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Capitulos 10 a 14

 

Capítulo 10, onde se repensa a origem da olaria

 

Quem faz um cesto...

"Nem com toda a sede ao pote, nem com toda a fome ao cesto" ditado popular

 

A cestaria é, provavelmente, anterior à olaria e manteve, como seria de esperar, a sua utilidade e, possivelmente, a sua importância simbólica e social, após a generalização do vasilhame cerâmico.

Utilizo, neste texto, o termo cestaria, exclusivamente para me referir aos contentores feitos com fibras vegetais; no entanto, convém ter em mente que a cestaria faz parte de um vasto conjunto de técnicas que incluem as cordas (fios, tranças...), as esteiras, as redes e os tecidos, e que designo aqui como artes das fibras; na verdade, existem artefatos que não encaixam facilmente nestas categorias, como os chapéus, as peneiras, ou até, em muitos casos, pontes ou casas.

Peter Rowley-Conwy, refletindo sobre os cestos e as variadíssimas funções que desempenhavam, escreveu expressivamente, a propósito dos mesolíticos europeus, que "é difícil ver como essas sociedades podiam ter sobrevivido sem eles"[1]

Noutro trabalho muito atual, uma equipa de investigadores, ligada ao célebre sítio neolítico de Çatalhöyük, na Turquia, alerta, a propósito, que “os têxteis, as esteiras e a cestaria devem ter sido objetos omnipresentes que tinham uma função essencial na sociedade antiga, embora tanto a sua utilização como a sua produção tenham sido sub-representadas. O foco nas tecnologias líticas e cerâmicas resultou numa visão distorcida da antiga produção e uso da cultura material, na qual a tecnologia têxtil é desconsiderada ou mal compreendida.”[2]

Este capítulo pretende corrigir um pouco esta tendência.

 

Botanic Age

Evoco, para começar, um livro, tão recente como provocador, que propõe que, antes da Idade da Pedra, muito antes, devemos considerar uma Idade da Botânica, em que os nossos antepassados, anteriores ao H. Habilis, começaram a desenvolver as artes das fibras.[3] 

O ponto de partida da argumentação de Dean Falk é o facto, bem atestado, de os nossos parentes chimpanzés fazerem ninhos nas árvores, entrelaçando, de forma segura, ramagens ancoradas nos troncos. Com base nisto, a autora propõe que, quando os nossos antepassados desceram das árvores, teriam passado a fazer os ninhos no chão; cestos e sacos seriam o passo seguinte. 

Esta hipótese levanta a questão do caráter inato ou cultural, da tecnologia das fibras. Isto é, em vez de os hominídeos terem aprendido a cestaria, como muitos imaginam, observando e copiando os pássaros tecelões ou as aranhas, entre muitos outros exemplos, talvez tenham aprendido do mesmo modo que pássaros tecelões e aranhas. 

Tim Ingold, refletindo sobre o tema,  dá-nos algumas pistas interessantes. 

Começa por descrever a técnica de construção dos ninhos dos pássaros tecelões, nos seguintes termos:  “ o ninho é feito de longas tiras arrancadas das folhas das gramíneas, que são entrelaçadas numa treliça regular formada pela passagem sucessiva de tiras por cima e por baixo, e numa direção ortogonal às tiras já dispostas. É mantido unido e preso ao substrato por uma variedade de costuras e fixações”[4]

Isto é, usando as técnicas básicas da cestaria. 

Segundo ele, as competências da ave, que ele compara às do artesão-cesteiro, não são inatas mas "são incorporadas no modus operandi do organismo – seja aviário ou humano – através da prática e da experiência num ambiente.”[5]

Para além do valor pragmático que todos reconhecemos, as artes das fibras desfrutavam, em muitos casos, de um elevado estatuto simbólico, em termos sociais e, sobretudo, magico-religiosos, em sociedades tradicionais[6].

Um dos exemplos mais notáveis dessa valorização das artes das fibras, nesse tipo de sociedades, encontramo-lo entre os Kogi, um povo indígena da Colômbia, muito popular devido ao alcance de um documentário, feito por um antigo jornalista da BBC (Aluna, disponível no YouTube). 

Numa brilhante tese de doutoramento, defendida na prestigiada Cambridge University, Falk Witte descreve as várias metáforas desenvolvidas por esta cultura, em volta dos fios, dos sacos, dos chapéus e das roupas[7].  

Destaco, a título de exemplo, o trecho em que se relaciona o saco, que faz parte da indumentária tradicional desse povo, com o cosmos. Segundo eles, o cosmos "é igualmente tricotado a partir de um centro de origem, a posição do Pilar Cósmico, num círculo que se expande gradualmente e que num ponto começa a subir para formar o recipiente, ou seja, os níveis cósmicos".[8]

 

A Teoria das Cordas

Podemos considerar, na verdade, que um dos pontos de partida para o desenvolvimento das artes das fibras, foi a chamada “string revolution [9]; não há dúvida de que a “descoberta” da corda foi um dos “avanços tecnológicos” mais importantes do Paleolítico Hardy, 2008, embora seja muito difícil precisar, no tempo, esse início. Hardy et al. 2020

De facto, esta descoberta tornou-se "a base tecnológica para a fabricação de têxteis, bolsas, redes, esteiras.”[10]

    As artes das fibras são, como se sabe, um tema relevante na etnomatemática, uma vez que  “a fibra trançada e torcida foi definida como uma tecnologia complexa que utiliza diferentes componentes (…) e até mesmo uma compreensão matemática de pares, grupos e números.[11]

E, como seria de esperar, a corda ganhou dimensão simbólica, muito para além do seu valor facial.

Tim Ingold, tem escrito, nas últimas duas décadas, sobre a importância das artes das fibras, em vários planos.[12]

Num dos trabalhos mais recentes, Ingold teorizou, entre outros aspetos, sobre a relação  entre a corda (ou o fio, o cordão, a trança) e a forma como as gerações se entrelaçam, ao longo do tempo, reproduzindo "fielmente os processos da vida social.”[13]

Segundo sugere, "com o cordão multifilamentado, assim como com a vida de muitas vidas, as razões são as mesmas. As vidas, como fibras, estão entrelaçadas, ou seja, seu alinhamento é longitudinal. A analogia entre o trançado de cordas e o entrelaçamento de gerações não é vaga, mas exata.”[14]

Num  livro anterior, o autor tinha já evocado o forte simbolismo das cordas dos Kandinjei, na Papua Nova Guiné, ou dos Khipu dos incas.[15]

Podíamos também acrescentar o fio de Ariadne, tema forte da mitologia mediterrânica. Entre os Kogi, acima referidos, os lugares sagrados estavam ligados por um fio negro, fundamental para manter a ordem no mundo.[16]

A presença da corda, como elemento “decorativo”, na olaria neolítica, e muito para além dela, reflete, provavelmente, o prestígio que as cordas terão adquirido, desde épocas antigas, em termos simbólicos.

A hipótese de os cordões plásticos evocarem técnicas de transporte das vasilhas cerâmicas, com cordões de fibras vegetais, talvez não se aplique a muitos casos, mas tem, pelo menos, a virtude de relacionar olaria e artes das fibras.[17]

O valor simbólico das cordas manifesta-se, exuberantemente, no esqueumorfismo de alguns colares de ouro, na nossa ourivesaria antiga[18] ou, por exemplo, na arquitetura manuelina, de que destaco a curiosa Porta dos Nós, em Vila Viçosa.

 

                                             

 

   Fig. 10.1- Colares de ouro imitando cordas (Correia, 2013: 65, 66) 

   

                                 

                                                      Fig. 10.2 - Detalhe da Porta dos Nós.

 

A corda é, como se viu, a base, o ponto de partida para uma parte das artes das fibras. 

Na verdade, os cordões plásticos (e sobretudo os bordos incisos) que, como referi, ornamentam a olaria neolítica, mesmo quando não estão expressos outros motivos, implicam, provavelmente, uma analogia entre o vaso e o cesto.

Por outro lado, é óbvio que, dentro das artes das fibras, são os cestos (incluindo as bolsas) os artefatos que mais se aproximam das vasilhas de barro (em termos de forma, de volume e de função como contentores).

Olhando para os dados etnográficos, parece razoável que a cestaria propriamente dita tenha sido, tal como a cerâmica mais tarde, um veículo privilegiado de expressão e comunicação de identidades, crenças e mitos.[19]

Note-se que a ideia de os vasos campaniformes marítimos poderem ter sido inspirados nos cestos, foi avançada, já em 1913, por Luis Siret, tendo em conta as “evidentes semelhanças formais de alguns destes vasos acampanados com as conhecidas bolsas de esparto da Cueva de los Murciélagos”; tendo isto em conta, e considerando também a decoração típica da olaria campaniforme, foi recentemente proposta uma relação com “os cestos de entrançados vegetais utilizados no transporte do sal”.[20]

De facto, como sabemos, a olaria campaniforme deu continuidade a esquemas decorativos que encontramos logo na olaria do Neolítico antigo e em que predominam motivos que, como veremos, se inspiram nas texturas (e provavelmente nos motivos “decorativos” da cestaria).

Seja qual for a relação original entre olaria e cestaria (que, aliás, pode ser vista de várias formas), a ideia encontrou apoio entre os linguistas, que descobriram que, estranhamente, em algumas línguas indo-europeias, as palavras para vime, barro e vaso de barro remontam ao mesmo radical.”[21]

                  

                               

Fig. 10.3 - À esquerda: um vaso do Jomon Incipiente, de Torihama (Japão), reconstruído (Museu de História e Folclore de Wakasa). À direita: um vaso do Jomon Incipiente, de Kubodera-minami, província de Niigata, Japão  (Museu da Cidade de Tokamchi).

 

Procurando indagar o tipo de relação entre cestos e potes, houve quem tivesse invocado razões técnicas. Nessa perspectiva, os primeiros vasos seriam “construídos”, usando cestos como moldes, muito embora, com base em várias experiências, a proposta se tenha revelado tecnicamente complicada, sobretudo se se tratar, como parece ser o caso, de vasos em forma de saco. Outros viram, nas representações de cordões, reforços estruturais ou representações deles, explicação que, para a maioria dos casos, me parece pouco sustentável.[22] Assim, excluindo o fabrico de vasilhas moldadas nos cestos e descartado o papel estrutural dos cordões, resta-nos uma relação que parece indicar, com “alto grau de probabilidade, que os primeiros recipientes de barro pudessem ter sido criados para imitar os já familiares recipientes naturais, ou manufaturados, com um novo material”.[23]

Tsetlin (2018) inclui entre os objetos que teriam servido de modelo aos vasos cerâmicos, uma gama de outros recipientes (nomeadamente em madeira, pedra ou cal), sem destacar propriamente a cestaria; no entanto, a meu ver, as semelhanças entre os cestos e a as vasilhas de barro superam, de longe, as restantes hipóteses.

É certo que também podemos encontrar modelos, para as formas mais antigas da olaria, numa gama razoável de objetos naturais; porém, em todos eles, apenas a forma e, eventualmente, a função, podem ser comparáveis.

No caso dos cestos, a comparação mais notável é, a meu ver, a que diz respeito ao próprio modus faciendi: a técnica da espiral (coil). O fato de a olaria primitiva ser, maioritariamente, produzida pela técnica do rolo, ou columbina, implica, creio, uma transposição das técnicas atestadas na cestaria.[24] Em ambos, se vão sobrepondo, em espiral, rolos (de fibras ou de barro), cosidos, no caso dos cestos ou colados por pressão, no caso dos potes.[25]

Sendo a cestaria indiscutivelmente mais antiga que a olaria, os potes, surgiram, naturalmente, como “cestos de barro”.

Para além da referida sequência operativa, apenas os cestos (e não os restantes supostos modelos) apresentam obrigatoriamente texturas que sugerem motivos angulosos, organizados em bandas, mesmo nos casos em que não foram usados como suportes de padrões “decorativos”

   

A B

 

 Fig. 10.4 – A: cestos e vasos; B: espirais (Foto Ricardo Soares).

 

                                         

           Fig.10.5 - Chã da Rapada (Martins, 2006, fig. 12); note-se que a espiral aparece aqui inserida num círculo e ligada a uma figura que pode representar um vaso ou um cesto em forma de saco.

 

Pode admitir-se, como conjetura, que o próprio processo técnico de fabrico dos cestos e dos potes tenha tido implicações simbólicas (quer por estar, eventualmente, na origem da valorização dessas figuras geométricas, quer por constituir uma utilização prática, quotidiana, dessas mesmas figuras, inspiradas na observação da natureza ou, segundo alguns, em experiências psíquicas relacionadas com estados alterados de consciência.[26]

No capítulo seguinte, tentaremos aprofundar um pouco esta questão.

Sabemos que as peças mais antigas, encontradas na Sibéria Oriental, em contextos ainda paleolíticos, eram “vasos de fundo convexo, com impressões de cordão” [27]; na verdade, com notáveis variações, estas características aplicam-se a grande parte da olaria mais antiga,[28] um pouco por todo o mundo, nomeadamente daquela que nos ocupa, neste trabalho: o Neolítico antigo alentejano, visto a partir do Freixo do Meio.

A impressão de cordões, a aplicação de cordões plásticos ou ainda a representação daquilo que designo como “cordões esquemáticos” (impressos ou incisos), são, segundo parece, os elementos mais inequívocos que persistentemente, no tempo, e globalmente, no espaço, exibem essa relação original entre cestos e potes.[29]              

                        

                        

Fig. 10.6 - Cerâmica neolítica do Próximo Oriente (Jordânia), com “cordões esquemáticos” (Gibbs, 2015: 347).

       A B

Fig. 10.7 - Cerâmica decorada, dos povoados lacustres do Neolítico antigo, de La Draga (Barcelona) (A) e la Marmotta (Roma) (B); inclui, entre outros motivos esqueumórficos, os “cordões esquemáticos”

 



Fig. 10.8 - Exemplos de cerâmica pré-histórica europeia: decoração cordada (plástica, impressa e esquemática)   

 

 

                         Fig. 10.9 - Cerâmica pré-colonial (Sul do Brasil) (De Blasis et al., 2014. 

  A B

 

                   Fig. 10.10 – A: Cerâmica pré-colonial (Norte do Brasil) (Saldanha, 2016); B: Vaso da Cultura Valdivia (3.800 a.C - 1.500 a.C).  Museo Nacional, Quito: Ministerio de Cultura.

 

As imagens acima apresentadas foram selecionadas, a título de exemplo, de entre muitas outras possíveis, abrangendo a Eurásia, a África e as Américas.

Entre nós, a representação mais ou menos explícita de cordões, incluindo bordos segmentados, é também frequente, como referi, nos finais da Idade do Bronze e Idade do Ferro e resistiu, em alguns casos, até à atualidade, nomeadamente nas talhas vinárias alentejanas.

      

 

 

   Fig. 10.12 - Cerâmicas decoradas do Bronze Final/Ferro (Calado e Roque, 2014)  

            

 

Fig. 10.13 - Talha vinária alentejana.


                                       

É importante destacar que, para além das cordas (Fig. 10.1), os outros padrões que evocam as artes das fibras estão também muito bem representados na ourivesaria arcaica portuguesa, e não só, desde o calcolítico até aos finais da Idade do Bronze, sobretudo [30].

Recordo, em primeiro lugar, as placas de ouro da Anta Grande do Zambujeiro, depositadas no Museu de Évora[31], mas podemos enumerar outras mais, em que os temas lineares geométricos estão presentes.[32]



 


Fig. 10.13 - Placas de ouro da Anta Grande do Zambujeiro, em Évora (Murillo-Barroso, 2016). Com motivos ditos “em espiga”. (Murillo-Barroso, 2016: 290)

 

 Merece, igualmente, menção especial, a sandália votiva do contexto de Valencina de la Concepción, Sevilla, peça que reúne vários dos motivos lineares geométricos mais frequentes[33].

 

 


        

Fig. 10.14 - Sandália votiva de ouro, decorada, de Valencina de la Concepción (Sevilla), com soliformes (ou oculados) e diversos tipos de motivos lineares geométricos (Murillo-Barroso et al., 2015).~

 

Dentre os motivos mais universais, na olaria antiga, destaca-se o “cordão esquemático”, basicamente formado por duas linhas paralelas, preenchidas, geralmente, por traços perpendiculares ou oblíquos ou ainda por aspas e que, entre nós, tem sido usado como fóssil diretor de um suposto Horizonte Furninha, em Peniche.

Trata-se, a propósito, do motivo mais frequente nas conhecidas cascas de ovo de avestruz  de Diepkoloof, na África do Sul, datadas de há cerca de 70000 anos, naquele que, junto com Blombos Cave é um dos testemunhos mais antigos de grafismos claramente intencionais.

                                    

                         

                    Fig. 10.15 - Cascas de ovo de avestruz, decoradas, do abrigo de Diepkoloof  (Almeida, 2020: 81)

 

Na arte rupestre europeia, nomeadamente nas grutas franco-cantábricas, em contexto pictórico do Paleolítico Superior, aparece recorrentemente este motivo, geralmente designado de escaleriforme [34]; num ambiente já holocénico, vejam-se, por exemplo, as pinturas da serra de Passos [35] ou as gravuras do Alqueva[36]

É possível que, em alguns casos, esses motivos representem, de facto, escadas; porém, na etnografia, encontramos muitos exemplos de escadas de corda, com degraus de madeira (que têm um aspecto escaleriforme) ou apenas com “estribos” de corda. Também na iconografia levantina, existem figurações de cenas com esse tipo de escadas flexíveis, de corda. Isto é, o chamado escaleriforme evocaria, de um modo ou do outro, as cordas.

O estudo e publicação dos materiais vegetais da Cueva de los Murciélagos e do povoado lacustre de La Draga trouxeram, para a arqueologia neolítica peninsular, o tema da cestaria.

Na Cueva de los Murciélagos foi estudado, em particular, um conjunto excecional, de que se destacam os “cestos pequenos com bocas geralmente estreitas, cuidadosamente confeccionados.[37]
  

Quanto à decoração destes cestos, “baseada em linhas, faixas, losangos, ziguezagues (…) foi obtida após

 imersão de algumas fibras vegetais num pigmento colorido (…). A disposição destas fibras previamente

 tingidas e a sua acertada combinação com fibras naturais deram origem aos motivos decorativos.” [38]

                               
                Fig. 10.16 - Cestos decorados da Cueva de los Murciélagos  (Cacho et al., 1996).

 

 

Fig.10.17 - Cestaria indígena da América do Norte. Navajo School of Indian Basketry (1903)

 

Numa revisão relativamente recente sobre o tema das Vénus paleolíticas, sugeriu-se que “as peças de vestuário retratadas eram feitas de fibras vegetais” e que “o seu requintado detalhamento reflete o importante papel desempenhado pelos têxteis nas culturas do Paleolítico Superior”[39]

Em abono desta tese, recordam-nos que “locais como Dolni Vestonice I e III e Pavlov I, na Morávia (…), documentaram a existência de tecnologias têxteis altamente diversificadas e sofisticadas”, destacando “a delicadeza de muitos dos produtos finais” e o facto de “algumas destas peças” apresentarem “mesmo decoração estrutural intencional”. 

E concluem que “o alto nível observado de processamento padronizado de urdidura e trama, sugerem um desenvolvimento antecedente considerável tanto para estes itens como para a indústria de fibras em geral”[40].

No mesmo sentido, “Os próprios motivos geométricos podem representar têxteis e podem ser comparados com a famosa estela decorada de Sion-Petit Chasseur, ou mesmo com os desenhos encontrados na cerâmica do Vaso Campaniforme Ibérico."[41]

                           

 Fig. 10.18 - Decoração cerâmica e padrões de tecelagem (Rozzi, 2018, fig. 6); 2

No Tumucumaque brasileiro, onde, lado a lado com os Tiriyó, já aqui referidos, vivem também os Wayana, encontramos um exemplo muito interessante, para pensar a relação entre cestaria e olaria.

A cestaria wayana ocupa um lugar cimeiro, no que toca à valorização e à dimensão simbólica da cultura material deste povo, quer pela evocação de seres mitológicos, quer pela posição que estes objetos ocupam na ordem social e económica.

De resto, entre os ameríndios, como noutras paragens, “os utensílios (e não só os cestos) são pensados, descritos e frequentemente decorados como corpos.”[42]

Vejamos, a propósito, uma síntese do mito wayana da criação da Mulher.

Segundo as tradições orais deste povo, o demiurgo começou por fazer a primeira mulher em cera, mas este protótipo não aguentou o calor; fez, em seguida, uma segunda versão em barro, mas ficou muito pesada e frágil. À terceira, experimentou fazer com arumã (a fibra mais usada na cestaria) e, finalmente, deu certo.

Convém observar que estas matérias-primas apresentam, aos olhos dos Wayana, um gradiente, em termos de dificuldade técnica, de tempo de aprendizagem necessário e de tempo de execução dos objetos; assim, a cera é o material usado para as crianças brincarem, a cerâmica é o material exclusivo das mulheres, enquanto a cestaria é específica dos homens[43].

Contabilizações efetuadas na Papua Nova Guiné, indicam que, incluindo o processamento dos fios, a feituras dos sacos tradicionais (bilum), rondava as 200 horas de trabalho,[44] o que, só por si, nos dá uma ideia do valor desses objetos.

Entre os kogi, na Colômbia, as bolsas que fazem parte da indumentária do dia a dia, são feitas pelas mulheres. Esse trabalho é  "realizado constantemente, mesmo quando se percorrem caminhos íngremes e rochosos com um bebé às costas"[45]

Voltando aos Wayana, convém lembrar que alguns dos artefatos mais complexos, como o cesto cargueiro ou o tipiti (cesto cilíndrico alongado, indispensável no processamento da mandioca), desempenham funções económicas básicas. Tradicionalmente, um jovem estava pronto para casar, apenas depois de aprender a fazer o tipiti.

De facto, a cestaria wayana (como, em geral, a cestaria amazónica) inclui um conjunto diverso de objetos, que apresentam motivos geométricos simbólicos, conseguidos, durante o processo de confecção, entrelaçando fibras brancas e pretas (tingidas) de arumã.

Em termos técnicos, são análogos aos cestos votivos da Cueva de los Murciélagos e, na verdade, na sua confecção, seguem o processo descrito para estes artefatos pré-históricos.         

Para além dos aspetos que, até certo ponto, poderíamos classificar como económicos e à parte a carga simbólica transmitida pelos motivos usados, parece-me importante realçar a dimensão estética.[46]

De facto, apesar da potencial plástico da cerâmica que, com o tempo, ganhou um estatuto muito próprio, a perfeita regularidade geométrica que era possível obter através da cestaria (visível na estrutura, mas também nos motivos que pode ostentar) era, claramente, superior àquela que encontramos na olaria neolítica ou, sobretudo, na arte rupestre.

Na verdade, se consideramos a hipótese de que as primeiras vasilhas cerâmicas vieram, de certo modo, competir com o prestígio simbólico da cestaria, talvez se compreenda melhor o facto de uma boa parte da decoração, nas olarias mais antigas, reproduzir texturas e decorações da cestaria, de que os chamados cordões plásticos e, sobretudo, os bordos incisos, são certamente os mais evidentes.

Destaco os bordos incisos porque, a meu ver, se trata do melhor exemplo de esqueumorfismo, uma vez que os cordões poderiam, em princípio, ser técnica ou simbolicamente estruturais. Na verdade, nos cestos, o remate dos bordos é tecnicamente,  incontornável (Fig. 10, 19); nos vasos, não. 

Trata-se, obviamente, de uma “escolha deliberada" [47], na qual não se vislumbra nenhuma função prática..

                   

            

                    Fig. 10.19 - Comparação entre um bordo de cesto e um bordo inciso, em cerâmica.

 

Muito evidentes são também, a meu ver, os motivos ditos em “espiga”, que traduzem, de forma muito realista, o “entrançado” ou “encanastrado”, da cestaria

                      

        

             Fig. 10.20 - Comparação entre texturas de cestos e motivos ditos “em espiga”.

 

O tema da corda, para além de ser representado, em relevo (como em FM [16] 15),  pode também, como já vimos, ser simplesmente sugerido por duas linhas paralelas preenchidas por impressões ou incisões, verticais ou oblíquas, que designei como “cordões esquemáticos”(como em FM [2] 1, ou FM [10] 5).

  

 

              Fig. 10.21 - Cordão plástico inciso e “cordões esquemáticos”.

Em síntese, uma grande parte da decoração da nossa olaria neolítica parece evocar a(s) textura(s) dos cestos (e, por extensão, das artes das fibras) usando diferentes soluções plásticas que parecem, elas próprias, ter-se inspirado nas diferentes texturas e decorações, próprias da cestaria. 

                         AB

Fig. 10.22 - A. Exemplos de texturas resultantes de diferentes materiais e técnicas. (Rodrigues, 2020: 90); B. Decoração de tecido, com base apenas na textura (Levy, 2020: 139)

 

Numa primeira fase, no Neolítico antigo regional, encontramos uma notória prevalência do uso de motivos impressos, com recurso a um variado leque de matrizes, incluindo as conchas, aplicadas de diversos modos; paulatinamente, os motivos impressos foram sendo substituídos por motivos incisos e, estes, finalmente, reduzidos a uma única linha sob o bordo, antes de se imporem as cerâmicas lisas, no Neolítico médio/final[48].

Esta evolução, paralela a outras alterações notáveis ao longo do neolítico, sugere uma certa desvalorização simbólica e social da cerâmica, eventualmente suplantada, nessas funções, por outros suportes/objetos, como a tecelagem.

 

 

 

 

 

 

 


 

Capítulo 11, onde se aproxima arte e artesanato, desenho e escrita

 

1.     Artes mágicas

O estudo dos materiais da Cueva de los Murciélagos deu aso a um interessante exercício comparativo entre cestos, potes e arte rupestre[49]; nesse trabalho, reconhece-se que, nos cestos, as “decorações   apresentam claras semelhanças com alguns dos esquemas representados em ícones rupestres e, de certa forma, com aqueles que refletem alguns modelos cerâmicos do Neolítico e de épocas posteriores.”[50]

Os motivos elencados são, “principalmente ziguezagues, triângulos, dentes de lobo, traços isolados, motivos em espinha, ramiformes, etc.”[51].

Porém, esta abordagem fixou-se exclusivamente nos motivos ”decorativos”, considerando as paredes dos cestos como simples suportes, equiparáveis às superfícies dos vasos e paredes rochosas; na verdade, limitou-se a constatar “uma certa unidade conceptual baseada em motivos homogéneos”[52]

Ora, o que distingue, como vimos, a cestaria, é o facto de aquela gama de motivos fazer parte da própria textura do objeto e resultar dos processos técnicos que permitem dar-lhe corpo e estão presentes, por isso, em cestos sem decoração.

Esses motivos são, objetivamente, os mesmos que, no estudo da arte rupestre peninsular, foram incluídos no estilo “linear geométrico”[53] ou que, na proposta de Andreia Martins, se incluem na arte esquemática ideográfica”, resultante de um “elevado grau de esquematismo, transformando‑se as representações em ideogramas“.[54]

Na leitura desta autora, circunscrita ao contexto peninsular, os motivos geométricos seriam uma derivação da tendência esquematizadora, tipicamente holocénica, levada ao extremo.

 

 ABC

 

1.      Fig. 11.1 - A: Cena de caça levantina sobrepondo motivos lineares geométricos. (Beltrán, 1991:fig. 3);  Exemplos de placas de xisto gravadas (B: Gonçalves, 2008; C: Gonçalves, 2015)

 

Porém, sabemos bem que esses grafismos estão sistematicamente presentes, associados à arte naturalista, nas paredes das grutas do Complexo Franco-Cantábrico, apesar de, até recentemente, terem sido subestimadas, face à exuberância dos temas animalistas. [55]

Para além dessa quase omnipresença, os motivos lineares geométricos aparecem, como referi, também recorrentemente em suportes móveis, como é o caso das figurinhas paleolíticas[56].                                 

               

   Fig. 11.2 - Decorações das figurinhas de Mezin, na Ucrânia (sítio de ar livre, com cerca de 17 000 anos), que os autores comparam com padrões de tecelagem. Soffer et al., 2000: 533                               

Abrindo ainda mais o foco temporal e geográfico, os famosos achados sul-africanos da Gruta de Blombos (c. de 70 000 anos) e as já mencionadas cascas de ovo de avestruz decoradas do abrigo de Diepkoloof (c. 60 000 anos), parecem antepassados credíveis do estilo “linear geométrico”.  

Segundo Helen Anderson, investigadora do British Museum, têm vindo a aumentar as descobertas de gravuras deste tipo, em contextos que, no limite, chegariam aos 500 000 anos.[57]

Estas manifestações corresponderiam, segundo aquela autora, à "transferência de padrões e desenhos emanados de cordas, fios, redes, armadilhas e recipientes entrançados.[58]

                      



Fig. 11.3 - Gravuras sobre um bloco de ocre, de Blombos Cave, mostrando a sequência de gestos. (Almeida, 2020: 76-77; Lewis-Williams, 2002; D’Errico et al., 2001).

 

Assim, entre os grafismos lineares geométricos de Blombos Cave e a decoração das cerâmicas neolíticas (como a das placas de xisto alentejanas ou das jóias de ouro proto-históricas e de diversos suportes, até aos nossos dias) parece haver um continuum, em que motivos angulosos, organizados em bandas, sugerem uma ligação às artes das fibras. 

Chamo mais uma vez a atenção para o facto de, nas artes das fibras, esses padrões e essa organização, serem impostos pelos próprios processos técnicos. Em todos os outros suportes, são uma escolha.

 

Boom!

A proposta de Helen Anderson, relacionando a arte linear geométrica com as artes das fibras, veio substituir ou, talvez, como me parece, completar o modelo teórico defendido, há décadas, por D. Lewis-Williams e pela sua “escola”, segundo o qual, esses  motivos corresponderiam às visões  experimentadas em estados alterados de consciência e teriam a sua origem, em última análise, no sistema nervoso central.

 

                        

Fig. 11.4 - Motivos entópticos, em comparação com motivos da arte rupestre (Lewis-Williams e Dowson, 1988)

 

Para Lewis-Williams “os ziguezagues, intimamente associados  a (...) rituais,

provavelmente derivam de imagens geométricas ligadas no cérebro humano e ativado em estados alterados de consciência”[59]

 É certo que esta teoria, que convenceu, entre muitos outros, o grande pré-historiador francês Jean Clottes, tem sido bastante discutida[60], apesar do potencial explicativo que aparentemente oferece, face à universalidade (no tempo e no espaço) de alguns dos motivos evocados.

Na verdade, se considerarmos que se trata de imagens oriundas do sistema nervoso central, a pergunta (ingénua) seguinte seria: e como foram lá parar?

O conceito de neuroplasticidade, segundo o qual aquilo que fazemos modifica o nosso cérebro, talvez permita entrever uma solução. Creio ser esse o sentido da proposta de Tim Ingold, a propósito das crianças Telefol (um povo da Nova Guiné) que ocupam, desde cedo, uma grande parte do tempo, a aprender e aperfeiçoar as suas capacidades nas artes das fibras.

Segundo ele, as meninas  "desenvolvem as suas capacidades de tecelagem numa fase da vida em que os seus corpos também estão a sofrer um rápido crescimento. Essas competências, então, longe de serem adicionadas a um corpo pré-formado, crescem de facto com ele. Nesse sentido, elas são parte integrante do organismo humano, da sua neurologia, musculatura e até anatomia, sendo, por isso, tanto biológicas como culturais.”

E concluindo, “todas as meninas Telefol aprendem a fazer sacos de corda, assim como todas elas aprendem a andar ou a falar.”[61]

Isto é, os motivos lineares geométricos, criados na prática concreta das artes das fibras, por razões técnicas, tornaram-se, desde épocas muito antigas, eventualmente pré-humanas, uma parte integrante do património imagético humano, talvez de modo inconsciente, dando alguma credibilidade à teoria dos estados alterados de consciência.

Adaptando a ideia de Ingold, a arte linear geométrica teria uma relação forte com as atividades humanas mais universais e absorventes, nas sociedades ditas tradicionais: as artes das fibras. 

 

A Origem da Escrita

A génese da escrita é um tema em discussão, no que respeita quer à antiguidade, quer  ao primeiro local de origem[62]

Porém, todos reconhecemos, na arte rupestre, um caminho idóneo a explorar.

Já as artes das fibras, devido, certamente, à sua quase invisibilidade arqueológica, têm geralmente ficado de fora deste campeonato.

Mesmo assim, segundo Sellato, “a cestaria, vista como meio de expressão individual e colectiva, é eloquentemente expresso pelas mulheres analfabetas Bajau Laut, que declaram que os seus tapetes trançados são o seu texto escrito”.[63]

A ideia, bastante generalizada, de que esses motivos geométricos teriam ganho significados, partilhados pelos seus autores e utilizadores (como meio de comunicação de ideias, mitos, identidades)[64], tem amplo apoio nos dados etnográficos.

Entre os já referidos Wayana, para além de todos os símbolos que decoram os cestos (e não só) terem um referente relacionado com o mundo natural ou sobrenatural, esses motivos são, através de um mito, relacionados com os desenhos na pele de Tuluperê, a mítica Cobra Grande[65]

Porém, os dados etnográficos são igualmente eloquentes quanto ao facto de os mesmos motivos terem significados muito diferentes, em diferentes culturas[66]. Não são, portanto, em termos do uso que se fez deles, universais.

Regressando à questão da origem da escrita, tema que, como referi, quase intuitivamente nos leva para o terreno da arte rupestre[67],  vejamos a proposta alternativa sugerida por Tim Ingold.

Na sua reflexão sobre a relação entre a tecelagem e a escrita, destaca o facto de texto e tecido (têxtil) terem a mesma origem latina, assim como a linha, derivada do linho, e que tanto remete para as linhas da escrita, como para as linhas que dão corpo aos tecidos[68].

Tim Ingold analisa detalhadamente a complexidade das artes das fibras, especificando o processo usado para produção de motivos angulosos, com fibras de duas cores, e destacando a qualidade plástica do resultado final, dando como exemplo a tapeçaria Navajo e colocando a questão: “Como é que o fio do tecelão se tornou o traço do escritor?”[69]. 

 O que nos interessa aqui reter é sobretudo a proposta de uma origem, nas artes das fibras, do próprio processo de escrita, relegando, para um segundo plano, o papel tradicionalmente atribuído à arte rupestre.

Parece-me, por outro lado, que importa ter em consideração a importância que os Wayana atribuem à cestaria, com base nos seus mitos, mas também, como vimos, porque esta se perfila, de forma objetiva, como muito mais complexa, quando comparada com as outras formas de manifestação plástica que, atualmente, integram a sua cultura[70]

A meu ver, poderíamos resumir sugerindo que os motivos lineares geométricos, e a forma de os organizar, nascidos, por razões técnicas, no contexto das artes das fibras, transbordaram, por fenómenos de esqueumorfismo (em que se imita um artefato, eventualmente considerado valioso, feito num determinado material, num outro completamente diferente), para os restantes suportes, nomeadamente a olaria e a as paredes rochosas, antes de se transformar naquilo a que chamamos escrita. Subjacente a esta sequência, a plasticidade neuronal...

 

    

 

   Fig. 11.5 - Cestos, em baixo relevo, com escrita cuneiforme.

 

Não dar ponto sem nó

Finalmente, não há dúvida que os motivos lineares geométricos, fosse qual fosse a sua origem, eram, muitas vezes, mais do que exercícios decorativos e que, como a etnografia abundantemente sugere, eram, pelo contrário, carregados de significados.

Porém, estes eram válidos apenas nos contextos concretos em que eram produzidos e usados;  torna-se, pois, inútil tentar descodificá-los, uma vez que esses contextos se perderam irremediavelmente.

A proposta de Tim Ingold de que “as formas dos objetos (...) crescem a partir do envolvimento mútuo das pessoas e dos materiais num ambiente",[71] remete-nos, não para modelos gráficos pré-existentes, no sistema nervoso central ou copiados do mundo natural, mas para modelos universais, decorrentes, em última análise, das leis físicas, e atualizados, na experiência humana, através do ato de Fazer.

É interessante e, talvez, significativo que, entre os exemplares mais antigos de arte rupestre, no mundo, a par dos temas lineares geométricos, são as mãos o tema mais universalmente representado. 

Isto é, numa rápida síntese, pode dizer-se que começámos por representar o que fazíamos e o "instrumento" desse fazer.

Termino, com umas décimas do saudoso poeta popular alentejano, Jerónimo Lagartixo.

 

Fig. 11.6 - Antropomorfo esquemático, com mão em destaque.

 

As mãos 

Com que órgão maravilhoso

nos dotou a Natureza

na majestosa grandeza

desse poder portentoso;

o mais ingente poder:

são as Mãos!

Tem cinco dedos a mão,

todos cinco desiguais,

em estranha combinação

de articulados sinais;

que ao Homem dão perfeição

d'entre as espécies animais.

Já houve alguém que dissesse

(não me custa acreditar)

- se o Homem Mãos não tivesse,

não poderia pensar!

Que contrastantes lavores

se podem executar

com as Mãos, finos primores

de excelso engenho impar!...

E consoante a função

que mais ao homem é dada,

assim está configurada

sua Mão...

Vede a Mão do lenhador,

a robusta mão calosa

que a floresta desbrava;

como a Mão do cavador,

coriácea e nodosa,

que a terra dura escava.

Mãos do músico artista,

do fino relojoeiro,

ou doutor de cirurgia,

em que a mão é preciosista,

de aprimorado arteiro

com requintes de magia.

E vede a Mão do pintor

do poeta, romancista,

do arquitecto, escultor:

Maōs eternas do artista;

Dão ênfase ao orador,

As Mãos que ao cego dão vista!

Hirtas mãos ao Céu erguidas

na desgraça, criam Deus!

Mãos de mãe, quão estremecidas,

no regaço bem cingidas

carinhando os filhos seus.

Servem ao pai extremoso

para os filhos abençoar,

essas Mãos que ao criminoso

são veículo de matar!

E do santo ao assassino,

do homem mau ao bondoso,

como do velho ao menino

e do honesto ao ladrão,

quem lhes demarca o destino?

- É a Mão, é a Mão!

Quem executa a Ciência,

da técnica, o mecanismo,

nesse imenso paroxismo

duma infrene prepotência,

sem os quais seriam vãos

os labores do maquinismo?

- São as Mãos, são as Mãos!

Da mais versátil destreza

são esses cinco tentáculos,

que removem obstáculos

e criam tanta beleza!

Que poder neles se encerra:

Vão mudando a face à Terra,

em si louvo a Natureza.

Por ter Mãos o Homem pensa?!

Não é talvez desacerto,

Mau pensar ou louco asserto:

Antes presto ao dito atento.

Dou por idónea a sentença:

Das Mãos não fosse o processo,

Não haveria progresso...

Estancava o Pensamento!

Jerónimo Lagartixo, poeta popular, Freixo, 1964

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

Capítulo 12, onde se faz uma aproximação, em voo e pássaro, à evolução da paisagem centro-alentejana, nos Tempos dos Megalitos...

 

                            

                                                  Fig. 12.1 - Mesolítico estuarino

 

Os últimos caçadores-recoletores (Mesolítico final)

 

As comunidades do Mesolítico final, no nosso território, concentraram-se, há cerca de 8000 anos, em zonas de ecótono, particularmente ricas, em termos de recursos aquáticos, sobretudo nos limites superiores dos estuários do Tejo e do Sado, onde a pesca e, sobretudo, o marisqueio, garantiam, a par da caça e da recolecção, a segurança alimentar.

 

Estes grupos desenvolveram, naturalmente, competências náuticas notáveis, relacionadas com a pesca, mas que, por outro lado, lhes facilitaram a mobilidade e o estabelecimento de redes de relações, consideravelmente amplas, ao longo das costas atlânticas e do mediterrâneo ocidental.

 

Foi, provavelmente, a dinâmica destas redes, num processo de intercâmbio, relacionado com práticas exogâmicas, que fez chegar, ao nosso território, os genes e as inovações neolíticas (agricultura, pastorícia, pedra polida, cerâmica...) oriundas, em última análise, do mediterrâneo oriental.

 

Foi um tempo de paz, num ambiente de abundância alimentar, que alguns autores sugerem ter inspirado o paraíso bíblico.

 

Do ponto de vista da relação com a Natureza, estes grupos conviviam, sem a alterar, com uma paisagem exuberante e impoluta.

 

Foi também um tempo que anunciou algumas das transformações que se seguiram: eram sociedades em vias de sedentarização e provavelmente de complexificação social, embora sem sinais de estratificação social.

 

Criaram concheiros funerários (montes de terra, carvões e conchas, cobrindo enterramentos) e estruturas semicirculares de postes de madeira, que são os primeiros monumentos construídos, no nosso território, e que, possivelmente, são os antepassados ​​das mamoas e dos cromeleques neolíticos alentejanos.

 

                             

              Fig. 12.2 - O Freixo do Meio e as relações com os estuários e o Alentejo Central.

 

Os limites superiores dos estuários do Sado e do Tejo eram áreas privilegiadas do ponto de vista da biodiversidade e, portanto, da disponibilidade de recursos naturais: para além dos ecossistemas estuarinos, as comunidades que erigiram os concheiros desfrutavam dos recursos fluviais, imediatamente a montante, e dos recursos marinhos, descendo até à foz dos respetivos rios; os recursos terrestres estavam, por sua vez, disponíveis no interior.

 

                

           Fig. 12.3 - As últimas florestas pristinas e alguns dos principais elementos faunísticos.

 

Todo o mundo é feito de mudança

Há cerca de 7500 anos, por influências recebidas (direta ou indiretamente) do Mediterrâneo oriental (onde se procedeu, pela primeira vez, à domesticação de plantas e animais), essas comunidades entraram em processo de neolitização, isto é, tornaram-se pastores e agricultores, mudando radicalmente a relação Homem-Natureza. 

Na prática, a neolitização foi avançando, abrindo e alargando clareiras,  reduzindo a biodiversidade, em paisagens cada vez mais domesticadas. 

É provável que os primeiros grupos neolíticos, no Alentejo Central (nomeadamente no Freixo do Meio), tenham saído das últimas comunidades de caçadores recoletores do Tejo/Sado.

Para além de muitas semelhanças, no que respeita aos instrumentos de pedra lascada (a cerâmica, a pedra polida e as mós são as principais inovações) é possível encontrar, do domínio do simbólico, sugestivas evidências de continuidade. 

        

                    Fig. 12.4 - Menires isolados, pares de menires e recintos megalíticos

 

 

O Tempo da Pedras Grandes.1

O início do megalitismo relaciona-se diretamente com o início da agricultura/pastorícia.

 

Provavelmente inspirados nos postes de madeira mesolíticos e/ou ecoando influências anatólicas, os menires funcionam, desde logo, como âncoras simbólicas numa paisagem cuja propriedade começa a ser reivindicada, como consequência da sedentarização e do investimento necessário para o arranque da economia neolítica, nomeadamente a abertura de clareiras, para construção das cabanas ou para cultivo e pastoreio, abertura de poços, etc.

 

Para além desta função prática, os menires evocam supostamente os antepassados ​​comuns, criando espaços de sociabilidade, lugares centrais, que funcionaram provavelmente como focos de rituais religiosos, reuniões políticas, celebrações festivas, trocas de bens e informações, entre os membros de comunidades dispersas, nas áreas envolventes.

 

Os menires e, mais tarde, as antas, são, em última análise, formas de comunicação (escultura e arquitetura), integráveis ​​nos comportamentos simbólicos comuns à arte rupestre (pintura e gravura).

 

Foram erguidos menires isolados, pares de menires e pequenos recintos megalíticos (cromeleques), nas fronteiras do Alentejo Central, ao longo do Neolítico antigo.

 

A concentração, nos arredores de Évora, dos maiores recintos megalíticos (e a maior anta) da Península Ibérica, coincidente com o divisor de águas entre o Tejo e o Sado (a mais importante via natural de trânsito, entre o litoral e o interior alentejano) é, claramente, relacionável, pelo menos em termos geográficos, com os concheiros mesolíticos do Tejo/Sado e parece corresponder a um crescimento demográfico e, eventualmente, a uma fase de apogeu do Neolítico antigo regional.

 

Nesta óptica, é provável que o Freixo do Meio tenha feito parte dessa primeira vaga de neolitização do Alentejo Central, num movimento mais geral de expansão do fenómeno, a partir do litoral, para o interior da Península.

 

                       

            Fig. 12.5 - As primeiras instalações agropastoris, no interior alentejano.

 

Os primeiros pastores e agricultores (5500 a.C. - 4500a.C.)

 

    Há cerca de 7500 anos, chegaram ao Freixo do Meio, os primeiros colonos, vindos provavelmente do estuário do Tejo, empenhados em lançar as primeiras sementes do modo de vida agropastoril.

 

    Esses grupos fundaram pequenas quintas, de base familiar, aparentemente organizadas em grupos de vizinhança, que se instalaram sistematicamente em locais marcados pela presença de grandes afloramentos graníticos.

 

  A escolha das paisagens graníticas, nesta fase inicial, pode relacionar-se com o tipo de solos (relativamente ligeiros), com a disponibilidade de água superficial ou com a topografia suave. No entanto, como foram estes mesmos grupos que iniciaram, entre nós, a ereção dos primeiros menires, talvez esta escolha se relacione também com o possível significado simbólico/mítico atribuído às sugestivas formações rochosas, típicas dos granitos.

 

                     

                                Fig. 12.6 - O quotidiano do neolítico inicial

 

Em termos técnicos, as grandes inovações neolíticas foram o machado de pedra polida, fundamental para a abertura de clareiras na floresta, e a cerâmica, que veio mudar radicalmente a culinária/gastronomia.

 

Em termos económicos, estes primeiros grupos de pioneiros continuaram provavelmente a usar os recursos disponíveis na floresta (bolota, caça, fruta, cogumelos...), a par da criação de cabras/ovelhas e de uma agricultura, ainda incipiente, de slash and burn, focada nos cereais e nas leguminosas.

Porém, estes grupos nunca abandonaram definitivamente os recursos estuarinos; 

O Freixo do Meio localiza-se a meio dia de marcha do Estuário do Tejo, através de uma área de fácil transitabilidade, o que permitia que, regular ou sazonalmente, essas comunidades (todas ou parte delas),  se deslocassem até lá para desfrutar daqueles recursos (pesca, marisqueio, recoleção e talvez pastoreio).

 

                

                     

                                                           Fig. 12.7 - O Neolítico médio

 

O desenvolvimento do modo de vida neolítico deu aso a um contínuo crescimento demográfico que, na região, se traduziu, ao longo de quase 2000 anos (Neolítico antigo e médio), numa época de paz, em que os amplos espaços, no interior, que tinham sido deixados vazios pelos grupos mesolíticos, foram absorvendo os contínuos excedentes demográficos. A colonização agropastoril da Península Ibérica, feita do litoral para o interior, deixou, neste processo, poucos espaços por ocupar.

No final do Neolítico médio (e talvez durante), começaram a ser construídas as primeiras sepulturas protomegalíticas e os menires foram entrando em desuso, alguns deles reutilizados nos novos monumentos funerários.

O êxito do "projeto neolítico" (crescei e multiplicai-vos...), acabou por ter um impacte considerável sobre a paisagem: o alastramento das clareiras para obtenção de combustível (aquecimento, cozinha, cerâmica) e práticas agrícolas pouco sustentáveis, foram empobrecendo o capital natural, degradando os ecossistemas e reduzindo a produtividade.

No limite, o desequilíbrio entre população e os recursos deu origem à guerra.

 

                                        

                                            Fig. 12.8 - Povoamento do Neolítico final

 

Castelos de areia: os primeiros povoados fortificados

 

    As primeiras evidências de conflitualidade, no seio dos antigos camponeses alentejanos, aparecem no Neolítico final, na segunda metade do IV milénio a.C., e traduzem-se sobretudo na fundação de povoados delimitados por sistemas de fossos que eram, certamente, acompanhados por muralhas de terra, provavelmente de adobe, e/ou paliçadas.

 

    Alguns destes povoados extinguiram-se, ainda no Neolítico final, enquanto outros cresceram e perduraram até aos finais do III milénio a.C..

 

    Estes, atingiram, em alguns casos, dimensões da ordem de uma ou mais centenas de hectares e constituíram-se, naturalmente, como centros económicos, políticos e cerimoniais, em cuja órbita se organizaram povoados de menor entidade. 

Convém acrescentar que a existência de fossos não implica necessariamente povoados fortificados; na verdade, trata-se apenas de uma técnica construtiva que tanto poderia ser usada para construir uma fortificação, como para construir um espaço público com outras funções. E tudo indica que temos os dois casos.

 

    Ao contrário da fase anterior (Neolítico antigo e médio), estes grupos praticavam, a par da pastorícia, uma agricultura em larga escala (cereais e leguminosas), ocupando finalmente os melhores solos da região que, como vimos, inicialmente, foram preteridos a favor das áreas graníticas, menos interessantes, em termos de potencial agrícola.

    Estes novos assentamentos traduzem, naturalmente, um  grande crescimento demográfico e as tensões daí decorrentes, sobretudo se considerarmos, em paralelo, a degradação das paisagens e dos solos, provocada pelo pastoreio e pelas práticas agrícolas/florestais.

    Os dados disponíveis sobre esta época espelham, de forma muito sugestiva, a complexificação social e anunciam, aparentemente, as sociedades hierarquizadas que as Idades dos Metais concretizaram.

    Note-se que estes povoados foram contemporâneos da construção das largas centenas de antas que pontuam, ainda hoje, o Alentejo Central.

 

                                    

                     Fig. 12.9 - Monumentos funerários do Neolítico final (antas).

O Tempo das Pedras Grandes.2

As antas são monumentos funerários coletivos, construídos sobretudo no Neolítico final (segunda metade do IV milénio a. C.), cujo uso (ou reutilização) se estendeu, em muitos casos, ao longo do  milénio seguinte e além dele. 

Só no Alentejo central, conhecem-se mais de novecentos exemplares, de diferentes tipologias, matérias-primas e dimensões. No entanto, trata-se apenas da ponta do iceberg, uma vez que, em paralelo, foram construídos, na região, monumentos muito mais discretos ou mesmo virtualmente invisíveis, na paisagem atual: fossas ou grutas artificiais, para além dos monumentos de falsa cúpula (que, em geral, parecem ter substituído as antas). E haveria que contabilizar os monumentos que, ao longo do tempo, e até aos nossos dias têm vindo a ser destruídos.

O Freixo do Meio localiza-se junto a uma das áreas mais densas, no que diz respeito ao megalitismo funerário do Alentejo central. Destaca-se, desse conjunto, atendendo à sua monumentalidade, a Anta Grande da Comenda da Igreja (a cerca de 10km).

Originalmente, as antas eram cobertas por um monte de terra e pedras, a mamoa, mas, no Alentejo Central, a maioria das mamoas sofreu alguma erosão e o esqueleto pétreo ficou, frequentemente, a descoberto...

A par da função funerária (e das implicações sociais e religiosas desta função), as antas encerram, entre outras, conotações simbólicas relacionadas com a paisagem, incluindo, neste conceito, as orientações astronómicas.

Para alguns autores, as antas evocariam metaforicamente o ventre grávido da mãe terra, a quem os mortos eram devolvidos, para um dia renascerem, através de uma passagem estreita, em direção ao Nascente...

Porém, as antas (tal como os menires, antes delas) são parte de um fenómeno mais amplo, quase global, de monumentalização das paisagens, relacionável com a implantação do modo de vida agrícola e a reinvidicação da propriedade sobre a terra.

Na mesma época em que se começaram a construir as antas, apareceram grandes povoados rodeados de fossos, muralhas de adobe/paliçadas, que traduzem, a par das antas, o extraordinário incremento populacional a que o desenvolvimento do neolítico conduziu.

 

                       

     Fig. 12.10 - Povoados fortificados e monumentos funerários calcolíticos (antas em ruinas e tholos).

 

Na primeira metade do III milénio a.C. (Calcolítico) o Alentejo central viu surgir um número elevado de novos povoados fortificados, desta vez com potentes muralhas de pedra e implantados em locais com elevada defensabilidade natural.

A fundação desses "castros" corresponde a um enxameamento para fora dos melhores solos agrícolas, ocupados extensivamente a partir da segunda metade do IV milénio (Neolítico final) e onde alguns dos povoados de fossos parecem ter desempenhado o papel de lugares centrais.

O pastoreio e, em alguns casos, a exploração do cobre parecem ter sido a base económica destes novos povoados, geralmente muito pequenos quando comparados com a maioria dos povoados de fossos.

As muralhas destes povoados refletem, de forma muito evidente, o ambiente de insegurança generalizada, provavelmente relacionada com a competição por recursos básicos; o extraordinário crescimento demográfico, patente a partir do Neolítico final, teve inevitavelmente, um impacte ambiental severo, nomeadamente na redução das florestas e, em última análise, na redução da fertilidade dos solos.

 

Neste quadro, a ocupação de territórios com menor potencial agrícola, parece ter sido um último esforço para sustentar o crescimento demográfico, num contexto de crise anunciada.

 

Esse esforço fracassou, claramente, em meados do III milénio, altura em que se observa já o declínio demográfico que vai caracterizar os séculos seguintes, ao longo de boa parte do II milénio a. C.

 

Na área do Freixo do Meio, conhecem-se, por ora, dois povoados fortificados desta época: o Castelo Velho, junto ao Almansor, a cerca de 3 Km, e um outro na Herdade do Vidigal, a cerca de 7 km.

No Calcolítico começaram a ser construídos os tholoi, sepulturas coletivas, cujas plantas se assemelham às das antas, mas que, em vez das lajes megalíticas, usaram pedras de dimensões modestas. A cobertura era, na maior parte dos casos, feita com a técnica da "falsa cúpula". O tholos mais próximo do Freixo do Meio localiza-se nas imediações da Gruta do Escoural, embora existam indícios, ainda pouco explícitos, de monumentos deste tipo, nas imediações.

Uma guerra generalizada, envolvendo todos contra todos, fez certamente estragos.

A guerra, as epidemias, as migrações para zonas mais tranquilas, são os fatores mais razoáveis para explicar o forte declínio demográfico, no Alentejo Central (mas não só), de que a região não viria a recuperar nos milénios seguintes.

Sem excluir liminarmente a possibilidade de a crise do terceiro milénio a. C. ter sido provocada por invasões bélicas, como alguns sugerem, note-se que o registo arqueológico não sustenta a descontinuidade cultural que essa leitura exigiria.

Seja como for, o certo é que, sobre as ruínas de muralhas, no exterior das muralhas ou em pequenos povoados, fundados de novo, mas sem muralhas, instalaram-se os prováveis remanescentes das guerras fratricidas, inseridos em redes de troca em que circulavam certos bens de prestígio, incluindo a cerâmica dita campaniforme, assim como artefatos metálicos de cobre arsenical, nomeadamente pontas de projétil e punhais, e ainda alguns objetos de adorno.

São frequentes os enterramentos desta época em monumentos mais antigos, no Alentejo central.

Na área do Freixo do Meio, não se conhecem, até à data, vestígios de época "campaniforme".

  A  B

Fig. 12.11 – A: Crise do povoamento calcolítico, em época campaniforme. B: Crise demográfica do Bronze inicial.

 

 

Mil anos de crise

 

    São muito raros os povoados atribuíveis, no Alentejo Central, ao Bronze antigo e médio, confirmando uma tendência que já era notória na segunda metade do III milénio a.C.. 

    Isto significa que, durante perto de mil anos, a região esteve quase deserta, dando, à Natureza, a oportunidade de regenerar os solos esgotados, voltando os arvoredos a recobrir as paisagens desarborizadas, anteriores à crise demográfica.

 

    São também muito raras as sepulturas (tipo cista), típicas desta época e relativamente frequentes, noutras áreas do Sul de Portugal; em contrapartida, conhecem-se bastantes casos de reutilização de monumentos mais antigos (antas e sepulturas protomegalíticas).

 

    Por outro lado, estes grupos fizeram deposições votivas junto a menires e recintos megalíticos, como parece ter sucedido no Arneiro dos Pinhais, a cerca de 10 km do Freixo do Meio. Eles andaram por lá..

 

                              

                            Fig. 12.13 - Povoados de cumeada, no Bronze Final.

 

O Tempo dos Guerreiros

 

Nos finais da Idade do Bronze, por volta do ano mil a.C., o Alentejo Central volta a assistir à fundação de novos povoados fortificados (alguns sobre as ruínas de povoados calcolíticos), a maioria dos quais ocupando os pontos mais elevados da região (povoados de cumeada).

Na região, a maior concentração deste tipo de sítios, vamos encontrá-la nos três pontos mais elevados da serra d'Ossa: Evoramonte, S. Gens e Castelo ou, junto ao Guadiana o sítio de Monsaraz.

 

No que diz respeito à paisagem, depois da recuperação das florestas (e dos solos) proporcionada pela crise demográfica que, iniciada no terceiro milénio, atravessou boa parte do segundo, voltamos, logicamente, a ter algum impacte; porém, até à implantação do domínio romano, nunca mais a pressão humana atingiu, nem de longe nem de perto, os valores imediatamente anteriores àquela crise.

 

Se considerarmos que, só a partir do final do primeiro milénio a. C., com a romanização, a economia agropastoril passou a produzir excedentes para exportação, é razoável que o impacte se tenha exercido apenas nas proximidades imediatas dos povoados e a maior parte do Alentejo central se tenha mantido bastante selvagem.

 

                              

                 Fig. 12.14 - Figura de guerreiro do Bronze final e estrela do Sudoeste. 

 

Resultando de movimentos de povos ou apenas do reagrupamento do povoamento remanescente, estes novos povoados representam, na verdade, um novo paradigma. São sociedades hierarquizadas, onde se impuseram elites com acesso a armas de bronze, sobretudo espadas, mas também elmos e escudos, assim como a cavalos e carros de guerra...

 

Em muitas estelas funerárias dessa época, os guerreiros foram representados com a parafernália bélica, acompanhada quase sempre por um espelho e um pente.

A população, porém, não voltou a atingir os níveis do Neolítico final/Calcolítico. E a floresta autóctone beneficiou naturalmente desta redução.

O Bronze final foi a época em que, por toda a Europa, surgiram sociedades cada vez mais complexas, hierarquizadas e eventualmente  proto-estatais, dominadas por guerreiros profissionais, uma elite dispondo de armas poderosas... e jóias de ouro maciço.

A par dos grandes povoados de altura, que emergiram na parte final da Idade do Bronze, existe uma rede de pequenos sítios, sem muralhas, cuja cronologia parece, em muitos casos, anteceder a fase de acastelamento e, em outros, ser contemporânea.

Nos arredores do Freixo do Meio não se conhece, até à data, nenhum povoado fortificado desta época. O mais próximo, com os dados atualmente disponíveis, é o Alto do Castelinho da Serra, a cerca de 20 km. 

Porém, existem algumas evidências de comunidades da Idade do Bronze, no raio de 10 km: um pequeno povoado aberto, na Courela da Freixeirinha (inédito) e o referido depósito ritual no cromeleque do Arneiro dos Pinhais e, eventualmente, algumas sepulturas individuais no Barrocal das Freiras/Lobeira.

A deposição ritual, nesta época, de pequenas taças, junto de menires neolíticos, verificou-se igualmente nos menires de S. Sebastião e do Mauriz, em Évora, e no menir da Caeira, em Arraiolos.

No Bronze Final foram produzidas, no Sudoeste peninsular, as chamadas estelas de guerreiro, algumas das quais reutilizaram menires neolíticos. Conhecem-se igualmente materiais da Idade do Bronze no espólio de algumas antas e sepulturas protomegalíticas, implicando uma reutilização desses monumentos.

 

                               

                       Fig. 12.15 - Chegada do comércio fenício e impacte orientalizante.

 

Ex Oriente Lux

 

O impacte do comércio fenício, no Alentejo central, começou a fazer-se sentir, a partir do sec. VIII a.C., com a introdução da arquitetura quadrangular, da escrita, da metalurgia do ferro, do torno de oleiro, de uma ourivesaria sofisticada e, em termos mais gerais, com a chegada de novas ideias e valores.

 

O resultado traduziu-se em cerca de 300 anos de paz, durante os quais muitos castros foram abandonados, dando lugar a um povoamento rural disperso, de base agropecuária, em que a oliveira e a vinha parecem ter sido as principais inovações.

 

A maior concentração de sítios desta época (sec. VIII-V a.C.) foi, até ao momento, identificada na bacia do Guadiana.

 

                                      

                          Fig. 12.16 - Os últimos monumentos megalíticos (I Idade do Ferro)

 

Os últimos monumentos megalíticos alentejanos foram construídos algures pelos sec. VII-VI a.C...

 

Na verdade, por enquanto, apenas se conhece, de forma inequívoca, um exemplar deste tipo, o alinhamento da Tera, em Pavia.

 

É constituído por uma linha de menires de dimensões escalonadas, apontando para uma área com enterramentos em urnas cinerárias, delimitada, por sua vez, por pequenos monólitos,

 

Note-se que este monumento se localiza numa área muito próxima de um recinto megalítico neolítico que, de algum modo, pode ter inspirado os construtores (o recinto de Vale d'El Rei).

 

De qualquer modo, não deixa de ser curiosa a semelhança entre o Alinhamento da Tera e o monumento de La Fossa, em Itália, mais ou menos contemporâneo.

 

Por último, é interessante observar que os menires que compõem o Alinhamento da Tera se distinguem bastante dos congéneres neolíticos, por serem manifestamente mais esguios e angulosoв,

 

Nas proximidades do Freixo do Meio não se conhece, até à data, nenhum sítio da 1ª Idade do Ferro.

 

                      

                                                    Fig. 12.17- A segunda Idade do Ferro.

 

Os Célticos

No séc. Va. C, voltaram as muralhas, numa nova tipologia de povoados fortificados, relacionável aparentemente com a chegada de povos guerreiros, de matriz indo-europeia, geralmente referidos como celtas (no Alentejo Central, os Célticos)

 

Estes novos povoados instaram-se, não nas cumeadas, como aconteceu na Idade do Bronze, mas em esporões mais ou menos agrestes, junto aos cursos de água (castros de ribeiro).

 

Foram estes os povos que os romanos encontraram na sua expansão para ocidente e, que, na sequência das Guerras Lusitanas, acabaram por conquistar, em meados do sec. II a.C.

 

A escrita parece ter regredido, mas continuaram as arquiteturas ortogonais, trazidas, séculos antes, pelos fenícios e que, no Alentejo central nunca mais foram abandonadas.

 

Na área do Freixo do Meio, como, na verdade, em toda parte NW do Alentejo central, não se conhecem vestígios desta época.

 

 

Alentejos Centrais

 

Da breve síntese, acima apresentada, é fácil concluir que, ao longo dos seis milénios considerados, a paisagem centro-alentejana foi sendo ocupada (e, consequentemente, moldada) de modos bastante diversos. 

No final do Mesolítico, a concentração populacional nos estuários do Tejo/Sado, mesmo que não absoluta, implica um uso esporádico, sem impacte considerável na paisagem holocénica que, após a última glaciação, prosperou com as melhorias climáticas.

No Neolítico antigo e médio, o desmatamento inerente à "frente neolítica" afetou quase exclusivamente as áreas graníticas, deixando de fora as extensas áreas de xisto e de calcário, nomeadamente nos concelhos de Estremoz, Borba, Vila Viçosa e Alandroal e revelando uma concentração muito diferenciada na área de Évora

A partir do Neolítico final, a distribuição dos povoados de fossos e das antas permite-nos encarar um crescimento demográfico explosivo, com óbvias concentrações em áreas com solos agrícolas de melhor qualidade, nomeadamente os férteis  barros de Beja.

Nesta fase, o Alentejo Central tornou-se certamente uma paisagem fortemente antropizada, com campos agrícolas e pastagens, ficando, porém, ainda de fora,  os xistos e os calcários.

O auge deste processo foi atingido, na região, no Calcolítico pleno, em que mesmo essas áreas menos interessantes, foram ocupadas; o potencial dos xistos e calcários, em termos de defensabilidade natural, foi extensivamente utilizado para a implantação de pequenas quintas fortificadas, sobretudo nas bordas dessas geologias, perto do contacto com áreas com melhores condições, em termos de águas e solos.

No Bronze final, os grandes lugares centrais foram construídos exclusivamente nas áreas mais difíceis e, na Segunda Idade do Ferro, um padrão semelhante, com algumas atenuantes...

Finalmente, existe um curioso deslocamento do povoamento humano, nesta região, de Oeste para Leste, ao longo do período aqui considerado. Do Estuário, ao Guadiana.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 13, onde se revisita o tema da engenharia neolítica

 

Arqueologia Experimental

Fig. 13.1- Esquema dos alvéolos de Stonehenge (imagem extraída do vídeo Secrets of Lost Empires)

Num trabalho académico recente  intitulado "Early science and colossal stone engineering", assinado, entre outros, por investigadores das Universidades de Sevilla, Alcalá de Henares (Madrid), Salamanca  e  Granada.[72] foram apresentadas propostas sobre as técnicas construtivas usadas no transporte e ereção de blocos megalíticos. No essencial, os autores seguem a experiência, promovida pela BBC, em que foi usada uma réplica, em cimento, de um dos ortóstatos de Stonehenge..

Não creio que essa técnica, baseada num complexo sistema de contrapeso, que talvez pudesse funcionar com os blocos tabulares regulares de Menga ou Stonehenge, fosse viável com os nossos menires (ou mesmo com os esteios da maior parte das antas).

De acordo com as várias experiências que levei a cabo (duas delas no Montado do Freixo do Meio), com blocos de dimensão média, o método utilizado pode ter sido muito mais imples.

O alvéolo é escavado, de um lado, na vertical e, do outro, em rampa. 

O bloco é rolado sobre troncos (ou deslizado) até ao alvéolo, pelo lado da rampa e levantado pela extremidade distal, com alavancas, até apoiar no fundo do alvéolo, contra a parede vertical deste. Em todo o processo, cada elevação do bloco é acompanhada pela deposição de pedras de calce que vão preenchendo a parte rampada e contribuindo para a estabilidade do dito.

 Para evitar oscilações laterais, é importante que o alvéolo seja aberto à medida da largura do bloco, com pouca folga e, para reforçar este efeito, bastam uma corda de cada lado, com os operadores preparados para corrigir eventuais desvios. É importante que a elevação da extremidade do bloco seja feita gradualmente, subindo cerca de 5º de cada vez e que, em cada subida, seja acompanhado pela inserção de pedras de calce, por baixo e, se necessário, dos lados.

Claro que, com blocos de grandes dimensões, à medida que o processo inicial, baseado exclusivamente no uso das alavancas, avança, é preciso criar uma plataforma, presumivelmente em terra e pedras, para que o apoio das alavancas possa ir subindo, até elevar o bloco aos 45º. Nessa fase, inicia-se o uso das cordas, com ou sem A, sendo fundamentais as cordas laterais e uma subida faseada do bloco, acompanhada pela reposição ou acrescento, das pedras de calce.

Fig. 13.2- Esquema de implantação de menir.

 

1 2

 

 

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Fig. 13.3 - Algumas das experiências com menires ou blocos meniróides. 1. Vale Maria do Meio, 1995; 2. Tojal, 2000; 3. Barrocal, 2006; 4. Freixo do Meio, 2022; Boom, 2023.

 

Tempo e tecnologia

Muitos menires tombaram ainda no Neolítico, muito provavelmente como consequência de importantes eventos sísmicos.[73]

É possível que os construtores e utentes dos menires se tenham apercebido de que os blocos tombavam sistematicamente para o lado rampado do alvéolo. 

Quando, séculos mais tarde, começaram a construir os grandes dolmens (alguns reutilizando menires), aplicaram os conhecimentos adquiridos, inclinando, mesmo que levemente, os esteios para o lado oposto á rampa.[74]

Esta solução poderia, em alguns casos, ter a vantagem adicional de permitir cobrir, com a laje de cobertura, um espaço mais amplo; porém, em muitos casos, como acontece notoriamente com os quoit britânicos, a laje de cobertura pode exceder largamente a área a coberta.

 

Fig. 13.4 - Esquema da derrocada dos menires

 

 

 

Fig. 13.5 - Esquema da implantação de um esteio de dolmen

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 14, onde se aplicam, em termos museológicos e pedagógicos, os dados e as interpretações da arqueologia 

 

Arqueologia e ambiente

No Montado do Freixo do Meio, prospetámos muito, escavámos pouco e, a partir dos dados obtidos e da informação disponível sobre outros sítios, reavaliámos a neolitização do atual território português, do ponto de vista do Alentejo Central. 

Em paralelo, procurámos  investir na divulgação dos resultados e no envolvimento da comunidade, tendo em mente um contributo da arqueologia para a literacia  patrimonial e ambiental.

Trata-se, assumidamente,  de um trabalho de Arqueologia Pública[75], conceito que se desdobra em vários sentidos, e que, para nós, significou sobretudo a criação de conteúdos, tecnicamente válidos e atuais (e, obrigatoriamente passíveis de discussão), sobre os temas da neolitização e do megalitismo da região, dirigidos a vários tipos de públicos escolares e não só.

Os conteúdos incluíram a implantação de estruturas “museológicas”, com uma forte componente de Arqueologia Experimental e usando materiais e métodos ambientalmente sustentáveis. 

É preciso reconhecer que a grande maioria dos arqueólogos, entre nós, desenvolve atividades de sensibilização dos públicos (conferências, exposições, museus) que se enquadram claramente no conceito geral de Arqueologia Pública, embora a designação seja pouco usada, por estas bandas. No Brasil, para além de ser o título de uma revista académica especializada, é uma área com bastante destaque e com uma forte componente social[76]; no Reino Unido, é o título de um Mestrado, no prestigiado University College London...

As interpretações avançadas, no campo da neolitização e do megalitismo alentejanos, tendo em conta, naturalmente, outros contextos e outras escalas de análise, inserem-se, de certo modo, na agenda do Montado do Freixo do Meio, cujo projeto se foca na relação entre o agro-pastoralismo e a floresta, tendo em conta o impacte humano sobre o sistema natural, a partir do início do Neolítico. 

E, na mesma linha, está a interpretação da crise do final do Calcolítico, não por invasões ou crises do modelo político-social, mas como resultado expectável do crescimento demográfico, alargamento e intensificação da área agropastoril, à custa da redução da floresta e, em síntese, do impacte destas mudanças sobre a fertilidade dos solos. 

Não se trata de uma perspectiva meramente funcionalista, embora, neste caso, os fatores ambientais sejam muito relevantes; todavia, há que considerar, sobretudo tratando-se da neolitização, os contextos historico-culturais  e as próprias decisões referentes à relação Homem-Natureza.[77]

Note-se que o projeto central do Montado do Freixo do Meio se tem focado, nos últimos anos e numa escala crescente, na agrofloresta, ou agricultura sintrópica, procurando formas de articular a atividade humana, nomeadamente a subsistência económica, com a conservação e o restauro da natureza.

Sete mil anos depois, com muitos avanços e recuos, procura-se repensar essa época; quintas familiares, dispersas em núcleos locais/regionais, foram abrindo clareiras e prosperando. Nessa fase inicial, o crescimento demográfico terá sido, desde logo, bastante acelerado; em cerca de 500 anos, o interior peninsular estava cheio destas pequenas quintas, para além das ocupações, mais ou menos estáveis, em grutas e abrigos. 

A concentração das populações em verdadeiros povoados, excetuando alguns exemplares ribeirinhos, como são os sítios do Baixo Vale do Tejo, considerados sazonais ou, no máximo, complementares, só parece ter-se iniciado já no Neolítico médio e ter-se tornado a norma a partir do Neolítico final.

 

Museologia de ar livre, Museologia da Paisagem

A descoberta do "povoado" neolítico do Freixo do Meio 1 (Capítulo 7), inserido em pleno Montado e relativamente perto do Monte, foi o ponto de partida para a criação de um percurso de Natureza, com cerca de 2km, no total, incluindo a visita ao sítio (talvez o único sítio neolítico antigo, de ar livre, em Portugal, com visitas guiadas e contextualizadas).

Trata-se de uma experiência que se pode relacionar com o conceito de "Museologia informal"[78], e, dentro desta, com a ecomuseologia ou a museologia da Paisagem. Demos, intencionalmente, preferência ao uso dos materiais naturais, reduzindo aos mínimos as soluções tecnologicamente complexas, evitando novo-riquismos inúteis e valorizando, dentro do possível, um certo caráter artesanal. Feito à mão.  

Ao longo do percurso, para além dos aspetos relacionados exclusivamente com a Paisagem (em franco processo de restauro ecológico), foram criadas estruturas "museológicas" de apoio ao discurso arqueológico, centrado nas origens do megalitismo alentejano, nomeadamente a réplica de um cromeleque, à escala 1:1; essa réplica reproduz, em termos de implantação, planta e altura dos menires, o recinto de Vale d'El Rei, em Pavia, o único deste tipo de monumentos que chegou aos nosso dias intacto (após restauro, em 2002).[79]

Outra estrutura instalada neste percurso, foi o "meniródromo", dois pequenos "menires" preparados para que os visitantes possam experimentar, na prática, todo o processo de transporte e ereção dos monólitos, usando toros, alavancas e cordas, atividade que costuma ser vivenciada com muito entusiasmo.

Porém, a principal estrutura implantada foi a reconstituição  do "povoado" neolítico (Arrife do Moital);  esta baseou-se, dentro do possível, nos dados e interpretações disponíveis sobre o neolítico regional ou, em alguns detalhes, alargando a contextos mais amplos. Por exemplo,  no que diz respeito aos materiais de origem orgânica (sobretudo as cordas de tília e de urtiga), usámos, como referência, sobretudo os extraordinários sítios de La Draga e da Cueva de Los Murciélagos). 

A decisão de construir duas cabanas inspirou-se na proposta apresentada pelos autores  da escavação do sítio de El Prado (Burgos, Espanha), alegadamente o único sitio de ar livre, do Neolítico antigo, escavado integralmente, na Península Ibérica.[80] Junto às cabanas, foram abertos três silos, dois deles forrados com barro cozido, evocando os exemplares muito bem preservados, do sítio reguenguense de Xarez 12[81] Como é habitual, neste tipo de reconstituições, foram também usados dados etnográficos e interpretações testadas na arqueologia experimental. 

Porém, a técnica usada na construção das paredes assentou nos resultados da escavação do sítio do Freixo do Meio 1, em que foram encontrados vestígios do chamado "barro de cabanas". 

Na reconstituição, o barro utilizado no reboco foi recolhido nas margens da linha de água mais próxima.

Nas coberturas, à falta de elementos arqueológicos, usámos materiais e técnicas diferenciadas, nas duas cabanas; quanto aos materiais, usámos dois tipos de caniço, atabua e palha de centeio, tudo materiais autóctones, disponíveis nas proximidades. No madeirame, recorremos ao material disponível nas imediações, nomeadamente azinho (Quercus ilex), sobro (Quercus suber), freixo (Fraxinus excelsior), pinheiro manso (Pinus pinea), medronheiro (Arbutus unedo), sanguinho (Rhamnus alaternus), aderne (Phillirea latifolia) e zambujeiro (Olea europaea, var. sylvestris). 

Quanto aos artefatos do quotidiano, foram executadas cerâmicas, replicando as formas e as decorações das peças recolhidas na escavação do Freixo do Meio 1, assim como as técnicas de fabrico (columbinas) e o método de cozedura (em soenga). 

No que diz respeito à pedra polida, foram elaborados machados e enxós em anfibolito, pela técnica da picotagem, com percutor de quartzo, sobre polidor também de anfibolito.

Quanto à pedra lascada, em sílex, foram produzidas lascas e lamelas que serviram de base à produção de uma foice, um trado e pontas de seta (segmentos).

Foi feito um dormente de mó, em granito, com o respectivo movente.

Foram produzidos arcos, um deles de teixo, e flechas de caniço e oliveira, com armadura de sílex (segmentos). 

Em armação de gamo, foram produzidas picos e percutores brandos. Em osso, agulhas. 

Foram produzidos cestos de vime (Salix) e atabua (Typha).

Para as pinturas, foram utilizados ocres de ferro, fixados com ovo ou cal. Apesar da falta de evidências, no Neolítico peninsular, no que respeita à decoração das paredes das cabanas, decidimos pintar, no interior, motivos copiados da decoração das cerâmicas exumadas na escavação do Freixo do Meio 1; no exterior, usámos motivos da arte rupestre neolítica regional.

No que diz respeito à materialidade, praticamente todos os recursos utilizados estão disponíveis nas proximidades: as madeiras acima listadas, os caniços (Phragmites australis), a atabua (Typha latifolia) , a urtiga (Urtica dioica), a casca de tília (Tilia sp.), o barro, o ocre, o granito e o anfibolito. As únicas exceções foram o sílex, que trouxemos de Rio Maior, e o teixo, proveniente da Beira Alta. 

Aquilo que, provavelmente, se destaca mais, neste exercício de reconstituição, é a própria implantação na paisagem, uma vez que foi possível replicar, com bastante verossimilhança, o modelo verificado no "povoado" do Freixo do Meio1 que, aliás, constitui a norma no Neolítico antigo regional: uma plataforma, aberta a nascente/sul, delimitada por afloramentos graníticos, com os blocos mais monumentais, no lado Noroeste. 

O contexto paisagístico atual, o Montado de sobro e azinho, pontuado por arrifes com uma razoável biodiversidade, evoca, até certo ponto, a paisagem no Neolítico antigo, em que a floresta foi sendo reduzida, pela abertura de clareiras. O primeiro montado alentejano. 

  

 


 

 

    

14.1 - Reconstituição das estruturas da "quinta neolítica" do Arrife do Moital, baseada no sítio do Freixo do Meio 1

 

  

 

                                           14.2 - As decorações no interior das cabanas

 

 

 



 



 

Fig. 14.3 - Representações artísticas do making off do "povoado" neolítico do Arrife do Moital (Grupo do Risco)

 

   AB

C
Fig. 14.4 - Maquetes pedagógicas. Esc. 1: 10

 

 

Fig. 14.5 - Cozedura de cerâmicas

 

 

Fig. 14.6 - Meniródromo

 

       

                     Fig. 14.7 - - Original (à esquerda) e réplica do recinto de Vale d'El Rei

 

 

Museologia feita à mão

 

Como Plano B, tendo em conta a imprevisibilidade das condições meteorológicas, foi  criado o MEGA - Centro Interpretativo do Megalitismo alentejano. Trata-se de um edifício, em madeira, concebido inicialmente como aviário e, entretanto, desativado.

O edifício, de planta hexagonal e com a entrada orientada a Nascente, foi dividido em duas metades. O lado Norte, com cores frias, aborda um tema local, isto é, o megalitismo e a paisagem centro-alentejana, do Mesolítico à Romanização  (Capítulo 12); o lado Sul, em cores quentes, aborda um tema global, isto é, a arte rupestre, no mundo.

O conjunto é complementado com maquetes dinâmicas que permitem explicar, de forma simples, os processos de construção dos menires e das antas. 

Tendo em conta as diferentes tipologias das visitas (Escolas, de diferentes níveis, ou outros grupos), foram elaborados conteúdos adaptados aos diferentes públicos. 

Para os mais novos, criámos a Companhia dos Bosques, marionetes que permitem abordar a neolitização, de formas simples, focadas na domesticação e na importância da floresta.

Reutilizar e reciclar foram conceitos estruturantes, neste projeto. Por exemplo, as caixas de madeira destinadas, originalmente, à postura dos ovos, no aviário, foram transformadas em bancos e bancadas. 

O recurso à pintura manual para a elaboração dos painéis, contornando as óbvias vantagens da ilustração digital, foi outra opção básica. 

As novas tecnologias digitais foram, no entanto, adotadas na elaboração do mapa do Alentejo Central (impressão 3D, com base em cartografia digital, Fig. 3.1.), assim como nas legendas, feitas em QRcode. Esta solução implica uma notável economia de espaço, além de permitir incluir informação virtualmente ilimitada e atualizável.

 

 

 

 

 

Fig. 14.8 - Réplicas de artefatos neolíticos 

 

                             

      Fig. 14.9 - Visita de estudo no MEGA centro interpretativo do Megalitismo alentejano

 

 

 

 

 

                         Fig. 14.10 - Personagens da Companhia dos Bosques

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas

 



[1] Rowley-Conwy, 2025: 81

[2] Jørgensen et al., 2023: 214 

[3] Falk, 2025

[4] Ingold, 2000: 351

[5] Ingold, 2000: 351

[6] Van Welthem e Linke, 2010; Sellato, 2012; Cranshof et al., 2018; de Groot , 2018

[7] Witte, 2017

[8] Witte, 2017: 19

[9] Levy, 2000: 161

[10] Bea et al. 2024: 2

[11] Hardy et al. 2020

[12] Ingold, 2000, 2010, 2013, 2023

[13] Ingold, 2023: 266

[14] Ingold, 2023: 264

[15] Ingold, 2007: 65 

[16] Witte, 2017

[17] Laporte et al., 2002

[18] Correia, 2013: 65, 66 

[19] Van Welthem, 2003

[20] Guerra, 2017: 349

[21] Tsetlin, 2018: 194

[22]Yanshina, 2017

[23] Tsetlin, 2018: 195

[24] Cacho et al., 1996 

[25] Ingold, 2000: 341

[26] Lewis-Williams, 2002; Lewis-Williams; Pearce, D., 2005

[27] Cohen, 2013: 77

[28] Chi, 2002 

[29] Nieuwenhuys et al, 2013: 66; Gibbs, 2015: 347; D´ Ercole 2021: Fig 2 e 3

[30] Correia, 2013; Murillo-Barroso, 2016

[31] Murillo-Barroso, 2016

[32] Correia, 2013: Fig. 5, 6, 11, 17, 35, 36, 38, 39

[33] Murillo-Barroso et al., 2015

[34] Von Petzinger, 2016; Madariaga, 2014

[35] Sanches, 1990 

[36] Batista e Santos, 2013

[37] Cacho, C. et al., 1996: 107

[38] Cacho et al., 1996: 118

 

[39] Soffer et al., 2000: 511

[40] Soffer et al, 2000: 511-513

[41] Scarre, 2017: 890 

[42] Taylor e Viveiros de Castro, 2006

[43] Van Welthem, 2009

[44] Hardy, 2008: 275 

[45] Witte, 2017:19 

[46] Gosden, 2001

[47] Cranshof et al., 2018: 189

[48] Neves, 2019; 2023; Mataloto et al., 2018

[49] Carrasco e P achón, 2010

[50] Carrasco e Pachón, 2010: 108

[51] Carrasco e Pachón, 2010: 132

[52] Carrasco e Pachón, 2010: 132

[53] Beltrán, 1991 

[54] Martins, 2016: 588

[55] Von Petzinger, 2016

[56] Soffer et al., 2000: 533

[57] Anderson, 2013

[58] Falk, 2025: 88

[59] Lewis-Williams. 2002: fig. 22

[60] Helveston e Bahn, 2003; Pearce, 2004

[61] Ingold, 2000: 360

[62] D’Errico et al., 2001; Tao, 2021; Von Petzinger, 2016

[63] Sellato, 2012: 8

[64] Martins, 2016

[65] Van Welthem, 1998

[66] Sellato, 2012, Vidal, 1991; Lagrou, 2010

[67] Von Petzinger, 2016

[68] Ingold, 2007: 61

[69] Ingold, 2007: 62-65

[70] Linke e Van Welthem, 2017

[71] Ingold, 2000: 347 

[72] Lozano-Rodriguez et al., 2024

[73] Bonniol e Cassen, 2009

[74] Lozano-Rodriguez et al., 2024

[75] Merriman, 2004

[76] Funari et al, 2008

[77] Cauvin, 1999b

[78] Moutinho, 1996

[79] Calado, 2004b 

[80] Alonso-Fernandez, 2017

 

[81] Gonçalves et al., 2013

 

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