motivos geométricos, relacionados com os estados alterados de consciência, denominado “navicular entoptic phenomenon” [177].

Outro motivo, recorrente no nosso Neolítico antigo, é o dos “cordões plásticos” (lisos ou segmentados) que evocam, sem qualquer dúvida (como se deduz imediatamente da própria designação corrente), as artes das fibras.

Não há dúvida de que os “cordões plásticos” aparecem, milhares de anos antes, no SE asiático, nomeadamente, na olaria Jomon, uma das fontes de onde a olaria do Mediterrâneo oriental, muito provavelmente, foi importada, antes de navegar até nós. Note-se que o próprio termo Jomon, significa padrão de corda, em japonês.

Por outro lado, os “cordões plásticos” parecem ter desaparecido depois do Neolítico antigo regional, mas reapareceram, em força, nas Idades do Bronze e do Ferro e chegaram até praticamente aos nossos dias, como um dos temas mais persistentes nas olarias tradicionais.

Este motivo (e a respetiva dimensão simbólica) merece uma reflexão mais aprofundada, no capítulo seguinte, em que se falará de "cestos de barro".

 

Potes e conchas

Antes de avançar para o tema das cordas (e das artes das fibras, em geral) recordo que, dentro da cerâmica com motivos impressos, se destaca, no Mediterrâneo ocidental, a chamada cerâmica cardial, em que diversos tipos de conchas, com destaque para o berbigão (Cerastoderma edule), foram usados como matrizes.

Esta utilização das conchas, no início do Neolítico, remete-nos, de algum modo, para os contextos económicos, sociais e simbólicos, imediatamente anteriores, isto é, do Mesolítico final. De facto, as economias de largo espectro, praticadas pelos últimos caçadores-recolectores, assentavam, em boa parte, no consumo de recursos aquáticos, em que o marisco teve um papel fundamental. 

Recorde-se, mais uma vez, a cerâmica Jomon, em que a decoração cardial está bem representada, num contexto que, com as devidas distâncias, é comparável ao nosso Mesolítico.[178]

É, por outro lado, razoável assumir que “a existência de conchas de Cardium edule perfuradas, em depósitos de caçadores-recolectores do Mediterrâneo Ocidental, (...), nas mesmas áreas em que a cerâmica cardial aparecerá mais tarde, é um indício do seu valor simbólico pré-cerâmico.”[179]

De facto, para além disso, a valorização simbólica das conchas manifesta-se no seu uso como material de “construção” dos concheiros, grandes amontoados de conchas (e não só) que foram, nomeadamente nos casos do Tejo e do Sado, usados para proteger as estruturas funerárias. Os presumíveis antecedentes das mamoas neolíticas[180].

É óbvio que as conchas, pelas suas formas geometricamente perfeitas, desde cedo atraíram o sentido estético dos nossos antepassados, um pouco por todo o mundo.[181] Por outro lado, sendo percebidas como esqueletos, podem ter ganho um valor simbólico relacionado com as velhas questões da Morte/Eternidade. Por acaso, se hoje podemos estudar centenas de esqueletos humanos mesolíticos, face à manifesta escassez de restos neolíticos, isso deve-se ao facto de os cemitérios mesolíticos terem sido maioritariamente cobertos por conchas, criando, assim, um ambiente básico, propício à conservação das ossadas.

Por outro lado, fosse qual fosse o valor simbólico das conchas, é também plausível que, na olaria, elas tenham sido utilizadas por serem matrizes naturais, fáceis de obter e muito eficazes para reproduzir as texturas de cestos.

Note-se que, em alternativa às conchas e, provavelmente, com o mesmo objetivo (imitar as texturas dos cestos) foram usadas frequentemente matrizes artificiais (tipo pente) ou certas formas de aplicar matrizes simples, como acontece com o chamado boquique, entre outros.

 

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Fig. 9.7 – 1. Cerâmica cardial do Freixo do Meio, com a matriz aplicada na vertical, mas organizada em bandas horizontais;  2. Cerâmica cardial do Freixo do Meio, com a matriz aplicada na horizontal.

 

Os usos: cada roca com seu fuso

Tudo indica, como já referi, que a olaria foi, de certo modo, uma aplicação da tecnologia cerâmica, já testada anteriormente na produção de figurinhas, à produção de recipientes capazes de levar líquidos ao fogo. 

Na verdade, a sedentarização veio facilitar o uso da olaria para outros fins, nomeadamente o armazenamento e o consumo de alimentos, em que, antes, se usavam apenas contentores produzidos noutros materiais (cestaria ou madeira, por exemplo).

Parece-me razoável assumir que a cerâmica, sendo relativamente pesada e frágil, seja pouco compatível com o nomadismo e que as raras primeiras experiências documentadas, em contextos de caça e recoleção, correspondam a experiências de semi-nomadismo.

A função culinária, distinguindo-a dos outros tipos de contentores, pode ter contribuído para a referida valorização simbólica da olaria, metaforicamente relacionável com o corpo humano, nomeadamente feminino.

Essa função básica aplica-se, por extensão, à elaboração (e uso) de bebidas medicinais, mas também, por exemplo, de bebidas capazes de induzir estados alterados de consciência e, portanto, valorizadas, em termos sociais ou mágico-religiosos. Na mitologia ocidental, temos os caldeirões das bruxas ou os crisóis dos alquimistas, por exemplo.

Neste aspeto, a propósito da olaria campaniforme, que foi moda na Europa ocidental, há mais de 4000 anos, é interessante anotar que a análise dos vestígios de conteúdos de alguns vasos revelou que se tratava de cerveja “juntamente com a hiosciamina, um alcaloide alucinogénico encontrado em várias espécies da família das solanáceas”[182].

Com base nesses dados e em comparações com dados históricos da Grécia antiga, a baixela cerâmica campaniforme foi interpretada como parte de rituais de libações, praticados pelas elites; curiosamente, procurando interpretar a decoração cordada, presente, mais ou menos explicitamente, naquele tipo de produção cerâmica, sugerem a possibilidade de que “também fosse adicionada marijuana” e, por isso, esses grupos teriam optado “simbolicamente por decorar os seus vasos de cerâmica com estampas de fibras têxteis (feitas com cânhamo?)”[183].

A ser assim, teríamos, naturalmente, que aplicar esta leitura às muitas cerâmicas cordadas documentadas, em várias épocas e lugares, incluindo, como vimos, a cerâmica Jomon...

Por graça, recordo que o vinho de talha (que, entre nós, ganhou um certo prestígio, nos últimos tempos), era produzido em vasilhas frequentemente ornamentadas com cordões...mas, claro, sem marijuana.

Mais seguro, no que diz respeito aos usos não culinários da olaria é o seu uso, em muitas culturas, como urnas funerárias, de que são exemplo mais próximo (no tempo e no espaço) os chamados pithoi, vasos de dimensões consideráveis, usados para inumação[184].

Em todo o caso, “os enterros em vasilhas (...) são conhecidos desde o início do Neolítico no sudeste da Europa, prevalecendo a ideia do seu legado do Próximo Oriente como mais um elemento no processo de neolitização do continente.”[185] Convém acrescentar que esta prática se verifica igualmente em algumas culturas africanas[186] e americanas[187] .

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     Fig. 9.8 - Urnas funerárias antropomórficas do Norte do Brasil, Ilha de Marajó (Schaan, 2007)

 

Para além desta função, os vasos cerâmicos foram extensivamente usados, em algumas épocas, como urnas cinerárias.

Claro que, na maior parte destes casos, é tentador admitir que o contentor cerâmico era, simbolicamente, interpretado como um corpo feminino (ou um útero) onde o defunto era recolhido e protegido à espera do renascimento, tal como as mamoas (incluindo os concheiros) representariam o ventre grávido da mãe terra. 

Mais frequente ainda, a partir do Neolítico, é o uso desses artefatos, como oferendas funerárias, eventualmente acondicionando alimentos rituais. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 


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