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capitulos 1 a 5

 

Capítulo 1, onde se assume a prioridade da prospecção arqueológica, no estudo da neolitização do nosso território.

 

 

      Declaração de interesses

Este livro não pretende ser um trabalho académico, apesar de, nos primeiros capítulos, ter como ponto de partida, uma tese de doutoramento, praticamente inédita, defendida há cerca de 20 anos (2005) [1]

 

                                                      ~

Fig.1.1 - Capa do volume 1, editado pelo S. Lourenço do Barrocal (Calado, 2020)



Simetricamente, esse trabalho académico teve, a montante, cerca de 20 anos de atividade arqueológica, concentrada quase exclusivamente na Pré e Proto-história do Alentejo Central e baseada muito mais na prospecção arqueológica do que na escavação.[2]

O saudoso filósofo e sociólogo Edgar Morin, a  propósito das lições da História, defendeu, no seu último livro, que "não existe observação válida sem auto-observação" [3] e que "tudo deve ser contextualizado, e historicizado, incluindo o contextualizador e o historiador". [4]

Como o leitor terá oportunidade de verificar, nas páginas que se seguem, a perspectiva aqui adotada, implica um contexto geográfico concreto (o Alentejo Central) e um certo protagonismo da paisagem (geologia, hidrografia, topografia, solos, água e coberto vegetal, sobretudo).

Em termos de contexto cronológico,  os menires correspondem a uma época (a transição Mesolítico-Neolítico), em que a relação Homem-Natureza sofreu profundas alterações. 

E aqui entra, em parte, o "contextualizador", uma vez que este tema se entrosa perfeitamente nas  suas escolhas pessoais e, de certo modo, nas suas prioridades como cidadão.

Esta agenda implica, inevitavelmente, posicionamentos que têm muito a ver com o tempo presente e os problemas (nomeadamente ambientais) que enfrentamos. 

Mas, escavando um pouco mais fundo, escrevi, em tempos, num texto ligeiro, um breve “Ensaio de ego-arqueologia” [5]; nesse exercício, tentei responder à pergunta clássica, com que muitas vezes me confrontei, sobre por que razão decidi tornar-me arqueólogo. 

 

O pecado original

O primeiro contato com a arqueologia surgiu, de uma forma muito vaga, graças a um povoado fortificado da II Idade do Ferro (o Castelão de Rio de Moinhos), localizado numa propriedade da minha família, onde nasci (no mesmo quarto, aliás, onde nasceram a minha mãe e a minha avó materna).

 

 

 

Fig. 1.2 - Castelão de Rio de Moinhos

 

Como é habitual, existem, à volta desse sítio arqueológico, algumas lendas populares que envolvem tesouros e mouras encantadas, e que toda a gente (sobretudo os mais velhos) conhecia e ensinava aos mais novos. In illo tempore.

O Castelão e a Pedra da Moura (rochedo de xisto, com uma cavidade natural, localizado na base do cabeço onde se implanta o Castelão) [6], fazem, portanto, parte das minhas fantasias de infância, antes da chegada intempestiva dos sonhos fabricados pela Disney/Marvel…

Muitos anos mais tarde, por obra do acaso, o Castelão foi o primeiro sítio onde, três dias depois de concluir a licenciatura em arqueologia, iniciei a direção da minha primeira escavação, em Agosto de 1990.

 

A pedra filosofal

Porém, foi a visita à Anta Grande do Zambujeiro e, sobretudoao Cromeleque dos Almendres, ainda nos anos 70 do século passado, depois de ter visto, na montra da Livraria Nazareth, em Évora, e consultado na Biblioteca Pública, uma separata de um texto de José Pires Gonçalves, [7] que constituiu, para mim, uma verdadeira epifania.

E as ondas de choque desse contacto, em primeiro grau, continuam a fazer-se sentir, até hoje. 

A leitura dos belíssimos textos de Henrique Leonor Pina [8] (o descobridor dos Almendres e da Anta Grande do Zambujeiro) que, mais tarde, tive o gosto de conhecer pessoalmente, marcou-me; a noção da excecionalidade dos dois monumentos eborenses, no contexto peninsular, espicaçou  esse arqueólogo verdadeiramente amador (tomaram muitos profissionais…), a estudá-los, restaurá-los e divulgá-los, como verdadeiras jóias do megalitismo português.[9]

E, com ele, Quintino Lopes, Galopim de Carvalho e outros entusiastas, obviamente voluntários, numa época em que a arqueologia ainda não era uma profissão e, muito menos, um negócio. Era, de facto, uma arqueologia com objetivos e métodos muito próximos daquilo que hoje designamos como Arqueologia Pública, em vários sentidos. 

A pergunta de um milhão de euros, que me coloquei desde essa altura, e que se tinha colocado igualmente a H.L. Pina, é a seguinte: o que pode ter acontecido, nesta região, de especial, que explique a presença de um tipo de monumentos, particularmente monumentais, numa escala que não encontramos em mais nenhuma outra região da Península Ibérica? 

 

 

       Fig. 1.3 - Henrique Leonor Pina, entre o autor e Cândido Marciano da Silva

 

Verdes são os campos

Finalmente, com este enigma em mente, a decisão de estudar arqueologia chegou tardia, já com 30 anos e duas filhas; antes, os meus interesses andaram muito mais por terrenos da Ecologia e acabaram por se concretizar em quatro anos de agricultura biológica, numa pequena quinta familiar, numa época em que esse movimento dava os primeiros passos, em Portugal.

Pelo meio, empenhei-me no ativismo ambiental, de que destaco a participação, em Madrid, com o saudoso Afonso Cautela (fundador e animador do Movimento Ecológico Português e da revista Frente Ecológica), num encontro de organizações ambientalistas ibéricas, ou a participação numa mesa-redonda sobre agricultura biológica, no festival antinuclear de Ferrel, ao lado de figuras como Camilo Mortágua, Boaventura Sousa Santos e Deodato Santos [10].

Na verdade, quando decidi regressar a sério à Universidade (depois de uma breve passagem, anos antes, pelo curso de História da FLUL e de ter desfrutado, através da companhia do António Telmo, dos prazeres da filosofia), pensei, em primeiro lugar, estudar biologia/ecologia; porém, por razões burocráticas e alguma ingenuidade, acabei por escolher arqueologia.

Para além de ter sido uma segunda escolha, devo confessar que, de início, fiquei muito desiludido com a arqueologia que encontrei. A disciplina de Pré-História, na Universidade de Évora, foi um balde de água fria. Entre outras razões, porque, tendo lido os “Tristes Trópicos”, [11] no Verão imediatamente anterior, descobri, com alguma surpresa e desencanto, que, na Universidade portuguesa, a Arqueologia estava totalmente divorciada da Antropologia. Esta deceção fez com que, vinte anos mais tarde, fosse passar uns anos na Amazónia brasileira, envolvido nas arqueologias/antropologias indígenas.[12]

Quando, ainda lá atrás, tive a minha primeira experiência de escavação, num castelo medieval, voltei a achar que aquilo era demasiado “quadrado” para mim.

 

Prospectar é preciso!

Ganhei finalmente algum entusiasmo quando me apercebi da enorme lacuna, na arqueologia portuguesa (e, nomeadamente, alentejana), no que diz respeito à prospecção arqueológica e vi, nesse vazio, uma oportunidade para fazer alguma coisa interessante, praticando e aperfeiçoando uma "arte" que já conhecia de outras andanças: caminhar a pé pelo campo, a corta-mato, sentir a natureza, interpretar a paisagem. 

Beneficiei, naturalmente, de um bom conhecimento, por dentro, do mundo rural alentejano, pelo facto de ter vivido a infância e a adolescência, entre os montes e a aldeia.

Recordo, desse tempo, as caminhadas solitárias, de vários quilómetros, entre casa e a escola e, sobretudo, o regresso a casa, como os melhores momentos do dia. 

Na juventude, já um pouco mais “urbanizado”, acrescentei aos campos que me eram familiares, os interesses e as preocupações ambientais. 

Como aprendiz de arqueólogo, com os Almendres em pano de fundo, tentei olhar diacronicamente e ver, nas paisagens de hoje, as "pegadas" dos construtores e utentes desse extraordinário monumento.

O recinto dos Almendres foi, metaforicamente, a pedra de fundação da minha passagem pelo mundo da arqueologia. As evidências (que, como veremos, começaram a surgir nos finais dos anos oitenta) de uma cronologia recuada para os menires alentejanos e a identificação de um povoamento Neolítico antigo particularmente intenso, em articulação espacial com o monumento, conduziram inevitavelmente a uma revisão dos modelos de neolitização do território português que incluísse, finalmente, os Almendres e, por extensão, o Alentejo Central.

Esses foram os principais incentivos, de natureza arqueológica, para uma caminhada, muito literal e quase contínua, por este Alentejo Central e arredores, onde inevitavelmente, entre cacos e pedras, fui testemunhando as agressões da modernidade ao património cultural e natural alentejano. Para além dos eucaliptais e do crescente agronegócio, plantando, nos melhores solos, monoculturas superintensivas, acresce agora a praga dos painéis solares e as ameaças da mineração.

O Montado do Freixo do Meio, que é o ponto de partida deste livro, é também o ponto de chegada dessa caminhada e, na minha perspectiva, um oásis de esperança, num deserto que se espalhou como lepra e que não dá sinais de abrandar.

 

Navegar contra a maré 

Convém acrescentar que a minha opção pela prospecção arqueológica implicou resistir a um cliché muito popular, que identifica arqueologia com escavação e que, infelizmente, não se aplica apenas ao grande público; a maioria dos arqueólogos, por várias razões, não se interessa pela prospecção e o prospector tende a ser visto um pouco como o “coletor” na geologia, isto é, alguém que faz um trabalho básico, e que, supostamente, não necessita de grandes conhecimentos “científicos”.

Nessa perspectiva, o verdadeiro trabalho de campo do arqueólogo seria, um pouco à moda do século XIX, escavar os sítios que são já conhecidos ou que são descobertos, por obra do acaso ou por prospetores amadores ou, na melhor das hipóteses, arqueólogos principiantes.

E pouco mais. Vamos vendo, aqui e ali, raros projetos de prospecção arqueológica, independentes da arqueologia de salvamento, muitos deles, sem apoios ou quase.

Escusado será dizer que o desinteresse face à prospecção arqueológica, quando assumido pela tutela, tem sido indiretamente responsável pela destruição, sem qualquer registo, de um número incalculável de sítios arqueológicos, sobretudo os mais frágeis e discretos.

E essa tem sido, infelizmente, sobretudo desde os finais da década de noventa, a política seguida pelas entidades responsáveis; nos anos anteriores, tinha existido um projeto de Carta Arqueológica nacional que, em vez de extinto, deveria ter sido reforçado. A cartografia arqueológica foi, na prática, entregue às autarquias, responsáveis pelas elaborações dos Planos Diretores Municipais [13]; à partida, parecia uma boa política de distribuição de competências embora, como todos sabemos, algumas autarquias tenham capacidade para cumprir, mas a maioria nem por isso. 

Em termos gerais, todos estarão de acordo que, para além da salvaguarda do património arqueológico (não se pode proteger o que não se conhece), a prospecção tem um papel único, no que respeita ao estudo da dimensão territorial e paisagística do povoamento humano, em praticamente todas as épocas. 

Nesse sentido, as Cartas Arqueológicas concelhias, não dependentes das agendas e geografias das grandes obras públicas, nem de temas académicos muito específicos, deviam ser incentivadas e suportadas, como prioritárias, não apenas pelas autarquias, mas também pelas várias instituições públicas com responsabilidade na gestão do património histórico-arqueológico.

 

Boots on the ground

Os avanços notáveis que a fotografia aérea e as imagens LIDAR (e outros meios de teledetecção) têm produzido na cartografia arqueológica de várias épocas (a partir do Neolítico final), não são, infelizmente, aplicáveis à identificação de sítios do Neolítico antigo, devido aos fenómenos tafonómicos e às próprias características estruturais dos sítios. [14]

Já agora, sublinhe-se que, nas áreas onde, há trinta anos, foram, como veremos, identificados muitos dos sítios do Neolítico antigo, nos arredores de Évora, hoje a prospecção de superfície tornou-se muito mais difícil e exigente, desde que, nos finais dos anos noventa, a visibilidade dos solos se reduziu drasticamente, devido a várias alterações no mundo rural desta região.

Para minimizar este problema, seria necessário adotar protocolos de prospecção invasivos e expeditos, do tipo test pit ou carotage, sem grande tradição na arqueologia portuguesa…

No entanto, apesar de tudo, continua a ser possível identificar novos sítios e as prospecções recentes, no Montado do Freixo do Meio (Capítulo 8), são uma prova disso.

É óbvio que a prospecção de superfície ganha eficácia se for precedida de análise cartográfica, recolha bibliográfica, imagem aérea (incluindo drones), modelos teóricos e demais parafernália.

Porém, infelizmente, o facto de a prospecção ser geralmente subvalorizada, face às escavações, não atrai, à partida, os jovens arqueólogos. Nos curricula académicos, incluindo os créditos de trabalho de campo exigidos aos alunos, a prospecção é irrelevante; todo o foco aponta para as escavações ou o estudo dos materiais.

Por outro lado, a origem urbana da maioria dos arqueólogos não favorece o “apetite” pela prospecção, tanto mais que, em muitas regiões, o acesso aos campos é cada vez mais dificultado por cercas, portões e proibições.

Já agora, supondo que algum jovem arqueólogo vai ler este texto, recordo algumas vantagens da prospecção, face à escavação:

- A prospecção é um método não destrutivo, ao contrário da escavação.

- Fisicamente, a escavação é muito mais exigente, por vezes, penosa, sedentária.

- A prospecção é nómada. Feita sobretudo individualmente e a corta-mato, exige (e permite) uma imersão na paisagem, dinâmica e em múltiplas escalas. Só temos que, para além dos cacos e pedras, saber ver e desfrutar de tudo o resto.

- Só para abrir o apetite, recomendo uma volta pelo clássico Henry David Thoreau, por exemplo, o "Walden, a Vida nos Bosques" ou "A Arte de Andar a Pé"... 

Quanto às supostas vantagens científicas da escavação face à prospecção, tomemos, como exemplo, o caso paradigmático da Valada do Mato, o único sítio de ar livre, do Neolítico antigo, com datas absolutas, no Alentejo Central. 

O sítio foi descoberto no âmbito de um projeto de prospecções de âmbito regional, que procurava, especificamente, localizar o povoamento  contemporâneo dos grandes recintos megalíticos eborenses; a metodologia assentou numa estratégia de prospecção seletiva, baseada na análise paisagística e na identificação de padrões locativos específicos, relacionados nomeadamente com os caminhos naturais.

Neste caso, como não passava por lá nenhuma autoestrada, nem se previa nenhuma barragem, ainda hoje este sítio seria, muito provavelmente, um ilustre desconhecido. O mesmo se pode afirmar de sítios como a Sala No1, a Rocha da Mina, o Caladinho, o Vale Maria do Meio, o Patalim, o Tojal, a Chaminé, a Barroca, e mais uns tantos, entretanto devidamente "oficializados" através de escavações...

Note-se que a descoberta da Valada do Mato “custou” uma manhã de caminhada solitária, por uma área de montado, desfrutando de uma paisagem belíssima, pulando cercas clandestinamente e, depois de identificado o sítio, uma dúzia de horas de recolha de materiais de superfície, em meia dúzia de visitas pontuais.

Em contrapartida, a escavação do sítio ocupou uma equipa, em cinco campanhas anuais, de trabalho duro, no braseiro do Verão alentejano.

No primeiro caso, o trabalho de gabinete resumiu-se ao desenho de duas dúzias de peças cerâmicas e outras tantas líticas, enquanto, no segundo, se traduziu em meses ou anos de desenhos, medidas, tabelas e outros "artefatos", como é de uso nesses casos.

Porém, excetuando um detalhe ou outro, os dados artefatuais mais relevantes, para uma atribuição cronológica e cultural, já estavam presentes na amostra recolhida nas prospecções de superfície. [15] 

De resto, a primeira campanha de escavações (apenas 12m2), de que fui corresponsável, [16] “forneceu (...) um conjunto artefatual significativo, composto por mais de três centenas de registos de material lítico e cerâmico pertencente ao Neolítico Antigo.” [17]

A meu ver, a atribuição cronológica então proposta (Neolítico Antigo, tout court), era, num certo sentido, mais "precisa" do que a cronologia 14C, baseada numa única data, que acabou por ser usada como a data incontestável da Valada do Mato, uma vez que, apesar de parecer mais vaga, reflete melhor, como veremos, a provável longa duração da ocupação do sítio. 

Com isto, não pretendo desvalorizar o trabalho dos escavadores, nem as datações radiocarbónicas; precisamos, evidentemente de escavações e datações; mas precisamos igualmente, e muito, de projetos de investigação virados para a prospecção.

Claro que este é um problema transversal; por exemplo, a magreza da informação sobre o Neolítico antigo, na Extremadura espanhola, "pode explicar-se pela escassa percentagem do território que foi prospetada de forma intensiva" [18]

É claro que, em termos "científicos", prospecção e escavação permitem responder a questões diferentes, mas indiscutivelmente complementares.

 

West side story

Em 2020, o convite para efetuar prospecções arqueológicas na Herdade do Freixo do Meio, da parte do proprietário, Alfredo Cunhal Sendim, pareceu-me, desde logo, uma excelente oportunidade para retomar os temas da neolitização  regional e da emergência do megalitismo.  Pessoalmente, tratava-se de aprofundar o trabalho realizado 15 anos antes, numa área específica que, à partida, tinha um potencial notável, dentro daqueles temas.

Note-se que o interesse dos pré-historiadores portugueses pela área onde se localiza a Herdade do Freixo do Meio (genericamente, a extremidade NW do Alentejo Central), vem, pelo menos, desde o fabuloso projeto, quase centenário, de Manuel Heleno, antigo diretor do Museu Nacional de Arqueologia e Professor na Faculdade de Letras de Lisboa; a relativa proximidade desta área, em relação aos concheiros do Tejo, esteve certamente na mente de Manuel Heleno, na sua busca pelas origens do megalitismo alentejano, como esteve, assumidamente, na de outros pré-historiadores que se lhe seguiram. [19]

Seguindo esse filão, Victor S. Gonçalves e Marco Andrade fizeram, há poucos anos, uma revisão aprofundada do megalitismo das Herdades do Deserto e Barrocal das Freiras; trata-se de um território, adjacente à Herdade do Freixo do Meio, que os autores relacionaram, significativamente, com a transitabilidade regional entre o Baixo Tejo e o Maciço Antigo. [20]

A Herdade do Deserto, em particular, apresenta a maior concentração de sepulturas protomegalíticas, em Portugal, peculiaridade já intuída desde Manuel Heleno, mas que trabalhos posteriores tornaram mais nítida. [21]

Porém, apesar de essas sepulturas serem tidas genericamente como as mais antigas, dentro do megalitismo funerário alentejano (numa delas foi recolhido um fragmento de cerâmica decorada), as datas absolutas disponíveis para esse tipo de monumentos são demasiado tardias para poderem imbricar-se com os concheiros do Tejo, mesmo na sua reta final. [22]

 

 

                  Fig. 1.5 - Fragmento de cerâmica decorada  de sepultura do Deserto (Gonçalves e Andrade, 2020: 15)



Mas a grande novidade, neste contexto geográfico, tinha sido a descoberta e o estudo do sítio das Casas Novas, em Coruche, que Victor Gonçalves e Ana Catarina Sousa relacionaram genericamente com o interior alentejano.[23]

Por outro lado, com base nos dados disponíveis, era perfeitamente previsível, neste “bordo ocidental do extenso leito rochoso granitóide da peneplanície do Alentejo Central”, [24] a existência de povoamento do Neolítico antigo/médio.

De facto, mesmo no limite da Herdade, eu tinha já identificado, uns bons anos antes, alguns sítios vagamente atribuíveis ao Neolítico, nomeadamente o par de menires do Álamo que, entretanto, veio a ser intervencionado por Pedro Alvim. [25]

Como resultado das prospecções agora levadas a cabo, a descoberta de evidências de povoamento do Neolítico antigo, no Freixo do Meio, veio trazer mais algumas peças para o puzzle da neolitização e da megalitização e, sobretudo, foi pretexto para uma revisão dos dados entretanto vindos a lume, que foram a principal base para uma avaliação crítica dos principais modelos interpretativos, vistos a partir do Alentejo Central, desenvolvida nos capítulos 3 a 8.

 

 

 

Educação ambiental e arqueologia

Enquanto se foi processando a análise dos dados obtidos, quer nas prospecções na Herdade e arredores, quer na escavação do “povoado” neolítico do Freixo do Meio 1, avançámos para a musealização da paisagem arqueológica, assente num percurso de ar livre, no meio do montado, denominado "Um Lugar na Pré-História" (vocacionado para os públicos escolares), e "Origens" (para os restantes públicos) e num espaço construído (MEGA - centro interpretativo do megalitismo alentejano). Sobre esta musealização, assente nos princípios gerais da chamada Arqueologia Pública, trataremos parcialmente no  capítulo 12.

O Montado do Freixo do Meio, entretanto classificado como Área Protegida Privada, é um projeto com mais de três décadas, focado na regeneração da paisagem natural e humana, com uma componente de agricultura biológica e agrofloresta, mas que foi assumindo, em diversos domínios ligados à Natureza e à Cultura, uma vocação experimentalista e, ao mesmo tempo, pedagógica.

A arqueologia, sobretudo na vertente que poderíamos denominar como Arqueologia da Paisagem desempenhou, neste contexto, um papel complementar, em relação aos principais objetivos do Montado do Freixo do Meio.

      Desde logo, através do levantamento e da análise dos dados disponíveis, aprofundados com novas prospecções, procurámos ir desenhando um quadro geral sobre a presença ou ausência de povoamento humano, nesta área, em cada uma das épocas e, a partir desses dados, extrapolar o maior ou menor impacte da atividade humana sobre a paisagem (Capítulo 12).

      Este exercício procura, em última análise, dar profundidade temporal a um projeto bem atual, que, tal como no Neolítico, se foca na relação entre a paisagem natural e a atividade humana (agrofloresta).

      Revendo os itinerários da peregrinação que me trouxe do Castelão de Rio de Moinhos ao Montado do Freixo do Meio, através dos Almendres, destaco a importância que atribuo aos caminhos naturais que, como veremos, são a espinha dorsal do capítulo 3.   

Termino, assumindo que, quando foi a construção da barragem do Alqueva, nos inícios dos anos 2000, perante o entusiasmo da arqueologia portuguesa, quase em bloco, face à "inundação" iminente (na expressão certeira de Gonçalo Ribeiro Teles), eu estive assumidamente do lado dos ambientalistas.

Essa postura conduziu  objetivamente à descoberta das gravuras rupestres do lado português (com Teresa Mateus), aventura em que o biólogo, ambientalista, e meu amigo Carlos Cruz (Cau) que, na altura, tinha lugar na Comissão de Acompanhamento do Projeto, teve um papel determinante. 

Recordo que o jornal Expresso relatou esse processo e a polémica que desencadeou, com objetividade (de Maio a Agosto de 2001),  até que alguém decidiu impor o silêncio. Mas isso são outras histórias. Ou sempre as mesmas. 

 


 

Capítulo 2, onde, para lá da árvore, se olha um pouco para a floresta, enquadrando o megalitismo alentejano. 

 

                   

                                             Fig. 2.1 – Stonehenge

 

As pedras grandes

Os menires alentejanos fazem parte de uma vasta "família", cujos parentes mais próximos se espalharam pela Europa ocidental, a partir dos inícios da Revolução agrícola e, de alguma forma, estão relacionados com ela.

Stonehenge é, sem dúvida, o monumento megalítico mais famoso do mundo. Reconhecido, como antiguidade, desde, pelo menos, a Idade Média, passou a ser objeto de estudos, mais ou menos científicos, a partir do século XVII.

Milhares de páginas depois, com 1, 5 milhões de visitantes/ano e com um investimento recente de 27 milhões de libras, gastos na melhoria das estruturas interpretativas,  Stonehenge tornou-se o monumento de referência global para os muitos milhares de "construções" genericamente aparentadas, conhecidas em quase todo o mundo.

De certo modo, podemos olhar para Stonehenge como uma grandiosa síntese final de um processo que afetou fortemente a fachada atlântica europeia (incluindo as Ilhas Britânicas), durante mais de dois milénios, a partir de uma data ainda imprecisa, em redor de 5000 a.C.

Convém ter em mente que os monumentos megalíticos (isto é, feitos com pedras de grandes dimensões) são apenas uma das variantes de uma ampla categoria de sítios, cuja caraterística comum é a própria  monumentalidade. 

Trata-se de obras que implicaram um elevado investimento, em termos de força de trabalho, mas que podem ter usado, como materiais de construção, para além das pedras grandes, outras soluções técnicas  nomeadamente troncos, terra, ou pedras não megalíticas...

 AB

             Fig. 2.2 – A: Monumento em terra (Silbury Hill); B; e em madeira (Seahenge).

 

À excepção da Austrália e da América do Norte, os monumentos megalíticos apresentam uma distribuição quase global, embora com muitas variações, em muitos aspetos (dimensão, forma, matéria prima, decoração, inserção na paisagem, função/significado, época). Todos diferentes, todos iguais.[26]

 

Ex Oriente Lux

No que diz respeito à Europa atlântica, sem que possamos estabelecer uma filiação clara, é importante mencionar o sítio de Gobekli Tepe (assim como outros similares), na Turquia, com características muito sui generis (Fig.2.8 B) e com datas dos meados do X milénio a.C., até finais do IX milénio a.C.. São obras monumentais que demonstram, pela primeira vez, o domínio das técnicas de manipulação de pedras de grande dimensão.

Por outro lado, trata-se, genericamente, da área onde, aparentemente, se desenvolveram as primeiras experiências agrícolas e, nos milénios seguintes, se consolidou o chamado "pacote neolítico" (agregando outras "invenções" fundamentais, como a pastorícia, primeiro, e a cerâmica, depois) antes da disseminação deste novo modo de vida, até à Europa ocidental.

Trata-se, indiscutivelmente, de monumentos coletivos, erigidos, ao longo de séculos, pelas últimas sociedades de caçadores-recoletores, em fase de transição. São espaços cerimoniais complexos, mas também com estruturas habitacionais associadas, [27] revelando um elevado grau de sedentarização. 

A ideia do uso de blocos megalíticos na criação de sítios monumentais, em épocas tão recuadas, pode, por hipótese, ter ecoado, tal, como mais tarde, o "pacote neolítico", de oriente para ocidente, até atingir as costas da Europa atlântica, pela via do Mediterrâneo.

Esse fenómeno, que poderíamos designar como "mesolitização", terá, eventualmente, coincidido com a concentração do povoamento e a sedentarização relativa de algumas comunidades de caçadores-recoletores, criando as condições ideológicas e sociais que conduziram ao desenvolvimento do agropastoralismo[28]

Como veremos, nos capítulos seguintes, não faltam argumentos credíveis para associar, de algum modo, os menires bretões e centro-alentejanos aos concheiros mesolíticos das respetivas áreas geográficas. No Algarve, as datações OSL disponíveis (e que falta confirmar) apontam igualmente para o Mesolítico; a associação recorrente entre menires e povoados do Neolítico antigo, pode implicar, na verdade, uma continuidade, no uso dos lugares, e não, necessariamente, uma contemporaneidade. [29] Na Bretanha, para citar apenas um trabalho muito recente [30] sobre os alinhamentos de Carnac, foi proposto que, mesmo sendo maioritariamente neolíticos (com datas do V milénio a.C.), os menires organizaram-se numa área cuja monumentalização se iniciou em contexto mesolítico e que prossegue, "respeitando e perpetuando o modelo original e demonstrando uma persistência nas tradições societais e no simbolismo" [31]

Uma perspectiva de teor marcadamente indigenista.

Porém, para darmos corpo a uma possível relação genealógica entre os menires europeus e Gobekli Tepe, faltam pontos intermédios datados, em sequência cronológica, ao longo do Mediterrâneo. Existem menires, sem dúvida, no Sul de Itália, na Sicília, na Córsega, na Sardenha ou no Sul de França. Porém, uns são claramente tardios, outros mal datados e, todos eles, de dimensões relativamente modestas.

Uma exceção, boa para pensar, foi a descoberta surpreendente de um menir de grandes dimensões (12m), submerso a cerca de 30 m de profundidade, no Estreito da Sicília, no Mediterrâneo Central. [32]

Os estudos sobre a variação do nível do mar permitiram atribuir o monólito ao Mesolítico regional, o que, naturalmente, levou os autores do trabalho a invocar Gobekli Tepe, como exemplo de monumentalidade, bem atestada, num contexto de caça-recoleção. 

Na mesma região do Mediterraneo foi, muito recentemente, documentada  arqueologicamente a presença, em Malta  (onde veio a florescer uma arquitetura megalítica muito própria), de uma ocupação mesolítica, em gruta.[33]

Por outro lado,  o caso do Estreito da Sicília obriga-nos a ficar atentos para a possibilidade de outros menires e os respetivos contextos, ao longo do Mediterrâneo, estarem igualmente submersos, nomeadamente em Malta.

Aliás, na Bretanha, temos vários exemplos de menires submersos, nomeadamente em Er-Lannic (Fig. 2.11.B), embora a profundidades menores. É claro que a variação do nível do mar depende da época e da região concreta, porém a profundidade dos menires submersos depende, em última análise, da posição do local em que foram implantados, em relação à transgressão marinha.

 

Far West

Outros possíveis "antepassados", mais próximos, são as manifestações de monumentalidade, em contexto do Mesolítico final, como são os próprios concheiros, mas, sobretudo, os monumentos dessa época, com plantas comparáveis aos recintos megalíticos, mas feitos com troncos de árvores (Fig. 5.1A). [34]

Na fachada atlântica europeia, parece, por ora, ser o Algarve a primeira região a erguer menires. Ainda sem dados definitivos, podemos sugerir um gradiente cronológico (e dimensional) de Sul para Norte,  envolvendo sequencialmente o Algarve, o Alentejo e a Bretanha. E nessa trama temporal, os menires e recintos megalíticos foram dando lugar aos dolmens, havendo mesmo muitos casos em que primeiros foram reutilizados na construção dos segundos. As Ilhas Britânicas ou a Escandinávia parecem, nesta expansão geográfica, ter sido os passos seguintes.[35]

Em todo o caso, a partir de meados do IV milénio a.C., o fenómeno megalítico (sobretudo funerário) espalhou-se um pouco por toda a Europa,  embora, naturalmente, com personalidades regionais diferentes; a partir de meados do milénio seguinte, este tipo de monumentos tende a rarear, substituído por estruturas que exigiam menos esforço construtivo, denunciando um gradual abandono do conceito. 

 

 

AB

 

C

 

Fig. 2.3 - A: Menir da Vilarinha (Algarve); B: Menir do Barrocal (Alentejo); C: Menir de Locmariaquer (Bretanha)

 

Nessa época, o investimento na monumentalidade parece ter sido desviado das construções funerárias, a favor das complexas estruturas delimitadoras/defensivas: fossos, paliçadas e muralhas de adobe e de  pedra. 

Não faltam, porém, exemplos de reutilizações e mesmo construção de novos monumentos megalíticos até, pelo menos, meados do I milénio a.C.

Porém, fora da Europa, existem regiões onde o megalitismo resistiu até aos nossos dias, ou até muito recentemente, nomeadamente a Indonésia, a Etiópia ou Madagáscar.

 

WTF?

Qual o significado/função? 

Deixando de lado os dolmens, cuja função funerária, geralmente coletiva, está bem documentada (sem excluir, necessariamente, outras funções),[36] vamos focar-nos apenas nos menires e recintos megalíticos e tendo em mente, sobretudo, a Europa ocidental.

Assumo, desde já, que, nas páginas seguintes, foram tidos em conta apenas  os dados e as interpretações mais académicas e, logo, mais vinculadas  ao método e ao pensamento dito "científico".

Porém, quero deixar claro que recuso a arrogância paternalista que, algumas vezes, o mundo académico demonstra face a leituras menos ortodoxas, ou que não encaixam na agenda mainstream da disciplina; embora não cedendo a fantasias mal sustentadas, acho necessário, sem perder a articulação com os dados arqueológicos, o recurso à imaginação criativa, quando se trata de interpretar. 

De facto, no que diz respeito aos menires alentejanos, fui testemunha privilegiada de descobertas importantes, nesta área de estudo, em que o olhar de um arquiteto, como Pedro Alvim, [37] de um Físico, como Marciano da Silva [38], ou de um designer como Rafael Henriques [39], sem vínculos à referida agenda, fizeram a diferença.

Falo, claro, das vantagens da interdisciplinaridade. 

Mas acrescento outro exemplo com que lidei de perto - a arqueologia em terra indígena amazónica - em que um olhar sobre as culturas ameríndias nos incentiva a ter em conta outras vias interpretativas.[40]

É interessante, neste contexto, a importância atribuída por um famoso megalitista europeu, M. Parker-Pearson, à forma como, em Madagáscar, a tradição local interpretava os monumentos.[41] Entre os académicos, o tema tem sido explorado, em muitas dimensões, de que, a seguir, procurarei fazer um breve resumo, a partir de alguns conceitos fundamentais:

1. Monumentalidade. A construção de obras monumentais, por vezes "faraónicas", foi uma prática que chegou, sem grandes alterações, até aos nossos dias. Demonstrações de poder (de personagens ou de grupos) e âncoras simbólicas, funcionando como organizadoras de um povoamento sedentário, territorial e maioritariamente agropastoril.

2. Antropomorfismo.  Os menires como estátuas, representando provavelmente antepassados (míticos ou reais). Uma boa parte dos menires é anicónica, isto é, a figura humana é apenas sugerida, de modo extremamente esquemático, pela forma, dimensão e verticalidade dos blocos.

 Em alguns exemplares, no entanto, o menir foi parcialmente afeiçoado, na extremidade distal, para sugerir uma cabeça (como acontece, por exemplo, com alguns menires etíopes, algarvios ou vendeanos). 

 

 AB

Fig. 2.4 - Menires anicónicos do Norte alentejano.A: Patalou; B: Meada.

 

AB

Fig. 2.5 - Menires com cabeça destacada. A: Avrillé (França); B: Soddo (Etiópia)

 

AB

Fig. 2.6 - Menires "portadores" de ferramentas e armas. A: Alentejo Central; B: Córsega

 

Porém, em muitos casos, o antropomorfismo é bastante explícito, reforçado por gravuras representando faces, colares, armas, ferramentas...

É interessante observar que o caráter minimalista dos menires anicónicos, encontra um interessante paralelo na arte esquemática, típica do Neolítico.

Com efeito, para além do forte esquematismo dos menires, o tema quase único é, nos dois casos, a figura humana, testemunho artístico de uma ideia forte que, como sabemos, caracteriza a Revolução Agrícola: os humanos são os donos disto tudo. 

Curiosamente, os menires ameríndios podem ser anicónicos, mas, quando não, são mais zoomorfos que antropomorfos, ecoando o perspectivismo ameríndio, ontologia que vê humanidade em todos os seres animados. [42]

A ereção de estátuas de antepassados, isoladas ou organizadas em recintos, sugere uma reivindicação de ancestralidades, num modelo social possivelmente linhagístico. 

Em ultima análise, os menires devem ser vistos como parte da arte pré-histórica; trata-se de escultura/arquitetura, em paralelo com a pintura e a gravura, linguagens plásticas das quais, no limite, emergiu a escrita. Formas de comunicar e conservar memórias. Linguagem visual. [43]

3. Arqueoastronomia

 As conexões azimutais entre muitos menires/recintos megalíticos e eventos astronómicos simples e cíclicos, como os Solstícios, os Equinócios, os Lunastícios e a Lua de Primavera, são indiscutíveis. Uma interpretação desses dispositivos cénicos e simbólicos passa por um uso metafórico de pedras e astros, como evocadores da eternidade e, direta ou indiretamente remetendo para os antepassados.

Por outro lado, estes alinhamentos astronómicos, apesar de fáceis de observar fenomenologicamente, dependem de um ponto de observação fixo, incompatível, em princípio, com a mobilidade dos caçadores-recoletores.

 

                AB

                                    C

Fig. 2.7- Monumentos ameríndios. A: Rego Grande (Brasil); B: San Agustin (Colombia); C: Tafi (Argentina)

 

 AB 

Fig. 2.8 - Menires com gravuras zoomorfas. A: Mörön (Mongólia); B: Gobëkli Tepe (Turquia)

 

 

4. Paisagem

A implantação destes monumentos, para além das orientação azimutais, relacionadas com a observação do céu, teve, frequentemente, em consideração, aspetos proeminentes ou peculiares da paisagem terrestre, por vezes articulados com orientações astronómicas. [44] A dimensão paisagística manifesta-se, também, na própria escolha da matéria-prima (os blocos pétreos) que, em alguns casos, parece  ter adquirido significados simbólicos, a montante da construção dos monumentos; tem sido igualmente sugerido que, em alguns casos, os monumentos se perfilam como representativos da paisagem de onde os blocos são provenientes. [45]

 

 

             A B

 

         CD

  Fig. 2.9- Menires explicitamente antropomórficos. A: Ilha da Páscoa; B: Mongólia; c: Indonésia; D: França

 

 

         A B

        CD

 

Fig. 2.10 - Recintos megalíticos do Alentejo Central. A: Almendres; B: Vale Maria do Meio; C: Portela de Mogos; D: Fontaínhas.

 

Os locais escolhidos para a implantação dos monumentos, são, frequentemente, pontos chave da paisagem, de caráter liminar, como é o caso do maior menir do mundo, Locmariaquer, que foi erguido estrategicamente perto da entrada no Golfo do Morbihan,  na fronteira entre duas paisagens aquáticas muito diferentes (o Golfo e a Baía de Quiberon); quanto aos  alinhamentos de Carnac, distribuem-se ao longo do "caminho" terrestre ligando, pelo lado Norte, o Atlântico e a Baía de Quiberon. 

No Alentejo Central, destaca-se uma distribuição dos monumentos ao longo da linha de festo Tejo-Sado, num padrão a que Pedro Alvim acrescentou possíveis orientações astronómicas. [46]

Em todos eles, parece relevante a dimensão hodológica, isto é, estão posicionados em função de caminhos naturais de primeira ordem que, ao mesmo tempo, funcionam como fronteiras entre paisagens distintas... (CapÍtulo 3). 

Hécate, para além de Senhora das Encruzilhadas dos 3 Caminhos era Senhora das Fronteiras entre mundos...

5. Sacralização do espaço

Os monumentos participam da criação de espaços "sagrados" (ou cerimoniais) separando qualitativamente, no caso dos recintos, o interior e o exterior, como aconteceu, geralmente um pouco mais tarde, com os recintos de fossos e, no limite, as muralhas de pedra. Estes espaços culturais encerram, em muitos casos, relações físicas e simbólicas com a paisagem natural.

Numa certa perspectiva, são dos primeiros santuários "artificiais", construídos,  substituindo, provavelmente alguma funções sociais e mágico-religiosas desempenhadas tradicionalmente pelos santuários naturais, não construídos (grutas, rochedos, montanhas, curvas dos rios...).

6. Materialidade

O uso da pedra para a construção de monumentos, remete-nos, por um lado, para os eventuais significados míticos (e/ou ontológicos) desse tipo de material, na Natureza, mas também para a escolha deliberada de pedras brutas (não trabalhadas), como é o caso da maioria dos menires alentejanos. [47] Chris Scarre destaca, a propósito, a "compreensão simbólica do mundo natural por parte das comunidades pré-históricas, na qual a pedra tinha um significado fundamental." [48]

Aspetos relativos às matérias-primas utilizadas, como a litologia ou a cor, têm também sido avaliados, revelando, em alguns casos, arranjos intencionais, de ordem simbólica ou, no mínimo, estética.

7. Lugares de sociabilidade

Por último, os espaços em que que se instalaram esses monumentos podem ser comparados, de certo modo, às praças centrais das nossas cidades, vilas e aldeias, onde se concentram funções ligadas à sociabilidade, como os edifícios religiosos e outros edifícios públicos, os mercados, os terreiros das festas ou, simplesmente, lugares de encontro. Com frequência, centrados num monumento de caráter apologético ou memorialista.

Como, no Neolítico antigo, em particular no Alentejo, o povoamento se organizava, como veremos, em pequenas quintas familiares, a existência desses lugares de interação social era, provavelmente, fundamental para garantir a coesão sócio-política desses grupos, em particular no que respeita à gestão de uma expectável pressão sobre o território, num contexto de indiscutível expansão agrícola.

AB

 

C D

 

Fig. 2.11 - Recintos megalíticos da Europa ocidental. Em forma de ferradura, A: Alentejo Central (Vale d'El Rei); B: Bretanha (Er-Lannic); circulares, C, D:  Ilhas Britânicas (Callanish, Stenness)

 

8. Outros

Claro que poderemos, seguindo linhas mais heterodoxas, pensar nos monumentos como axis mundi, ou como acupunctura da terra, entre outras possibilidades. Interessante, porque tem em atenção o contexto, é a analogia entre menires e machados de pedra polida, artefatos que se tornaram ícones do Neolítico e que, eles próprios, em algumas culturas, ganharam estatuto antropomórfico. [49]

 

Megalitismo e neolitização

A diversidade manifesta. quando encaramos o megalitismo como fenómeno global, aplica-se igualmente às funções e significados com que foram concebidos, até porque os contextos cronológicos e geográficos são também muito diversos.

Na Europa atlântica, a construção de monumentos, envolvendo um elevado esforço coletivo, mas também obrigatoriamente uma notável disponibilidade de mão de obra,  traduz objetivamente o expressivo crescimento demográfico que a adoção da agricultura e da pastorícia, potenciou, mas do qual já havia indícios, em algumas sociedades do Mesolítico final.

Por sua vez, o crescimento demográfico  implica, normalmente, complexificação social. 

Neste aspeto, podemos suspeitar que os monumentos participaram, igualmente, em estratégias competitivas, num contexto em que se reivindicava a propriedade sobre a terra, própria do Neolítico e da sedentarização. Por outro lado, não é de excluir que os monumentos se tenham integrado numa certa competição entre os dois modos de vida em disputa.

A neolitização, contudo, não foi apenas uma Revolução económica, demográfica e social; trata-se de uma redefinição da própria relação entre o Homem e a Natureza, com consequências de caráter ético, religioso (ou filosófico) que perduram até aos nossos dias. 

Simplificando, podemos dizer que os caçadores-recoletores não alteravam, ou não alteravam significativamente, as paisagens que os sustentavam; já a agropastorícia começa, por definição, por abrir clareiras, reduzindo as florestas e introduzindo espécies animais e vegetais domesticadas.

Os monumentos enquadram-se, na perfeição, na ideia de que o papel da humanidade é alterar o mundo natural. Aperfeiçoá-lo. Dominá-lo. E proclamar, aos quatro ventos, esse domínio. [50]

 

 

 


 

 

Capítulo 3, onde se dá protagonismo à paisagem 

 

Um Alentejo Central

O Alentejo, como região administrativa, divide-se, desde 1976, em Alto Alentejo, Alentejo Central, Baixo Alentejo e Alentejo Litoral; como seria de esperar, os critérios que presidiram a esta organização do território radicam sobretudo em especificidades geográficas, a que se somam algumas especificidades históricas.

Grosso modo, o Alentejo Central corresponde a uma "mesopotâmia", delimitada pelos três maiores rios do Sul de Portugal: o Tejo, o Sado e o Guadiana.

Por outro lado, em termos administrativos, o Alentejo Central corresponde, efetivamente, aos limites do atual distrito de Évora; porém, em termos de paisagem natural, ele pode ser balizado, a Sul, pela cumeada da Serra do Mendro e, a Leste, pelo rio Guadiana (deixando de fora o concelho de Mourão). Num caso e noutro, trata-se de fronteiras naturais, impostas pela geografia, que, como veremos, parecem ter tido implicações na organização do povoamento, em várias épocas e, em particular, naquela que aqui nos ocupa, isto é, no contexto da instalação das primeiras sociedades camponesas (neolitização) e da construção dos primeiros monumentos megalíticos (megalitização).

Note-se que a Leste do Guadiana e a Sul do Mendro, rareiam quer os menires, quer os sítios do Neolítico antigo. Quanto aos primeiros, as exceções, muito pontuais, são os menires da Horta dos Canos do Meio, em Cuba [51]do Mau Cabrão, [52] da Tapada da Morena, [53] e  das Navalhas [54], na Vidigueira, assim como o menir da Aldeia dos Testudos, em Serpa [55]; o povoado da Foz do Enxoé, também em Serpa, localiza-se a menos de 3 km daquele menir e inclui, no seu espólio, cerâmicas com decoração impressa e plástica. [56]Mais a montante, a Leste do Guadiana, temos dois sítios do Neolítico antigo/médio (Fábrica da Celulose e Pipas) [57], que, por acaso, foram os primeiros sítios de ar livre identificados, no distrito de Évora.

Quanto ao limite ocidental, temos uma fronteira menos nítida, mas não menos efetiva, formada pelas Bacias Terciárias do Tejo e do Sado; esta extensa área constitui, como veremos, uma verdadeira terra de ninguém, separando (ou ligando) o Alentejo Central e os Estuários do Tejo/Sado.

                   
                  

Fig.3.1 - Maquete do Alentejo Central, exposta no MEGA- centro interpretativo do megalitismo alentejano (Montado do Freixo do Meio). Pontos vermelhos: Concheiros do Tejo e do Sado. Ponto amarelo: Freixo do Meio 1

 

Porém, do lado Norte, os limites são ainda menos nítidos, em termos paisagísticos, havendo uma certa continuidade que se reflete também nos dados relativos à neolitização e ao megalitismo menírico. Mesmo assim, existem diferenças: por alguma razão, até 1976, o Alentejo estava dividido em apenas duas províncias: o Alto Alentejo, com capital em Évora, e o Baixo Alentejo, com capital em Beja.

É claro que traçar fronteiras e definir regiões, nunca é uma ciência exata e, neste caso, estou consciente de que, para o que aqui interessa avaliar, o Alentejo Central é apenas uma ferramenta de análise e de gestão dos dados e que outras fronteiras poderiam sempre ser traçadas.

 

Entre Águas

Se temos algumas dificuldades em definir os limites do Alentejo Central, as dúvidas dissipam-se quando se trata de identificar o centro de gravidade da região; de facto, em várias épocas, e particularmente no início do Neolítico, o povoamento do Alentejo Central parece ter-se polarizado nas proximidades do ponto onde se encontram as bacias do Tejo, do Sado e do Guadiana e as respetivas linhas de festo (ou divisores de águas, isto é,  as linhas invisíveis que separam as bacias hidrográficas).

Esse ponto localiza-se, concretamente, nos arredores de Évora (junto ao Monte da Oliveirinha), junto ao qual, por razões óbvias, se localiza uma encruzilhada de 3 caminhos atuais: a M527, que liga Évora à Graça do Divor e a M527.1, que liga aquela à Igrejinha. 

                            
Fig.3.3– Menir da Oliveirinha (desaparecido); com 5, 30 m, era o maior menir do concelho de Évora e localizava-se junto ao ponto de encontro das bacias do Tejo, do Sado e do Guadiana. (Gonçalves, 1975)

 

As linhas de festo são, evidentemente, vias naturais de trânsito, de primeira grandeza, fundamentais antes da romanização do território, época em que, pela primeira vez, a construção de pontes permitiu fazer estradas menos dependentes das condicionantes da paisagem natural. Mesmo assim, na verdade, quer a estrada romana Lisboa-Mérida, quer a N4 e mesmo a A6 se acomodam em boa parte a esse caminho terrestre natural, constituído pelo divisor Tejo/Sado.

Note-se que, recentemente, alguns autores, em textos sobre a neolitização e o megalitismo, no ocidente peninsular, procuraram estabelecer relações relevantes entre sítios e caminhos naturais.  

É claro que um exercício desse tipo pode e deve ser efetuado em várias escalas.[58]

Se olharmos para o conjunto da Península Ibérica, vemos que ela apresenta, na sua maior parte, uma pendente Este-Oeste, sendo esta a direção dominante dos principais rios peninsulares e, claro, das respetivas linhas de festo. A principal exceção é o Ebro, que corre em sentido transversal, conectando o Leste peninsular ao Mediterrâneo.

                          

     Fig. 3.4 - As principais bacias hidrográficas peninsulares e o festo “central”

 

A linha de festo que acompanha, pelo lado meridional (e oriental), a bacia hidrográfica do Tejo é, claramente, o mais longo caminho "de pé enxuto", em termos peninsulares (na mesma medida em que o Tejo é o maior rio ibérico) e, ao contrário das grandes linhas de festo, mais a Norte, que atravessam orografias mais acidentadas, esta beneficia de uma transitabilidade sem grandes obstáculos. 

Este longo caminho "termina" junto ao Vale de Ambrona, no ponto onde se “tocam” as bacias do Tejo, do Ebro e do Douro (e as respetivas linhas de festo/caminhos), e onde a neolitização, além de particularmente intensa, chegou em datas relativamente precoces. [59]

No Mesolítico final, quando, à escala ibérica, os concheiros do Tejo e do Sado se destacaram (Capítulo 4), em vários aspetos, este era o principal caminho natural, por via terrestre, sem obstáculos de maior, para o interior peninsular. Até que ponto foi mais ou menos usado, nesta fase, é um tema, por ora, em aberto. [60]

Menos duvidoso é o facto de esta ter sido, muito provavelmente, uma das principais vias de penetração do neolítico no interior peninsular, tendo, em última análise, como foco de origem, a região do Tejo/Sado.

As linhas de festo principais (as que separam as bacias dos rios mais importantes) são a espinha dorsal de uma rede dendrítica de caminhos formada pelas linhas de festo secundárias. 

Razões de ordem económica e social têm sido invocadas para a existência, historicamente comprovada, de vias transversais às linhas de festo, implicando a travessia de rios com alguma entidade, como é o caso da famosa Via de la Plata, associada, em parte, à transumância, e à qual parece sobrepor-se a dispersão das estelas decoradas da Idade do Bronze. [61]

Claro que, em termos hodológicos, há que ponderar outros elementos da paisagem natural que dificultam ou facilitam a transitabilidade, nomeadamente montanhas, portelas,  vaus, patamares, entre outros. Calado, 2001

De resto, as próprias linhas de festo eram, em alguns casos (nomeadamente quando coincidem com os cumes das montanhas), apenas uma possibilidade; nesses casos, a alternativa era contornar as montanhas pela base, onde a rede hidrográfica tende a ser ainda incipiente.

 

Yo no creo en brujas...

Dentro da rede viária natural, as "encruzilhadas" parecem, em diversos contextos culturais,  ter ganho uma importância especial; curiosamente, se tivermos em conta que os principais caminhos terrestres naturais coincidem com as linhas de festo, percebemo-nos de que existem apenas encruzilhadas de três caminhos; ou, dito de outro modo, existem por todo o globo pontos em que, se entornarmos um balde de água, ela pode escoar para três cursos de água distintos.  Nunca para quatro.

A única exceção, que eu saiba, encontramo-la na geografia bíblica, uma vez que, no Eden, havia uma fonte de onde saíam o Tigre, o Eufrates, o Gehon e o Phison.

Em termos globais, é famoso o Triple Divide Peak, nas Montanhas Rochosas (USA), um ponto em que a água se divide em direção a três oceanos (Atlântico, Pacífico e Ártico).

Na Europa, são bem conhecidas e valorizadas, várias destas "encruzilhadas" de caminhos naturais, nomeadamente Lunghin Pass, na Suiça, Klepac, na Chéquia, ou Roudway Hill, no Reino Unido.

Em Portugal continental, se considerarmos apenas os cinco maiores rios, temos quatro destas encruzilhadas (Fig. 3.4). 

O ponto tríplice entre o Douro, o Mondego e o Tejo, encontra-se materializado no Cruzeiro do Marco das Três Bacias, em Vale de Estrela (Guarda).

Nas proximidades deste ponto, localizava-se o poço que abastecia a cidade da Guarda; curiosamente, as nascentes que alimentavam o aqueduto romano de Évora, localizam-se nas imediações do equivalente eborense. 

Obviamente, se incluirmos rios de menores dimensões, ou afluentes, esse número cresce exponencialmente. Um destes pontos tríplices é o Pico do Mu, Almodôvar, em que se tocam as bacias do Mira, do Guadiana e do Arade, e onde foi implantado um miradouro.

Outro é o de Ourique, em cujas proximidades se encontram as bacias do Sado, do Guadiana e do Mira e onde, parece, teve lugar a mítica batalha de Ourique...

A maioria destes pontos tríplices localiza-se em picos montanhosos, ou colinas destacadas, mas há exceções e Évora constitui uma delas: trata-se de um local bastante discreto, numa paisagem de relevo muito suave. Porém, no Neolítico, foi o local escolhido para a ereção do maior menir do concelho; além disso, na mesma área, existe um sítio calcolítico muito atípico, [62] uma vez que os vestígios (cerâmicas) se encontram no topo de um afloramento granítico destacado, e que, tal como o menir, sugere uma relação com a encruzilhada natural de três caminhos.

Temos, de resto, evidências de que a identificação e a valorização destas encruzilhadas de três caminhos remontam, certamente, a épocas muito antigas, uma vez que o conceito está claramente na origem dos atributos da deusa grega Hécate Trioditis ou, para os romanos, Trivia. A Deusa das Encruzilhadas de Três Caminhos é representada muitas vezes, na iconografia, com três cabeças ou três corpos e Hesíodo sugere que se trata de uma divindade anterior ao panteão olímpico. [63]

Para além dos atributos relacionados com os caminhos, Hécate era a Senhora das fronteiras, dos limiares. E, note-se, as linhas de festo são caminhos, precisamente porque, constituem fronteiras entre bacias hidrográficas.

Como sabemos, os mitos fixaram "divindades associadas aos elementos, a cada acidente ou fenómeno natural".[64]

 

         

  Fig.3.5 – Principais "encruzilhadas de três caminhos", em Portugal continental. 

 

Alentejo Estuarino

É evidente que o caráter "interior" do Alentejo Central é uma ilusão provocada pelas atuais fronteiras administrativas. Na verdade, para uma contextualização adequada da região, é preciso prolongar, até ao litoral, o respetivo enquadramento cartográfico, incluindo, por isso, os estuários do Tejo e do Sado e, naturalmente, a Península de Setúbal, cuja ligação ao interior alentejano coincide, como se viu, com a linha de festo Tejo-Sado.

 

           Fig.3.6 – Distribuição dos menires no Alentejo Central. A traço negro, os limites da área de estudo; a traço interrompido, as linhas de festo principais. (Calado, 2004b)

A

 

                                BC

 

Fig. 3.7 – A: Europa mesolítica: 1. Tejo/Sado; 2. Bretanha; 3. Região valenciana (Adaptado de Grünberg, 2016). B: Distribuição do povoamento do Mesolítico final, no Centro-Sul de Portugal (Araújo, 2003: 103); : C: Relação entre os territórios do Mesolítico Final e o Alentejo Central. (Adaptado de Peyroteo, 2016)

Um indício de uma relação privilegiada entre a Península de Setúbal e o Alentejo Central, embora de uma época mais tardia, é o facto de Sesimbra concentrar o maior conjunto de placas de xisto alentejanas, fora do Alentejo propriamente dito… [65]

À parte constituir uma via natural de trânsito que axializa a região estuarina, a linha de festo Tejo/Sado pode ter desempenhado igualmente o papel de fronteira (ou de "ponto" de encontro) entre os territórios explorados pelas comunidades mesolíticas do Tejo e do Sado, cujos concheiros distam cerca de 120 km uns dos outros.

Esta conexão incontornável entre os Estuários e o Alentejo Central, apoia-se, sobretudo, na geografia, mas também, como tentarei demonstrar, na arqueologia.

No caso do Estuário do Tejo (no do Sado, temos uma situação algo diferente), os concheiros localizam-se todos na margem esquerda, sugerindo que, apesar de certamente permeável (o sílex era provavelmente obtido na Estremadura), o Estuário parece ter funcionado como fronteira natural.

Essa separação física foi, aliás, um dos argumentos que levaram João Zilhão, e seguidores, a considerar que os supostos “colonos pioneiros” neolíticos, vindos de fora da região, se instalaram, na Alta Estremadura, em “enclaves” estrategicamente afastados dos territórios dos últimos caçadores-recoletores.

Para além da relação mais que provável, entre os concheiros mesolíticos e o seu hinterland imediato, há que considerar os já mencionados “povoados” sazonais (muitos e muito extensos, descobertos nos últimos anos) do Neolítico antigo/médio, também na margem esquerda do Baixo Tejo, cuja complementaridade com os “povoados” dessa época, no Alentejo Central, me parece expectável e a que voltarei mais à frente, com mais detalhe.

 

Há mapas e mapas...

Se dermos uma volta, não exaustiva, pela cartografia utilizada, nos últimos tempos, para representar o povoamento neolítico antigo/médio, em Portugal, apercebermo-nos de até que ponto os mapas podem distorcer ou escamotear os dados que se pretendem relacionar espacialmente.

António Faustino de Carvalho, num trabalho relativamente recente, sobre a cerâmica do Neolítico antigo, publicou dois mapas  (um com a cerâmica cardial e outro com a cerâmica de tipo “boquique”, ambas típicas do Neolítico antigo regional). [66]

Em ambos, a imagem resultante sugere um  destaque da Alta Estremadura, enquanto o Alentejo Central aparece como região marginal; no primeiro caso, foi apenas cartografada a Gruta do Escoural; no segundo, apenas a Valada do Mato e o Xarez 12.

Porém, o facto é que a cerâmica cardial está presente, no Alentejo Central, para além da Valada do Mato, em vários outros sítios publicados [67], e, como veremos, também no Freixo do Meio 1.

No mesmo trabalho, foi publicado outro mapa, ainda mais radical, que traça a linha de circulação da cerâmica cardial, no VI milénio a.C., entre o Algarve e a Estremadura. [68]

O Alentejo Central, nesta visão, desaparece literalmente do mapa. E não é um caso isolado. [69]

Um outro exemplo, um pouco mais equilibrado, na perspectiva do Alentejo Central, é o mapa que contempla os dados sobre o Neolítico antigo/médio, no Sul de Portugal. [70] No entanto, esse mapa inclui cerca de dezena e meia de sítios, cujos critérios de seleção são difíceis de discernir, uma vez que inclui sítios escavados, mas não todos (falta o “povoado” dos Almendres, e os recintos dos Almendres, do Xarez e das Fontainhas, entre outros) e sítios não escavados (como a Carrascosa [71] ou as Casas Velhas do Coelheiro [72]), outros com escavações minimalistas (como a Vala Real) [73] ou ainda outro em que os materiais apareceram descontextualizados, resultantes de escavações antigas (Gruta do Escoural) [74]. De fora, ficaram dezenas de sítios publicados (Capítulo 6). [75]

A comparação visual resultante sugere que, por exemplo, no Baixo Tejo, o número de sítios é semelhante ao do Alentejo Central. Não é, nem de perto, nem de longe, embora, como veremos, se trate de realidades muito diferentes, em termos de dimensões e não só.

Muito interessante, também, é a cartografia que tem sido, com algumas variantes, usada pelos vários autores que, nos últimos anos, escreveram sobre a neolitização, no Centro/Sul de Portugal e, sobretudo, os que publicaram os já mencionados sítios do Neolítico antigo/médio, da margem esquerda do Baixo Tejo. [76]

Nesses casos, a margem esquerda do Baixo Tejo foi desmembrada do Alentejo Central e, com ligeiras variações, anexada à Estremadura.

Ora, esta opção deixa, como veremos, de fora, as presumíveis bases residenciais permanentes, complementares dos sítios  neolíticos do Baixo Tejo, que têm sido interpretados como sazonais... 

E separa igualmente os concheiros dos Estuários do Tejo e do Sado, dos respetivos  hinterlands...

Como contraponto, veja-se o mapa publicado por Primitiva Bueno, a propósito das representações dos báculos no megalitismo do SW peninsular. [77]

 

                                             
Fig. 3.8 - Exemplo de base cartográfica, usada por vários autores, em textos sobre o Neolítico do Centro-Sul de Portugal. Compare-se com a Fig. 3.1.

  
                                                                                             

Cada terra com seu uso

Estabelecendo uma relação entre a distribuição dos sítios do Neolítico antigo, em Portugal, e os diferentes substratos geológicos, Mariana Diniz identificou três grupos genéricos: areias, calcários e granitos, exemplificando este último grupo com os raros sítios escavados no Alentejo Central (Valada do Mato, Patalim, Laginha 8, Defesa de Cima, Xarez 12, Xarez 4, Carraça 1 e Fonte dos Sapateiros).

Porém, a autora interpreta os sítios alentejanos como o resultado de “um episódio de cresci­mento demográfico e expansão para novos territórios que implica, para além da permanência nas areias e nos calcários, a ocupação de outras litologias, nomeada­mente os substratos graníticos, e que se traduz numa colonização efectiva e selectiva de algumas áreas, do interior do atual território português.” [78]

Noutro texto, a mesma autora sublinha que "para além das areias e dos calcários, a ocupação dos granitos parece um dos elementos decisivos, desta primeira fase, do povoamento neolítico." [79]

O único aspeto, nesta proposta, que, a meu ver, necessita ser revisto, é a sequência temporal; efetivamente, a autora relega a neolitização das áreas graníticas do Alentejo Central para uma fase posterior à das areias e dos calcários. 

Esta interpretação ajusta-se, curiosamente, quer aos modelos indigenistas (que vêem, nas areias da Costa Sudoeste, os sítios neolíticos mais antigos) quer aos colonialistas (que propõem a anterioridade da neolitização dos calcários da Alta Estremadura). Nos próximos capítulos, discutirei uma interpretação alternativa e, a meu ver, mais adequada à informação disponível, em que os granitos têm outro protagonismo.

Na verdade, é nítida, hoje, a preferência, quase exclusiva, no interior alentejano, pela ocupação das manchas de rochas granitóides, no Neolítico antigo/médio.

E, dentro desta região, é no Alentejo Central que vamos encontrar a maior extensão desse tipo de terrenos, seguido do Alto Alentejo e, em muito menor grau, do norte do Baixo Alentejo (Fig. 3.12).

                          

Fig. 3.9- Mapa geológico do Sul de Portugal, Esc. 1: 500 000

 

Em contrapartida, os vestígios do Neolítico antigo estão, até à data, ausentes nas vastas áreas de depósitos detríticos, terciários, mas igualmente das grandes manchas de rochas metamórficas (sobretudo xistos e gnaisses) que representam uma boa parte da região centro-alentejana. [80]

Quanto aos calcários (dolomitos e mármores), o povoamento do Neolítico antigo, embora exista, é muito escasso e apenas foi identificado nas bordas do Maciço, onde se localizam os patamares de terra rossa e as nascentes. [81]

 A preferência dos primeiros neolíticos pelos terrenos graníticos repete-se igualmente, fora do Alentejo Interior, nomeadamente em Sintra (S. Pedro de Canaferrim), Freixo de Numão (Prazo), ou Cáceres (Los Barruecos). [82]

Finalmente, por distante que pareça, podemos ainda incluir neste conjunto, a própria Bretanha francesa cuja “geminação”, naquela época, com o Alentejo Central, tem várias "camadas" (Capítulos 4 e 8).

A análise dos mapas de capacidade de uso dos solos (Fig. 3.13), descontando uma boa parte de anacronismo, permite observar que, nas areias (incluindo aqui apenas as margens dos estuários e a Costa Sudoeste), o potencial agrícola é baixo, aspeto que vários autores têm admitido, no contexto da neolitização, sugerindo ou não o caráter sazonal dos sítios neolíticos identificados nessas áreas.  Também na Estremadura ou na Península de Setúbal, com solos maioritariamente calcários, encontramos sítios do Neolítico antigo, embora em quantidade moderada, sendo que uma boa parte do que se conhece, desta época, são necrópoles, em grutas, e a maior concentração de sítios de ar livre se localiza na Baixa Estremadura. 

Destaca-se a especificidade desta área, no contexto regional, que, para além dos solos calcários, de lapiás, conta com as rochas granitoides da Serra de Sintra e com os solos basálticos, para além da posição privilegiada sobre a foz do Tejo.

Quanto ao Alentejo Central, descontando as partes a que já fiz referência, com substratos não granitoides, os solos com maior potencial agrícola coincidem com as maiores densidades de sítios do Neolítico antigo/médio, como teremos oportunidade de avaliar, com mais detalhe, no Capítulo 6.

Por outro lado, é notória a semelhança geral, no que respeita ao mosaico de solos, entre o Alentejo Central e o Alto Alentejo, variando sobretudo a dimensão das manchas; quanto aos vestígios do Neolítico antigo/médio ou aos menires, esta última área apresenta também, até agora, uma menor densidade relativa.

Finalmente, no Baixo Alentejo, toda a área meridional, vazia de sítios neolíticos, tem baixo potencial agrícola, relacionado, mais uma vez, com os terrenos de rochas metamórficas; porém, a parte Norte, onde se localizam algumas pequenas manchas de rochas granitoides (e, concomitantemente, alguns menires e sítios do Neolítico antigo, a que acima fiz referência), é maioritariamente composta pelos fertilíssimos barros de Beja, relacionados com um substrato de gabros, onde o Neolítico antigo (tal como os menires) não foi, até hoje, identificado, mas que, como se sabe, tiveram uma ocupação preferencial, a partir do Neolítico final.

Em suma, na ótica dos primeiros agricultores e pastores, os melhores solos eram, em primeiro lugar, os que se relacionam com os granitos, seguidos dos solos calcários; isto tendo em conta a quantidade de sítios de ar livre até à data identificados, apesar das intensas (e, indiscutivelmente, competentes) prospecções desenvolvidas, na Estremadura, por investigadores como João Zilhão, António Faustino de Carvalho, Ana Catarina Sousa ou  Marco Andrade.

Perante estes dados, importa questionar quais as presumíveis vantagens relativas dos solos graníticos, para as primeiras comunidades agropastoris, no nosso território.

Um dos fatores mais imediatos foi, provavelmente, a disponibilidade de água doce que, nos granitos, se obtém, no subsolo, a escassa profundidade.

Também é um facto que a topografia dos terrenos graníticos, no Alentejo Central e Alto Alentejo, é, geralmente, pouco movimentada, logo, fácil de transitar; por outro lado, entre os afloramentos, mais ou menos destacados, como ilhas, encontramos áreas muito aplanadas, de solos relativamente leves, em que o substrato granítico garante, como referi, uma razoável retenção da água. 

Quer as areias, quer os calcários, são geralmente menos competentes, neste aspeto. Note-se que, no caso dos calcários, os "povoados" se concentraram frequentemente nas proximidades das nascentes, na periferia dos Maciços.  Nas areias, os únicos vestígios neolíticos localizam-se em ambientes litorais, fluviais ou estuarinos, com escasso potencial agrícola, sugerindo um uso sazonal focado nos recursos aquáticos. E onde, até agora, apesar de se tratar de ocupações que se prolongaram ao longo de todo o neolítico, não se registaram evidências funerárias. 

 

   

Fig.3.10 - Mapa de capacidade de uso dos solos. 1. Estuários do Tejo e do Sado; 2 Alentejo Central; 3. Alto Alentejo; 4. Península de Setúbal; 5. Estremadura; 6. Costa Sudoeste; 7. Baixo Alentejo.

 

Porém, talvez não se trate apenas da seleção “de paisagens geologicamente favoráveis, em função da tecnologia disponível”, [83] na perspectiva de uma economia agropastoril; na verdade, se aceitarmos que os neolíticos alentejanos migraram para o interior, a partir dos estuários, a escolha poderia, por hipótese, ser, antes de mais, em função da proximidade e contiguidade geográfica.

Fosse qual fosse a origem geográfica (e cultural) dos primeiros neolíticos, é razoável supor que tenham testado os diferentes tipos de solos disponíveis e que, com base nessas experiências, tenham eventualmente dado preferência aos granitos. 

Isto pode significar que o Alentejo Central, mesmo que não tenha sido o palco privilegiado dessas primeiras instalações neolíticas, foi provavelmente a área onde elas tiveram maior sucesso.

Para além das explicações de ordem económica, que acima tentei esboçar, creio que a implantação dos “povoados”, em pequenas clareiras, encostados aos afloramentos rochosos mais destacados, pode remeter também para a dimensão cultural, eventualmente num complexo mitológico/simbólico que incluía os menires. 

Chris Scarre, numa reflexão sobre esta eventual relação, coloca as seguintes questões: "Será que a veneração dos rochedos naturais está na origem das tradições megalíticas? Será que as tradições megalíticas são um resultado direto da vida em paisagens repletas de blocos e afloramentos rochosos?” [84]

Para concluir, sejam quais foram os motivos que estiveram na base destas escolhas, o que, por ora, parece certo, é que o Alentejo Central foi, no Neolítico antigo/médio, intensamente povoado, sendo que o sinal mais notório dessa intensidade é, segundo creio, a densidade e a dimensão dos menires e recintos centro-alentejanos, cuja cronologia neolítica será discutida no próximo capítulo.

 

Muita gente, pouca árvore

Por outro lado, não custa acreditar que os primeiros grupos agropastoris, acabados de se instalar em clareiras, dotadas de solos completamente virgens, rodeadas de florestas abundantes em recursos diversos, organizados em unidades familiares, com vizinhos nas proximidades, sem violência, nem escassez, e recorrendo regularmente aos recursos aquáticos, tenham acelerado ainda mais a taxa de crescimento que já se fazia sentir nas últimas sociedades de caçadores-recoletores…

Na verdade, a fazer fé nos estudos palinológicos sobre a evolução da paisagem, no vale do Sizandro (Torres Vedras), ficamos certamente surpreendidos porque entre aprox. 5400 ‑ 5200 cal. BC dizimaram‑se tanto as florestas de carvalho nas colinas como as flo­restas que circundavam o percurso do rio e dos ribeiros. No seu lugar desenvolveu‑se uma vegetação sem árvo­res, constituída por ervas e arbustos, ocupando áreas de grandes dimensões.” [85]

Conclusões semelhantes foram obtidas para o Alentejo Litoral e genericamente extrapoláveis para o interior da região. [86]

É claro que esta deflorestação acelerada, no contexto de uma economia camponesa em expansão, baseada na agricultura e na pastorícia, se deve relacionar diretamente com um crescimento demográfico explosivo o qual, em poucos séculos, povoou, com núcleos de pequenas dimensões, a partir do litoral, largas áreas do interior da Península.

Foi, muito possivelmente, a redução da fertilidade dos solos, a razão pela qual, em boa parte, os sítios do Neolítico antigo/médio centro-alentejanos foram sendo abandonados, deles saindo um novo modelo de povoamento, cada vez mais concentrado, e ocupando finalmente, sobretudo no Baixo Alentejo, os melhores solos agrícolas e onde surgiram as primeiras estruturas delimitadoras/defensivas (fossos, muralhas de adobe); na fase seguinte, antes da derrocada, entraram em cena as fortificações em pedra e a ocupação estende-se até às áreas menos férteis, nomeadamente os xistos.

Voltaremos, com mais detalhe, a estes temas, no Capitulo 12.

 

A Oeste de Évora

O Alentejo Central engloba paisagens distintas e, em vários casos, com fronteiras indefinidas. Os menires e a neolitização, na fase inicial, ocorreram, como veremos, quase exclusivamente na metade mais ocidental (a que contacta diretamente, através das linhas de festo e dos afluentes, com os estuários do Tejo e do Sado). A esta mancha de povoamento neolítico,  há que acrescentar uma extensão, em Reguengos de Monsaraz), numa relação muito clara com a maior mancha de rochas granitoides, atravessada pelo Guadiana, ao longo do seu percurso, em território português.

As manchas de rochas metamórficas (xistos, gnaisses, mármores) ou as vastas áreas sedimentares que fazem parte da estrutura paisagística do Alentejo Central foram ocupadas sistematicamente apenas a partir do Neolítico final e Calcolítico.

Note-se que, para além dos quatro maiores cromeleques da Península Ibérica, é no Alentejo Central que vamos encontrar também as antas mais monumentais, no nosso país, nomeadamente as Antas Grandes do Zambujeiro (Évora) e da Comenda da Igreja (Montemor-o-Novo).

Nos capítulos seguintes, sobre mesolítico/neolitização e sobre o megalitismo, serão apresentados os dados que, atualmente, nos permitem atribuir os menires centro-alentejanos ao Neolítico antigo (e extrair daí as consequências) e, por outro, atribuir a neolitização desta região a uma fase muito inicial do processo, concretizada, por hipótese, a partir das comunidades dos últimos caçadores-recoletores mesolíticos dos Estuários do Tejo e do Sado. 

 

 

 

 

 


 

 

Capítulo 4, onde se defende o protagonismo dos indígenas

 

No princípio era o verbo

A cronologia dos menires alentejanos foi ganhando antiguidade, à medida que novos dados e revisões críticas foram surgindo. [87]No capítulo seguinte apresenta-se uma síntese desse processo, com inclusão dos dados mais recentes

Atualmente, parece claro que os primeiros menires, no Alentejo Central, se inserem na transição Mesolítico/Neolítico, materializando conceitos e ecoando experiências que remetem para as notáveis transformações que ocorreram, em algumas áreas específicas, nas últimas sociedades de caçadores-recoletores.   

Se procurarmos antecedentes para os menires  alentejanos e algarvios (tal como para os bretões), nas áreas de onde (ou por onde) vieram as inovações técnicas do Neolítico, nomeadamente as cerâmicas, encontramos um vazio quase absoluto. Isto aplica-se, em particular, às costas do Mediterrâneo ocidental, para o caso português, ou à Bacia de Paris, para a Bretanha.

Trata-se, certamente, de criações locais, com personalidades próprias (e, possivelmente, adaptações locais de um modelo importado, em última análise, da Anatólia), em contextos particularmente dinâmicos que receberam e adoptaram, em ritmos diversos, as inovações neolíticas.

 

Colonialismo e anti-colonialismo neolítico

Há muito que, entre os neolitistas nacionais (e não só), as opções se dividiram entre dois modelos teóricos opostos, para explicar o início do processo de neolitização.

Não vou aprofundar aqui essa discussão, em todos os detalhes, remetendo apenas os leitores para alguns trabalhos em que, sem grandes alterações, os promotores e defensores das duas principais correntes, têm vindo, recentemente, a discutir o tema. [88]

Atualmente, todos concordam com uma origem, no Mediterrâneo Oriental, do “pacote neolítico” (agricultura, pastorícia, cerâmica, pedra polida, sedentarização…) e que este percorreu um caminho, de Leste para Oeste, até chegar ao nosso território, por volta de 5500 a.C., ou um pouco antes, isto é, quase dois milénios depois.

Também há acordo sobre a vinda de genes, isto é, pessoas, acompanhando as novidades económicas, tecnológicas e ideológicas da chamada Revolução Neolítica.

Quase todos admitem, igualmente, uma via marítima, ao longo das costas do Mediterrâneo. Uma possível (mas improvável, atendendo à lógica dos caminhos naturais, exposta no Capítulo 3) via terrestre, diretamente da Andaluzia para o Alentejo Central [89], a ter existido, poderia implicar uma anterioridade da neolitização desta região, no contexto do W peninsular...

A principal discussão resume-se à forma como se deu esse avanço e, em particular, à própria identidade dos principais agentes desse processo. Os defensores do modelo “colonialista”, ou “démico”, proposto por João Zilhão e desenvolvido também por António Faustino de Carvalho e Mariana Diniz, alegam que, no território português, a neolitização teria sido obra de colonos pioneiros, instalados, para evitar conflitos, em áreas afastadas das comunidades locais e oriundos eventualmente da região de Valencia ou da Andaluzia; a análise crítica das datações disponíveis levou João Zilhão a propor um movimento de tipo leapfrog migration [90]em oposição ao clássico modelo de "onda de avanço".[91]

Os “indigenistas”, por seu turno, representados principalmente por Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, descartam a chegada de comunidades exógenas e atribuem a neolitização à dinâmica das últimas sociedades de caçadores-recoletores que frequentaram a Costa Sudoeste, no Mesolítico final

Em última análise, quer os modelos “colonialistas”, quer os “indigenistas”, implicam a neolitização dos últimos caçadores-recoletores. 

No primeiro desses modelos, isso só pode ter acontecido numa segunda fase, após alguns séculos em que colonos e indígenas se terão evitado e não terão interagido [92]; pelo contrário, na ótica do modelo indigenista, a neolitização iniciou-se no seio dos próprios caçadores-recoletores, que adquiriram ideias, técnicas e genes, através de velhas práticas exogâmicas, implicando redes de contatos e trocas, a distâncias significativas, com base nas capacidades náuticas adquiridas ou desenvolvidas nessa fase [93]; esta leitura ajusta-se, naturalmente, a um processo tipo leapfrog migration, com a diferença fundamental de que, em vez de colonos neolíticos fundando novas comunidades, como estranhos numa terra estranha, temos a chegada de indivíduos ou pequenos grupos de indivíduos,  recentemente neolitizados, que, por sua vez, "contaminam" os indígenas.

Mesmo que fossem realmente grupos diferentes, convém recordar que “tal como previsto no (…) modelo de ‘colonização pioneira’, as populações neolíticas são também naturais de regiões ocidentais do Mediterrâneo, pelo que será de esperar não se registarem diferenças significativas entre ambas no caso de processos migratórios dentro daquela ampla região.” [94]

Tanto mais que não faltam elementos que confirmam a existência, nessa época, de redes de contacto e intercâmbio, de longa distância, nomeadamente por via marítima. [95]

Porém, um dos pontos em que todos parecem estar de acordo, diz respeito à suposta passividade das comunidades instaladas nos estuários do Tejo e do Sado que, apesar de serem indiscutivelmente as mais complexas, resistiram,  durante alguns séculos, sem introduzirem, aparentemente, alterações na sua base económica (caça, pesca, marisqueio, recoleção[96]enquanto, por todo o lado, se espalhava, em grande velocidade, com êxito evidente, o modo de vida neolítico.

Em defesa da tese da colonização pioneira, João Zilhão, sugere que “todos nos devíamos perguntar porque os Mesolíticos, com uma vida saudável e abundantes recursos, iriam tornar-se neolíticos?”  [97]

Na verdade, todos nos devíamos perguntar porque, um pouco por todo o lado, os caçadores-recoletores se tornaram pastores e agricultores. [98] Claro que essa é outra história, realmente a mais interessante, mas não cabe neste trabalho.

Voltando aos nossos Mesolíticos, a verdade é que essa “resistência ativa” [99] acabou por se “render” ou, dito de outro modo, foi-se rendendo, tendo em conta que “a diminuição da atividade funerária nos dois vales (Tejo e Sado) é contemporânea da primeira fase do Neolítico Inicial em Portugal, entre c. 5500-5300 cal a.C.”. [100] Esta redução progressiva da atividade dos concheiros foi explicada com base em supostos  "constrangimentos ambientais, doenças (que teriam impactado negativamente a fertilidade), e mais alta mortalidade infantil" [101] ou, em alternativa, menos dramática, "a possibilidade da absorção dos últimos grupos através dos intercasamentos sistemáticos com agricultores". [102]

Para explicar este esvaziamento (e, finalmente, a extinção) em comunidades "com uma vida saudável e  abundantes recursos", pacíficas,  como é suposto terem sido aquelas que  habitaram os estuários do Tejo/Sado, essa absorção é perfeitamente compatível com os dados. Porém, os tais "intercasamentos sistemáticos" não são compatíveis com a teoria da separação, durante séculos, entre as duas formas de vida, como se de dois povos distintos se tratasse.

De resto, a presença, mais ou menos frequente, de cerâmica, nos concheiros, é um indicador que não pode ser negligenciado; já agora, convinha esclarecer que o suposto imobilismo dos últimos mesolíticos se baseia, sobretudo, na ausência de ossos de espécies domesticadas, nos concheiros. Ora, se aceitássemos aplicar o conceito de economia agro-marítima à segunda metade do VI milénio a.C. [103]poderia haver complementaridade entre os dois mundos,  circulando o sal e o peixe seco, do litoral para o interior e a farinha e os laticínios, em sentido inverso. No primeiro caso, por razões tafonómicas, faltam as espinhas; no segundo, não seria fácil detectar as ovelhas, se o consumo se reduzisse ao queijo e quejandos, nem os cereais, se o que transitou foi a farinha. 

O consumo de carne de animais domésticos, nos sítios neolíticos, em paralelo com a caça, é um facto indiscutível, mesmo que tenha sido um efeito colateral da produção de leite e derivados. Porém, transportar carne do interior para o litoral não faria muito sentido, uma vez que a caça era abundante nas florestas holocénicas intactas que constituíam o hinterland dos estuários. A importância relativa da alimentação de origem terrestre, nas comunidades mesolíticas, tem sido demonstrada pelas análises isotópicas.

A dúvida é se os primeiros agricultores não terão, desde o início, saído das comunidades mesolíticas, por enxameamento e/ou fissão, através de mecanismos sociais relacionados com a exogamia. 

De facto, tudo indica que os nossos primeiros neolíticos eram mesolíticos neolitizados por outros mesolíticos neolitizados.

Nesta perspectiva, o problema do modelo démico, na sua aplicação prática, foi reificar os Neolíticos, dar-lhes entidade étnica diferenciada da dos indígenas, quando provavelmente o que houve foi sempre, e quase só, indígenas que se foram tornando neolíticos, em ritmos e momentos diferentes. [104]

O Mesolítico e o Neolítico correspondem a duas formas de viver, não necessariamente a dois povos. Na maior parte da Europa, nem sequer correspondem a épocas distintas. Se pensarmos em termos económicos, os primeiros eram caçadores-recoletores e os segundos, também, mas acrescentaram à caça/pesca e recolecção, a agricultura e a pastorícia. [105]

É claro que as diferenças na economia têm, como sabemos, ressonâncias importantes, em termos ontológicos, éticos, sociais, isto é, em todas as mudanças que alguns continuam a designar como a “Revolução neolítica” ou Revolução Agrícola”.

E as revoluções não mudam povos, mudam sim as formas como vivem.

Quanto à componente démica da neolitização, espera-se que os avanços da genética possam  explicitar melhor esse processo, que certamente teve muitas variantes e ritmos. Por enquanto, algumas interpretações mais ousadas, têm merecido, da parte dos arqueólogos, compreensíveis reservas. [106]

Enquanto a poeira não assenta, fiquemos apenas pela chamada cultura material, que é, à boa maneira tradicional, a zona de conforto dos arqueólogos, e olhemos para um exemplo próximo.

Mariana Diniz descreveu, com bastante detalhe, as semelhanças flagrantes entre as indústrias líticas do Mesolítico final dos estuários próximos e as do Neolítico antigo do sítio eborense da Valada do Mato; essa identidade tem sido interpretada, pela autora, como resultado de um processo de miscigenação, em que, por via da exogamia, se integraram características técnicas mesolíticas, numa comunidade neolítica. [107]

A meu ver, os mesmos dados são passíveis de uma interpretação inversa.

Sítios como a Valada do Mato podem, em alternativa, ter sido fundados por colonos pioneiros, oriundos das comunidades de caçadores-recoletores dos estuários, trazendo consigo a cultura material, no que diz respeito às atividades tradicionais, isto é, os artefatos relacionados com a caça-recolecção, mas tendo, entretanto, adquirido os conhecimentos relacionados com a agricultura e a pastorícia, por via das trocas exogâmicas com comunidades, entretanto neolitizadas, com quem mantinham contatos de longa distância. 

Podemos, embora sem grande base, considerar que se trataria de exogamia patrilocal, em que, numa comunidade mesolítica, deram entrada mulheres neolíticas. Que, suponhamos, levaram, como enxoval, um saco de sementes, um casal de ovelhas e outro de cabras. E muitas ideias novas.

E, claro, o know how da cerâmica manual, cuja vinculação ao universo feminino é uma regra geral, com poucas exceções.[108]

E novos hábitos gastronómicos, incluindo, parece, o pão e o queijo…

Porém, para que este modelo faça sentido, temos que encontrar uma explicação (ou mais que uma) para o facto de as populações dos estuários não se terem, aparentemente, neolitizado in situ. 

 

Estuários alentejanos

Os dados disponíveis não deixam muitas dúvidas sobre o protagonismo do Alentejo Central, desde a primeira vaga desse processo, visto que, como veremos com mais detalhe (Capítulo 6) a região parece ter assistido a um crescimento demográfico excecional, em comparação com as regiões limítrofes.

De facto, partindo da noção de que, no Mesolítico final, “a partir de c. 6.400 cal a.C., as áreas costeiras parecem ter sido abandonadas em favor das secções internas dos estuários dos principais rios portugueses, o Tejo (…) e o Sado (…), onde centros-chave de assentamento humano agora se desenvolveram, reunindo grupos que antes estavam dispersos”, [109] salta à vista a importância “geoestratégica” que o Alentejo Central deve ter adquirido, a partir dessa altura, uma vez que se trata, de facto, do hinterland comum a ambos os estuários.

A ideia de que o Mesolítico final, numa vasta região, teve como palco principal, se não exclusivo, os estuários do Tejo e do Sado, foi igualmente defendida, recentemente, por Rita Peyroteo-Stjerna: “a partir de c. 6350 cal a.C., pequenos grupos, altamente móveis, convergiram nos largos estuários dos vales do Tejo e do Sado”.[110]

Resta, naturalmente, alguma dúvida sobre até que ponto essa concentração do povoamento mesolítico final foi mais ou menos massiva, ficando a Costa Sudoeste e os estuários do Mondego, a Norte, e  do Mira, a Sul, como possíveis núcleos resistentes ou apenas como lugares frequentados pontualmente, em expedições de carácter cinegético ou para obtenção de outros recursos, pelas populações sediadas nos limites superiores dos estuários do Tejo e do Sado. [111]

É certo que muitos dos sítios mesolíticos, tanto no interior, como no litoral, podem ser anteriores ao movimento de concentração nos estuários; por exemplo, as datas para o Mesolítico na Costa Sudoeste, não vêm aquém de 5700 a.C. [112], ficando a dúvida sobre se se neolitizaram mais ou menos in situ (ou, pelo menos, no mesmo contexto paisagístico), como propõem Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, ou se a área foi abandonada a favor dos estuários e reocupada, sazonalmente, pelos primeiros agricultores e pastores do interior alentejano.

Nos últimos anos, alguns autores deixaram aberta a possibilidade de uma presença mesolítica também no interior alentejano, como é o caso do Alminho e do Bernardo Deus, 2008 e, sobretudo, do Xarez 12; [113] as dúvidas acima enunciadas para a Costa Sudoeste podem aplicar-se igualmente, nestes casos.

A data, sobre amostra de vida curta, obtida no sítio da Defesa de Cima 2, [114] é comparável à da Barca do Xarez Araújo e Almeida, 2013, reforçando a ideia de que alguns sítios mais antigos, do Mesolítico inicial, dispersos pelo interior, foram reocupados no Neolítico antigo, como se propôs aliás para o sítio  da Gaspeia; segundo os autores do estudo deste sítio, “aparentemente, tudo indica tratar-se do mesmo grupo que volta ao local, tendo entretanto integrado inovações neolíticas.” [115]

Acrescentam, como corolário, que essa relação com a paisagem é “incompatível com a ideia de substituição de uma população autóctone de caçadores-recoletores por outra alógena de camponeses neolíticos. [116]

Essa reocupação de sítios e paisagens, no interior, foi também sugerida, (embora os actores, nessa perspectiva, sejam outros), por João Zilhão, para quem, as  “regiões a montante que tinham sido abandonadas pelos caçadores-recolectores no início do Atlântico” Zilhão, 1998: 29, terão sido reocupadas  pelos primeiros agricultores/pastores, “desbastando a floresta e adaptando o território ao novo sistema de subsistência”.[117]

 

As origens da monumentalidade?

Porém, qualquer que seja a interpretação dos pequenos sítios mesolíticos, dispersos tanto no interior, como no litoral atlântico, há que ter em conta a excecionalidade, mesmo à escala europeia, do Mesolítico final do Tejo/Sado.  [118]

De facto, nessa época, assistimos, em múltiplos domínios, a uma Revolução que, curiosamente, foi quase simultânea com a Revolução neolítica regional e que, por hipótese, seria igualmente oriunda do Mediterrâneo oriental.

O lado mais visível dessa mudança está, naturalmente, nos concheiros propriamente ditos, que alguns autores, nos últimos anos, têm vindo a olhar mais como monumentos do que como restos de cozinha…[119]

Não se tratou apenas de concentrar a população em áreas particularmente ricas, de ecótono, mas também de criar ou reforçar vínculos sociais através dos antepassados e, ao mesmo tempo, vínculos com a terra, coerentes com um forte incremento da sedentarização. [120]

A monumentalização dos cemitérios, através da “construção” dos concheiros, pode ser interpretada como uma prática simbólica que, mais tarde, teve continuidade nas mamoas funerárias neolíticas [121].

Dito de outro modo, os concheiros funerários foram, aparentemente, os mais antigos monumentos construídos, no nosso território.

Os próprios recintos megalíticos alentejanos (e bretões), com plantas em ferradura, podem ser, de alguma forma, "descendentes" das estruturas do timber circle da Moita do Sebastião ou da disposição dos corpos, no Vale de Romeiras (Fig. 4, 1 e 2).[122]

A  B

 

Fig. 4.1 – : Planta composta das estruturas e enterramentos da Moita do Sebastião (Calado, 2004b, seg. Arnaud, adaptado); B: Planta dos enterramentos de Vale das Romeiras (Calado, 2004b, seg. Arnaud, adaptado)

 

De resto, a quantidade e a qualidade da informação arqueológica que, desde o século XIX, os nossos concheiros têm proporcionado, tornou-os, justamente, um tema obrigatório, no contexto dos estudos sobre o Mesolítico da fachada atlântica europeia, [123] apenas comparável (e recorrentemente comparado) à Bretanha francesa, onde se destacam os concheiros, também clássicos, de Hoedic e Téviec, instalados atualmente em ilhotas, junto ao Golfo do Morbihan. [124]

Recordo que essas ilhotas (que, na época, estavam ligadas ao continente)  se localizam nas proximidades (cerca de 20 km, em voo de pássaro) do maior menir e do maior conjunto de menires da Europa (Locmariaquer e Carnac, respetivamente). Menires que partilham, como veremos no capítulo seguinte, muitas características comuns com os do Alentejo Central…

Para entendermos as semelhanças entre os nossos concheiros e os bretões, apesar das consideráveis distâncias envolvidas e sem paralelos comparáveis, pelo meio, convém ter em mente que uma característica geral do Mesolítico europeu seria a reduzida mobilidade residencial em territórios restritos”, traduzida num certo grau de sedentarização e de concentração do povoamento, mas, em contrapartida, com muitos indicadores de “movimentações individuais de longa distância.” [125]

 

 

 

Se hace camino al andar

A hipótese do estabelecimento (por fissão/enxameamento), a partir dos concheiros, dos primeiros enclaves agropastoris, implica que os últimos caçadores-recoletores permaneceram, resistindo, mas em processo gradual de extinção; de resto, como já referi, a presença pontual de cerâmica, nos concheiros, sugere alguma porosidade entre os dois lados.

É interessante observar, como veremos mais adiante, que os primeiros grupos neolitizados, instalados no interior, mantiveram o cordão umbilical com os estuários, onde criaram sítios sazonais, em locais diferentes dos  concheiros, embora alguns nas proximidades mais ou menos imediatas destes. [126]

O facto, que parece indiscutível, de acordo com os dados arqueológicos, de as comunidades mesolíticas não terem enveredado imediatamente pela dimensão económica da neolitização (agricultura e pastorícia), mesmo adotando esporadicamente inovações tecnológicas do “pacote neolítico”, pode, desde logo, radicar no escasso potencial agropastoril dos solos, a mesmíssima razão pela qual se tem proposto, como veremos, a sazonalidade das ocupações neolíticas do Estuário do Tejo.

Tornar-se neolítico implicava abandonar, pelo menos durante a maior parte do ano, o ambiente estuarino e as respetivas vantagens, em termos de segurança alimentar. E, não menos importante, um corte com ideias e valores tradicionais.

A proposta migração, a partir dos concheiros do Tejo/Sado, com o objetivo de criar os primeiros enclaves pioneiros, não foi necessariamente unidirecional, e certamente não foi instantânea. 

Apesar da posição privilegiada do Alentejo Central (Capítulo 3), relacionável, como veremos, com uma alta densidade de sítios do Neolítico antigo e com uma presumível dinâmica social sem paralelos, evidenciada na construção dos grandes menires e recintos megalíticos, é possível que, a partir dos estuários, outras áreas tenham sido colonizadas, mais ou menos em simultâneo, e que, por razões que importa esclarecer (eventualmente relacionadas com o respetivo potencial agro-pecuário, em função do modo de produção neolítico), tenham tido menos sucesso. 

As datações atualmente disponíveis [127] obrigam, desde logo, a colocar a hipótese de a Península de Lisboa ter sido também neolitizada, numa fase precoce. A descida do estuário até à foz fazia, certamente, parte das rotinas dos pescadores mesolíticos do Tejo e, a partir daí, Lameiras dista uma escassa dezena de quilómetros para o interior. Também, por razões de acessibilidade, é expectável uma presença antiga na Península de Setúbal.

Por outro lado, a expansão neolítica na Alta Estremadura, bem datada a partir de 5400 a.C., [128] pode ter saído, não já diretamente dos concheiros, mas desses sítios neolíticos pioneiros, admitindo, como parece consensual, um rápido crescimento demográfico e uma forma desconcentrada de povoamento, em pequenos núcleos de quintas familiares, mantendo, sempre que possível, o contacto sazonal com o litoral, como parece ter sido o caso no Baixo Tejo.

Quanto à Costa Sudoeste, com datas das mais antigas, em Vale Pincel1, é possível que estejamos também perante ocupações, mais ou menos sazonais, articuladas com sítios agropastoris, localizados algures no interior alentejano.

 

 

Landmarks

No Alentejo Central, os grandes blocos de rochas granitoides parecem ter desempenhado um papel importante no quotidiano dos primeiros agricultores e pastores; basta pensar um pouco em toda a logística implicada no transporte e ereção dos grandes menires e recintos megalíticos, nas fases de construção, e no significado social, enquanto monumentos coletivos, nas fases de uso.

Além disso, os afloramentos graníticos naturais, muitas vezes impressionantes, foram sistematicamente usados como "âncoras" pela esmagadora maioria dos “povoados” do Neolítico antigo/médio da região. [129]

A valorização deste tipo de espaços, verdadeiros landmarks naturais, com possíveis significados mitológicos ou simbólicos, fez, muito provavelmente, parte  da cartografia mental dos mesolíticos que, na fase final, se concentraram nos estuários do Tejo e do Sado.

O “povoado” de S. Pedro de Canaferrim, em Sintra, [130] não foge, nesse detalhe, à regra, uma vez que se implantou no meio de destacados afloramentos de sienitos (rocha igualmente granitóide). Aconteceu o mesmo no “povoado” do Prazo, em Freixo de Numão. [131]

Note-se que, mesmo os sítios de Lameiras, [132] ou de Negrais [133] talvez não sejam, nesse aspeto, muito diferentes dos do Alentejo Central, atendendo ao peso da cenografia geológica dos campos de lapiás. [134]

 

 

 

Fig. 4.2 - Aspetos do afloramento central do povoado do Penedo do Ouro 1 (Évora). (Calado, 2004b: 326)

                                  

 

 Fig. 4.3 - Lapiás de Negrais, Sintra. (Calado, 2004b: 169)

 

Quem está mal, muda-se...

Apesar das expectáveis continuidades (que, arqueologicamente, se traduzem na utensilagem lítica, de base lamelar, com destaque para os segmentos), é pertinente ter em conta a natural rejeição de muitos aspetos ideológicos associados ao modo de vida neolítico, claramente em rutura com a cosmovisão dos caçadores-recoletores.

Essa atitude parece ter-se manifestado, na dieta dos caçadores-recoletores dos estuários, atendendo à total ausência de domesticados, no registo faunístico (mas convém ter em mente, como sugeri, os lacticínios), enquanto, em volta, se consolidava o modo de vida agro-pastoril e, muito possivelmente, mais pastoril que agrícola. 

A adopção das novidades neolíticas pelos caçadores-recoletores seguiu provavelmente um padrão mais geral, em que entram, em primeiro lugar, as inovações técnicas (no caso, a cerâmica e, eventualmente, a pedra polida) e, só com muito custo, as inovações alimentares. Essa resistência foi confirmada, por exemplo, no Mesolítico do Norte da Europa, em particular na denominada cultura de Ertebolle. [135]

Os Tiriyó são um povo indígena amazónico que, por viverem num território muito isolado, nas linhas de festo entre a bacia do Amazonas e as dos rios caribenhos, só entraram em contacto regular com a "civilização", há cerca de sessenta anos, altura em que se instalou na Terra Indígena uma missão franciscana.

Na língua dos Tiriyó, existe o termo apei que significa "agarrar" e que se aplica às inovações que, por contacto com outras culturas, foram sendo adoptadas. Isto é, os Tiriyó concebem as suas tradições como um sistema aberto, embora seletivo, ao contágio cultural.

Os Tiriyó começaram por "agarrar" inovações trazidas pelos brancos, a partir do sec. XVII, num esquema comercial, dominado por quilombolas, entre o litoral e o interior. Dessa época, data a introdução dos machados de ferro e das contas de vidro...e pouco mais.

Com o objetivo de ensinar os Tiriyó a "modernizar-se", os franciscanos tentaram introduzir,  na terra indígena, a criação de vacas. Construíram currais e cercas, levaram os animais, e ensinaram aos indígenas a pastorícia, incentivando a produção e processamento do leite. 

Não funcionou. Os Tiriyó não viram vantagem suficiente no processo e as vacas acabaram por ficar em liberdade, na savana. Quando os visitei, em 2010, só os franciscanos davam uso àquele recurso: sempre que precisavam de carne de vaca, encomendavam-na aos Tiriyó que, por sua vez iam caçá-las... 

Claro que, por muito sedutoras que fossem as inovações económicas neolíticas (com destaque para o leite e o cereal), os construtores e utentes dos concheiros  e, até certo ponto,  o modo de vida tradicional, baseado apenas na caça e recolecção, sobreviveram, durante séculos, lado a lado com o alastramento das novas modas.

Esta resistência assentou, em última análise, nas mesmas razões que os levaram a instalar-se nas bordas dos estuários: uma estabilidade alimentar e residencial garantida por ecossistemas muito produtivos, com um modelo que, ao que tudo indica, funcionava bem.[136]

É, de resto, razoável admitir que o crescimento demográfico do Mesolítico final, defendido por alguns autores,[137] tenha sido catalisador da rápida disseminação do Neolítico pelo interior alentejano e não só. E que a saída desses pioneiros tenha contribuído para o alívio de eventuais tensões que um contínuo crescimento demográfico naturalmente provocaria. [138]

 

Gémeos dizigóticos: o Tejo e o Sado

Os concheiros mesolíticos dos estuários do Tejo e do Sado são habitualmente referidos em conjunto, por muitas e boas razões, embora, quando aproximamos o foco, se reconheçam diferenças entre eles.

Na mesma época (por volta de 6000 a.C.), pelos mesmos motivos e seguindo uma estratégia análoga, os últimos caçadores-recoletores estabeleceram-se (ou foram-se estabelecendo) nos limites superiores destes estuários, convergindo a partir de uma distribuição bastante ubíqua, que abrangia amplos territórios, tanto no interior, como no litoral. 

Admitindo que os concheiros do Tejo e do Sado foram obra das mesmas gentes, as principais diferenças são, principalmente, de ordem paisagística, em sentido amplo.

Desde logo, enquanto, no caso do Tejo, os concheiros se localizaram exclusivamente na margem esquerda (a margem direita é muito distinta e a largura do estuário era um obstáculo considerável), no Sado, os concheiros dispersaram-se pelas duas margens, que, neste caso, são bastante equivalentes (e a distância entre as margens é relativamente diminuta).

Porém, onde as diferenças se tornam mais evidentes é na forma como ambas as comunidades se neolitizaram, o que, em parte, pode resultar de lacunas da investigação.

O que falta, no Sado, é um fenómeno equivalente ao que tem sido evidenciado na margem esquerda do Baixo Tejo, isto é, os sítios do Neolítico antigo (com destaque para Casas Novas); na verdade, o mais próximo que temos são os sítios do Neolítico médio da Comporta que foram interpretados como permanentes, no contexto de uma economia agromarítima, mas onde, com base na presença de cerâmicas decoradas, se considerou que “a sua cultura material conservava ainda aspectos herdados do Neolítico antigo evolucionado”.[139]

 

 

 

 

 


 

 

Capítulo 5, onde se fala das origens

 

Vinte anos depois: mais do mesmo

Há precisamente vinte anos, a interpretação dos dados disponíveis, nessa altura, permitia-nos destacar dois aspetos fundamentais: a excecionalidade do fenómeno menírico centro-alentejano, no contexto da Península Ibérica, e a cronologia recuada destes monumentos, no processo de neolitização do Sudoeste peninsular. [140]

A excecionalidade, mesmo se avaliada apenas em termos de dimensões e quantidade de monumentos, não carecia, como não carece ainda, de demonstração, uma vez que as diferenças de escala são muito notórias (Fig. 5.1 e 5.2).

O busílis estava e, infelizmente, continua a estar, na cronologia. 

Convido o leitor interessado a confrontar os principais indícios, de diferentes tipos, que, nessa altura, alinhei sobre o tema e que me permitiram atribuir a maioria dos menires centro-alentejanos, ao Neolítico antigo/médio; anteriores portanto às mais antigas manifestações do megalitismo funerário regional (sepulturas protomegalíticas e antas).

Resumindo, os principais  indícios eram os seguintes;

1, Em termos cronométricos, dispúnhamos apenas de uma datação de 14C, no menir da Meada, no Alto Alentejo (discutível, como habitualmente, por ter sido obtida sobre amostra de carvão de espécie não identificada);

2. Em termos tipológicos, dispúnhamos dos escassos materiais recolhidos nas escavações dos recintos megalíticos dos Almendres, da Portela de Mogos,  do Vale Maria do Meio e do Xarez (cerâmica decorada e indústrias líticas);

3. Em termos "estratigráficos", dispúnhamos de vários exemplos de reutilizações de menires em antas;

4. Em termos de contexto geográfico, dispúnhamos da relação positiva, nas diferentes paisagens centro-alentejanas, entre a presença/ausência  de menires e de sítios do Neolítico antigo.

Também a manifesta relação de proximidade espacial (e provavelmente cronológico-cultural) entre os menires centro-alentejanos e os concheiros do Mesolítico final dos Estuários do Tejo e do Sado, apontava para cronologias antigas, tal como acontecia na Bretanha.

5. Em termos comparativos, dispúnhamos de informação complementar, em diferentes aspetos (nomeadamente cronológicos), sobre os menires bretões, aqueles que, na fachada atlântica europeia (ou fora dela), apresentam maiores semelhanças com os alentejanos. 

Novas descobertas e novas interpretações ocorridas nestas duas últimas décadas vieram, como veremos, reforçar quer a cronologia dos menires, quer a posição privilegiada destes monumentos nas dinâmicas que acompanharam a emergência das primeiras sociedades agropastoris na região.

 

Quanto?

Para termos uma noção da densidade relativa de menires, no Alentejo Central, face ao resto do país, basta consultar a Base de Dados do Portal do Arqueólogo, recurso que, apesar de algumas lacunas, creio ser idóneo, pelo menos a titulo de amostragem. 

Dos 337 sítios registados, a nível nacional, 172 localizam-se no Alentejo Central. 

A B

 

Fig. 5.1 – A: Densidade de menires, por 1000 Km 2; B: Densidade de cromeleques, por 1000 km2.

 

A discrepância verificada cresce, se em vez dos menires, considerarmos os recintos megalíticos ou "cromeleques". (Fig. 5.1)

É claro que a discrepância ainda seria muito maior se tomássemos em consideração o facto de os cromeleques alentejanos integrarem um número muito superior de menires e estes serem genericamente maiores. Isto é, se ponderássemos, como fiz para o Alentejo Central, estas variáveis (Fig. 5.2). 

Uma discrepância semelhante divide a Bretanha, em particular o Morbihan, dos restantes territórios franceses: existem menires um pouco por todo o lado, mas de dimensões e em quantidades incomparavelmente menores.

 

           

     Fig. 5.2 - Distribuição dos menires no Alentejo Central (em função do peso) (Calado, 2004b).

 

Nuestros hermanos

Existem menires isolados e recintos megalíticos, noutras áreas da Península Ibérica, embora numa escala muito reduzida, quando comparadas com o Alentejo Central. 

Não contabilizo, nesta comparação, os chamados cromlechs, bastante frequentes, no país basco, uma vez que se trata de monumentos funerários da Idade do Ferro que, na melhor das hipóteses, se poderiam comparar com a necrópole da Tera  [141] e devem ser encarados no contexto das sobrevivências tardia do megalitismo europeu.

Não contabilizo, igualmente, os diferentes tipos de estelas da Idade do Bronze, embora algumas tenham reutilizado menires preexistentes. [142] Porém, merecem uma referência especial os sítios, recentemente descobertos (e, para já, insuficientemente estudados) nas áreas de Ayamonte (La Torre/La Janera) [143] e de Toledo (Totanés). [144]

No primeiro caso, foram reportadas largas centenas de menires, numa área bastante contida (escassas centenas de hectares); porém, neste caso, estamos perante uma realidade complexa, em que, de acordo com os dados preliminares, os menires “coabitam” com monumentos funerários, de vários tipos, assim como com abundantes afloramentos rochosos; por outro lado, as prospecções intensivas efetuadas permitiram apenas identificar alguns artefatos pouco esclarecedores, em termos cronológicos, nomeadamente percutores e elementos de mós.

Na falta, por ora, de elementos que permitam uma atribuição cronológica sustentada, os autores baseiam-se nas datas disponíveis para os menires do Alto Alentejo, assumindo que “é provável que as primeiras pedras verticais de La Torre-La Janera tivessem sido erigidas durante la segunda metade do VI e/ou V milénios BC, momento que se propõe para o Algarve litoral ocidental e o Alto Alentejo.[145]

As plantas em ferradura (assim como as orientações e as posições topográficas) dos presumíveis recintos megalíticos sugerem uma possível relação com os recintos alentejanos.[146]

Além disso, os autores propõem que se trate de um caso de monumentalização da paisagem, correspondendo, os vestígios identificados, a várias épocas, invocando, a propósito, a “reciclagem dos menires nos dólmens, um fenómeno comum no sudoeste peninsular (Linares et al., 2021: 127).

No entanto, a comparação dos vestígios de Ayamonte com os menires alentejanos e algarvios permite, a meu ver, sublinhar algumas diferenças notáveis: na verdade, ao contrário do caso em apreço, os menires portugueses raramente se articulam com monumentos funerários e, sobretudo, foram quase sempre erguidos em áreas sem afloramentos rochosos, implicando muitas vezes, sobretudo no Alentejo, o transporte dos blocos dos seus lugares de origem geológica para lugares isentos de afloramentos. 

Porém, a comparação, neste aspeto, com os alinhamentos de Carnac, é bastante sugestiva e não deixou de ser invocada no referido estudo prévio.

Outra diferença tem a ver com o tipo de matéria-prima; enquanto, no Alentejo, o granito é praticamente exclusivo, no Algarve ocidental, é o calcário e o arenito que dominam. Já os menires de Ayamonte são feitos de grauvaque, material que, até agora, só foi identificado nos menires do Lavajo, igualmente nas proximidades do Baixo Guadiana, e igualmente considerados tardios.

Por último, refira-se que, por enquanto, nas imediações de La Torre-La Janera, se conhece apenas povoamento atribuível ao Neolítico final, ao Calcolítico e à Idade do Bronze.[147]

Em suma, vamos aguardar os resultados do projeto de investigação que, segundo foi anunciado, ficará concluído em 2027, para uma melhor avaliação deste interessante conjunto megalítico.

No caso do cromlech de Totanés, em Toledo, os blocos são graníticos, de perfis comparáveis aos menires alentejanos, embora a aparente presença de afloramentos integrados no conjunto seja, mais uma vez, um elemento dissonante. [148]

 

Por cá

Recapitulando, recordo que a primeira proposta de atribuição cronológica dos menires alentejanos a uma fase que, até então, era considerada como pré-megalítica[149]surgiu, nos finais dos anos oitenta, a partir da identificação, a 300 m do recinto dos Almendres, de um sítio com materiais característicos do Neolítico antigo/médio (Fig. 5.4).

Eu coordenava, nessa altura, como técnico de arqueologia, uma pequena equipa de escavação (com, entre outros, o meu amigo Panaiotis Sarantopoulos, recém chegado a Portugal, e que, mais tarde, foi arqueólogo Municipal, na C.M. Évora, e o saudoso António Alegria, que, mais tarde, foi diretor do Museu de Évora), no “cromeleque”, sob a direção de Mário Varela Gomes; nos finais de tarde, enquanto esperávamos que um carro da Câmara Municipal (com o Rui Arimateia) nos fosse resgatar, fui fazendo prospecções nos arredores do monumento e acabei por achar os primeiros materiais de superfície (sílex e cerâmica decorada), a que se seguiram ainda umas breves sondagens, cujos resultados foram entretanto publicados. [150]

 

Fig. 5.4 -  Cerâmica do "povoado" dos Almendres. Gomes, 1994b: 336




Esse foi, na verdade, o primeiríssimo indício de povoamento do Neolítico antigo, no concelho de Évora, anunciando os muitos que se lhe seguiram, a partir dos inícios dos anos noventa.

Certamente por lapso, apesar de ter sido escavado e publicado, o sítio não costuma constar dos inventários sobre o Neolítico antigo/médio regional.

Como pano de fundo, o modelo partilhado, mesmo que tacitamente, pelos neolitistas portugueses, implicava que, no Neolítico antigo, estávamos perante sociedades simples, com uma base agropecuária rudimentar, ainda não plenamente neolíticas e, por definição, sem capacidade para obras monumentais de grande envergadura. O que, provavelmente, se aplica a quase todas as regiões ibéricas, exceto o Algarve ocidental e, por maioria de razão, o Alentejo central.

Entre nós, a neolitização "obrigava" os investigadores a olhar para Sul e Oriente, de onde vieram indiscutivelmente as novidades económicas e tecnológicas, que a arqueologia documenta, e se presume que tenham vindo também as novidades ideológicas. 

Já a monumentalidade, nomeadamente megalítica, não parece ter origens nas mesmas fontes. 

Quanto aos megalitistas, de entre os raros que olharam para lá da fronteira nacional [151],  o foco ditigiu-se naturalmente para Norte, nomeadamente para as Ilhas Britânicas, com cronologias tardias e onde megalitismo e neolitização são praticamente sinónimos. 

A Bretanha não deixou de ser destacada, embora com poucas consequências práticas.

Duas teses de doutoramento seminais, produzidas, nos anos 80 do século passado, nas Universidades de Lisboa e do Porto [152], trataram do Megalitismo, no Sul e no Norte de Portugal, respetivamente.

Com perspectivas distintas, concentraram-se ambas no megalitismo funerário, assumindo que era nesta família de monumentos, que se encontrava a génese do fenómeno megalítico. Os menires, tal como na obra clássica do casal Leisner, foram deixados à margem, colados à reconhecida monumentalidade dos grandes dolmens do neolítico final.

A partir da descoberta do povoado dos Almendres, a revisão dos dados publicados, um extenso programa de prospecções, à escala regional, e a escavação de alguns monumentos e sítios, a par da comparação com outras regiões (mais uma vez, com destaque para a Bretanha), vieram, nos anos seguintes, contribuir para a solidez genérica do modelo cronológico apresentado. [153]

 

Atrás dos tempos, vêm tempos

Como seria de esperar, nos últimos vinte anos, houve notáveis avanços, em várias frentes, no que diz respeito à cronologia dos menires alentejanos.

Em termos de cronologia absoluta, destaca-se o menir de Patalou, no Alto Alentejo, onde foi datada “uma amostra de madeira carbonizada obtida no interior do alvéolo (…) que calibrada resulta em Cal BC 4340” [154] e que, levada à letra, implica uma cronologia dos inícios do nebuloso Neolítico médio.

Novidade foi também, no Alto Alentejo, a descoberta dos primeiros povoados com materiais atribuíveis, sem reservas, ao Neolítico antigo/médio [155], confirmando a reiterada relação espacial entre as áreas onde existem menires e o povoamento dessa época. E confirmam, igualmente, o padrão identificado no Alentejo Central, no que diz respeito à relação entre os “povoados” e os afloramentos graníticos, [156] ou entre os menires e o festo Tejo-Guadiana, caminho que, como vimos, se prolonga, para Leste, até ao interior peninsular. [157]

Já em Reguengos de Monsaraz, foram concluídos os trabalhos de campo e gabinete e está entregue para publicação, a respetiva Carta Arqueológica; sem surpresa, surgiram novos menires e novos sítios do Neolítico antigo [158].

Nos arredores de Évora, onde se concentram os três maiores recintos megalíticos da Península Ibérica, foram descobertos e mais ou menos intervencionados, mais alguns sítios do Neolítico antigo [159], todos eles do tipo que designei como “povoados megalíticos”, por se implantarem sistematicamente adossados a afloramentos graníticos destacados e, claro, por serem, na minha perspectiva, genericamente contemporâneos dos mais antigos monumentos megalíticos.

Em Mora, foi entretanto publicada a Carta Arqueológica concelhia [160]; como seria de esperar, surgiram finalmente os sítios do Neolítico antigo/médio, equilibrando a balança com os menires e recintos que já eram conhecidos e com novos menires entretanto descobertos .

Convém referir que um dos povoados descobertos (Fanica) se localiza a escassos 3 km de um conjunto de menires, o provável recinto do Alto da Cruz. [161]

Também em Arraiolos, novos trabalhos de prospecção acrescentaram, para além de alguns menires inéditos (um deles, segundo parece, reutilizado numa anta), três “povoados megalíticos” que foram atribuídos ao Neolítico antigo/médio, para além de uns quantos que, por limitações da amostra, foram classificados como Neolítico/Calcolítico. [162]

Importante, mas no capítulo da longevidade dos menires, foi a escavação do menir da Caeira, identificado por Rui Mataloto, nos finais dos anos noventa do século passado.[163]

A descoberta de um conjunto de taças votivas da Idade do Bronze, depositadas sob o menir tombado, [164]veio confirmar e esclarecer  os resultados obtidos na escavação dos menires de S. Sebastião [165] ou na revisão dos materiais do Arneiro dos Pinhais. [166]

No Redondo, ainda inéditos, surgiu um novo menir, junto à Courela do Zambujeiro e um novo sítio do Neolítico antigo, escavado no contexto da obra do TGV, próximo do sítio dos Atalhos[167]. O menir dista cerca de 3km dos “povoados”.

 

Fig. 5.5 - Menir da Courela do Zambujeiro (substituir imagem)

 

Outra confirmação, mas pela negativa, resultou do desenvolvimento de novas prospecções, bastante intensivas, nos concelhos de Borba e Vila Viçosa Calado e Mataloto, 2020, tendo em vista a publicação das respetivas Cartas Arqueológicas; no primeiro caso, os trabalhos de campo estão concluídos e a publicação está em preparação.

Em ambos os concelhos, estão, até à data, ausentes os menires. Do Neolítico antigo, apenas se conhece um sítio[168] e um ou outro achado avulso.[169]

Também no Alandroal, de que tinha sido feita uma primeira Carta Arqueológica Calado, 1993a, em 1993, foi produzida uma nova versão, atualizada com os dados das prospecções e escavações no Alqueva e de novas prospecções. [170] O resultado confirma, mais uma vez, a relação entre menires e povoamento do Neolítico antigo, estando ausentes os primeiros e muito vestigiais os segundos. 

A única exceção é o povoado de fossos de Juromenha 1, do Neolitico final, onde se recolheu um pequeno conjunto de fragmentos, muito rolados, de cerâmica decorada, tipologicamente atribuível ao Neolítico antigo. [171]

Uma situação comparável, aparentemente, ao sítio da Foz do Enxoé, em Serpa, também junto ao Guadiana. 

Em suma, nos últimos 20 anos, acentuou-se a imagem que, na verdade, já era perfeitamente perceptível muito antes: menires e neolítico antigo ocupam, no Alentejo Central e no Alto Alentejo, nichos coincidentes.

Um indicador cronológico mais direto resultou das escavações no recinto das Fontaínhas, em Mora.[172] Junto aos menires, foram recuperadas cerâmicas claramente atribuíveis ao Neolítico antigo (decoração plástica, incisa e impressa), para além de indústria microlaminar, incluindo trapézios (Fig. 4.5). Quanto aos trapézios, apesar das dúvidas sobre a posição cronológica destes artefatos face aos segmentos, na transição Mesolítico-Neolítico, recordo que estão presentes nos níveis mais antigos do Neolítico da Gruta do Caldeirão.[173]

No que diz respeito às cerâmicas, destaca-se, em termos do potencial de datação relativa, a presença de asas bífidas. [174] Este tipo de elemento de preensão está abundantemente registado em estações da Estremadura (nomeadamente Furninha ou S. Pedro de Canaferrim) e está igualmente bem representado no povoado, recentemente publicado, da Senhora da Alegria, com datas do terceiro quartel do 6o milenio AC (5470-5310 cal AC a 2σ). [175]

        

   Fig.5.6 - Materiais da escavação do recinto megalítico das Fontaínhas (Calado, Rocha e Alvim, 2007)

 

Outro recinto megalítico, entretanto objeto de escavações, foi o do Alminho, em Ponte de Sor, localizado, aliás, nas proximidades do sítio neolítico do Bernardo, também intervencionado. Em ambos os casos, foram recuperados artefatos atribuídos ao Neolítico antigo/médio [176] )Fig. 5.7) e, como hipótese, também ao Mesolítico.

                                 

                                 Fig. 5.7 - Cerâmica do Alminho. (Deus, 2008: 111) 

 

Refiro, finalmente, a descoberta, em Viana do Alentejo, de dois menires decorados, ambos de grandes dimensões, relacionados, como habitualmente, com manchas graníticas [177]. Nas imediações, identifiquei recentemente um sítio do Neolítico antigo (Monte das Pedras), ainda inédito.

   A B

                                Fig. 5.8 – A: Joaquim Fonseca e o menir de Álvaro Afonso; B: pormenor de gravura em baixo-relevo

 

Is there anybody out there?

Já fora da nossa área geográfica, em Freixo de Numão, destaca-se a presença de um possível menir, aparentemente descontextualizado, na mesma área onde foi identificado (por baixo dos restos de uma villa romana) o já mencionado povoado neolítico antigo do Prazo, também com uma possível génese mesolítica e um dos escassos sítios de ar livre, dessas épocas, conhecidos, na região. 

 

                               

                                              Fig. 5.9 - Menir do Prazo (Vieira, 2015: 318)

 

Outro dado relevante, surgido nos últimos anos, foi a identificação de menires pré-existentes, inseridos na construção de dolmens, em vários monumentos da Andaluzia e Extremadura. [178]

 Por exemplo, “os resultados da escavação do dólmen de Casas de Don Pedro confirmaram as teorias de Calado, uma vez que se trata claramente de menires erguidos antes da construção do túmulo megalítico, e que muito possivelmente funcionavam como marcos de espaços com carácter sagrado que, com o passar do tempo, se tornaram locais funerários após a adição de novos ortóstatos para configurar o túmulo megalítico.” [179]

Note-se que, já sem surpresa, na Bretanha, a reutilização dos menires na construção de dolmens, implicando uma clara anterioridade relativa, para os primeiros, foi sendo, nos últimos anos, ampliada, com novas observações. [180]

Sublinho que Serge Cassen sugeriu, baseado nos temas iconográficos, uma ligação entre os grandes menires decorados e o Mesolítico ou, no mínimo, uma economia (e uma mitologia) de caça-recoleção, fortemente ligada aos recursos marinhos e ao mar propriamente dito, numa época em que a transgressão flandriana invadia os litorais. [181]

 

 

Tanto mar...

Na verdade, a comparação entre os menires alentejanos e os grandes menires bretões [182], assim como entre os recintos de ambas as áreas [183], é muito sugestiva, em vários aspetos, nomeadamente:

- na matéria-prima maioritariamente utilizada (rochas granitóides), nas formas (tendencialmente arredondadas), na técnica de execução das gravuras (em baixo-relevo) e nos motivos representados (em particular, os báculos e a associação entre o crescente lunar e o quadrilátero). [184]

- na descontextualização geológica 

- na planta dos recintos megalíticos (em ferradura, aberta da Nascente)

 

                         

Fig. 5.10 - Comparação entre os motivos gravados nos menires bretões e alentejanos (Cassen et al., 2019: 316)

 

A  B

          Fig. 5.11 – A: Os recintos de Er-Lannic (Gouezin, 1998: 6, 7, adaptado); B: Plantas dos recintos alentejanos melhor conservados (Calado, 2004b)

 

                               

Fig. 5.12 - Plantas de quatro recintos megalíticos alentejanos (Portela de Mogos, Vale Maria do Meio, Tojal  e Vale d’El Rei), sobrepostas à planta dos Almendres, com manipulação das escalas (Calado, 2015)

 

Já vimos, no Capítulo anterior,  algumas analogias genéricas, entre o Mesolítico final do Alentejo Central e da Bretanha. Essas analogias, sobretudo no que respeita às indústrias líticas, explica, aliás, a razão pela qual importantes mesolitistas franceses se interessaram pelos concheiros do Tejo/Sado. [185]

Ao contrário do Alentejo Central, na Bretanha dispomos atualmente de várias séries de datações radiocarbónicas, relacionáveis com a transição Mesolítico-Neolítico, nomeadamente em Locmariaquer, Carnac, Hoedic e Beltz. [186] Estas datações colocam os primeiros menires bretões algures entre os finais do VI e a segunda metade do V milénio a.C., dentro da baliza cronológica do nosso Neolítico antigo, tal como acontece com os menires do Alto Alentejo.

 

Mais Alentejo

Como vimos, existem novos dados arqueológicos indiretos que permitem, razoavelmente, considerar, para o arranque do megalitismo não funerário, no Alentejo Central, uma cronologia dentro do Neolítico antigo tout court (5500-4500 a.C.); é provável que os pequenos recintos megalíticos e alguns menires isolados, na periferia ocidental da região, correspondam às fases mais iniciais do processo; em contrapartida, os grandes recintos de Évora, sobretudo os Almendres, devem ter cronologias mais baixas, aceitando, claro, que a dimensão e o grau de dificuldade envolvido na construção,  refletiu o crescimento demográfico e o aumento da complexidade das primeiras sociedades agro-pastoris.

Em termos cronológicos, sublinho a ausência de cerâmica com “sulco abaixo do bordo” (o fóssil-diretor mais citado, a propósito do Neolítico médio regional) [187], de entre os materiais recolhidos em escavação e prospecção, nos menires e recintos megalíticos centro-alentejanos.

Até à data, no Alentejo Central, estão presentes, em associação com os menires, apenas as cerâmicas com decoração impressa, incisa e plástica (Almendres, Xarez, Fontaínhas), nomeadamente as asas bífidas, acima comentadas.

Quanto aos materiais líticos associados nos menires centro-alentejanos (lamelas e geométricos, de entre os melhor representados), vale a pena destacar a flecha transversal do Vale Maria do Meio, artefato claramente vinculado ao Neolítico antigo regional (e muito bem documentado no Mesolítico bretão), também presente nos "povoados" eborenses da Valada do Mato e do Penedo do Ouro mas, sobretudo, muito bem representado no espólio do extraordinário sítio neolítico das Casas Novas (Coruche), com uma data radiocarbónica da primeira metade do VI milénio a.C..

                             

Fig. 5.13 - Pontas de flechas transversais das prospecções da Valada do Mato e do Penedo do Ouro (Évora) (Calado, 2004b: 359)

 

Os responsáveis pela escavação das Casas Novas, observaram que “face aos indicadores artefactuais recuperados, pode­mos afirmar que a principal ocupação remonta ao Neo­lítico antigo cardial” o que “corresponde aos primeiros momentos da neolitização da fachada atlântica da Península Ibérica.” [188]

Na mesma obra, anotaram que é "nas áreas de maior concentração de cerâmica decorada cardial que se concentram as pontas de seta transversais" [189]

A propósito, convém não esquecer que, na Valada do Mato, foram datadas três amostras, das quais apenas uma (a mais recente) foi considerada segura; porém, esta data (na transição do VI para o V milénios) corresponderia, segundo Mariana Diniz, à fase final da ocupação do sítio, ficando, naturalmente, em aberto, a data de fundação; por outro lado, as datações descartadas, feitas sobre osso humano carbonizado, a serem válidas, apontariam para meados do VI milénio a.C..[190]

No capítulo seguinte, voltarei mais demoradamente a esta questão, fundamental para o posicionamento relativo do Alentejo Central, no processo de neolitização do SW peninsular.

Parece-me relevante o facto de que a atribuição dos menires alentejanos, ao Neolítico antigo/médio, já há muito se tornou consensual, entre os escassos megalitistas ibéricos que, nas últimas décadas, se têm dedicado ao tema, embora, como seria de esperar, com algumas nuances[191] Anoto, além disso, a posição de notáveis megalitistas europeus, que se têm esforçado por obter uma visão de conjunto, nomeadamente Serge Cassen, acima referido, e Chris Scarre. Este último e D. Torben, escreveuram, a propósito  que, no noroeste da França e no sudoeste da Península Ibérica, as limitadas evidências cronológicas disponíveis sugerem que os menires podem ter sido os mais antigos monumentos megalíticos, anteriores às primeiras câmaras funerárias.” [192]

 

Ordenar o Caos, no Alentejo Central

A falta de datações absolutas torna difícil ordenar, no tempo, a construção dos menires e recintos megalíticos do Alentejo Central.

Há vinte anos, baseado nas diferenças observadas entre a área de Évora (e considerando a sua centralidade, na geografia regional) e as zonas periféricas, optei por propor uma concentração inicial do povoamento neolítico, naquela área e, numa segunda fase, uma dispersão pelas periferias.

Porém, tendo em conta os novos dados, entretanto surgidos, em particular no Baixo Tejo, creio que faz mais sentido interpretar a colonização neolítica do Alentejo Central, como uma “onda de avanço”, a partir da periferia, terminando numa concentração diferenciada nos arredores de Évora e eventualmente, dispersando, a partir daí para outras áreas interiores. A quantidade e a dimensão dos menires e recintos, nesta área, exigem que se considere um sólido crescimento demográfico e uma certa concentração do povoamento.

Se nos focarmos especificamente na área de Évora, e tomarmos em consideração um gradiente de dificuldade técnica, tendo em conta a distância (e o declive) entre os monumentos e as fontes de matéria-prima (os granitos), assim como a dimensão dos conjuntos, a sequência temporal lógica seria Vale Maria do Meio, Portela de Mogos e Almendres.

Por outro lado, podemos considerar alguma diacronia entre os grandes menires isolados (alguns decorados) e os recintos, supondo que a ereção de novos monumentos, ou a complexificação dos existentes, deve corresponder ao presumido crescimento demográfico, teríamos primeiro os menires isolados e, só depois, os recintos. O facto de se destacar, nos recintos melhor conservados, um menir de maiores dimensões, permite conjeturar um fenómeno de complexificação, transformando alguns menires, originalmente isolados, em recintos. Todas estas conjeturas ficam, entretanto, em aberto, aguardando novos dados.

 

Ordenar o Caos, na Europa atlântica

Para além destas dúvidas,  persistem, no atual estado dos nossos conhecimentos, muitas incertezas a respeito da antiguidade relativa dos menires, entre a Bretanha e o Alentejo Central ou o Algarve.

Defendi, há uns anos, a hipótese de um gradiente cronológico, de Sul para Norte, em que o Algarve ocidental teria os menires mais antigos, seguido pelo Alentejo Central e, logo depois, pela Bretanha; a par da cronologia, teríamos também um gradiente, no que respeita ao número e dimensão dos menires. [193]

Na comparação entre o megalitismo menírico, no Alentejo Central e na Bretanha, convém, em todo o caso, anotar, para além da escala, algumas diferenças, cujo significado, por ora, nos escapa, mas em relação às quais talvez se deva considerar, entre outros, o fator tempo. Creio ser o caso dos grandes alinhamentos bretões, aparentemente mais tardios que as grandes estelas e que não têm correspondência no Alentejo Central; nestes monumentos, os menires apresentam formas menos regulares e, em alguns casos, foram retirados da geologia local. [194]

De resto, quanto ao povoamento do Neolítico antigo, com cronologias que arrancam na segunda metade do VI milénio a.C., segundo G. Marchand,  "coincidiria com o impacto da Cerâmica Impressa sobre o Retziano, por volta de 5400 a.C." [195]

De fato, a neolitização da Bretanha é tradicionalmente considerada devedora do encontro entre a corrente reno-danubiana e  a corrente mediterrânica, Jorge, 1982com diferenças que se manifestam, na cultura material, nomeadamente na arquitetura e no urbanismo. 

Quanto à ligação ao mundo mediterrânico, tendo em conta a presença de cerâmica impressa, incluindo cardial, no Sudoeste francês, a tendência da maioria dos autores é aceitar uma rota terrestre, a partir do Sul de França; de facto, a partir da área de Montpellier arranca um desses grandes caminhos de pé enxuto que segue o festo entre o Rhone e o Gironde, pelo Maciço Central, numa primeira parte e, entre o Loire e o Charente, no troço final.   Não se pode, porém, excluir liminarmente a rota atlântica, passando pela Península Ibérica.

Comparativamente, a densidade de sítios habitacionais, atribuíveis ao Neolítico antigo, é muito inferior à do Alentejo Central. Porém, tendo em conta os padrões de povoamento comuns no mundo reno-danubiano, tudo indica que estamos, na Bretanha, perante verdadeiras aldeias, enquanto no Alentejo Central o povoamento, muito menos concentrado, se organizava em quintas familiares.

É certo que a maioria dos povoados bretões tem sido identificada em trabalhos de salvamento, sendo difíceis de descobrir, devido a condições pós-deposicionais, relacionadas com o tipo de implantação paisagística. [196]

Considerando as diferenças atestadas na cultura material neolítica e as semelhanças, em termos de megalitismo menírico, entre o Alentejo Central e a Bretanha,  somos tentados a atribuir estas semelhanças ao universo cultural dos últimos caçadores-recoletores. Até porque os menires estão virtualmente ausentes das áreas consideradas, por razões geográficas, como "focos emissores" da neolitização, quer na Bretanha (Bacia de Paris), quer no Alentejo Central (Valência). 

Na verdade, a diferença mais notória entre os menires bretões e alentejanos tem a ver com a escala. Esta diferença remete, à partida, para o potencial de mão-de-obra disponível, em ambas as regiões, compatível com os tipos de povoamento acima referidos.

Em todo o caso, a própria geologia pode ser, parcialmente, responsável pela impressionante dimensão dos grandes menires bretões: os granitos aparecem expostos, sobretudo na linha de costa, em blocos sólidos que podem atingir grandes dimensões. [197]

Já no Alentejo Central, onde a atividade de extração de pedra foi, em épocas históricas, aparentemente, menos intensa que na Bretanha, não é fácil encontrar, à superfície, blocos, sem diaclases, superiores aos 7 m, isto é, as dimensões dos dois maiores menires, na Península ibérica. O famoso Grand Menhir Brisé mede cerca de 20 m.

Quanto ao Algarve, região em que os menires têm uma personalidade muito própria, podemos apoiar-nos, desde logo, nas datações OSL obtidas na Quinta da Queimada, [198] (dados que necessitam certamente de confirmação) para sustentar uma anterioridade relativa do fenómeno.

Por outro lado, convém tomar em conta o facto de que " um dos pequenos menires da Caramujeira (m19) foi descoberto assente numa superfície argilosa e coberto por uma camada arqueológica que continha (...) material datável do Neolítico Antigo". [199] Esta observação pode implicar, de facto, uma anterioridade do menir em relação ao povoado, dando razão a David Calado que sugeriu uma origem mesolítica para os menires algarvios. [200]

Na Costa Sudoeste, foram, entretanto, publicadas referências aos pequenos menires registados em Vale Pincel 1, que, segundo os responsáveis pelo seu estudo, integrariam um “alinhamento em arco destinado, por hipótese, a delimitar simbolicamente um dos núcleos de habitat.” [201]

No que diz respeito a estes menires, a única possibilidade de atribuição cronológica, atendendo à polémica sobre a cronologia do sítio, [202] seria o Neolítico antigo ou o Mesolítico e, de certo modo, esta disjuntiva aplica-se igualmente ao caso do Prazo, a não ser que se admita que o menir é de época romana... [203]

Para tentar colocar alguma ordem na caserna, Chris Scarre e Marta Guardamino-Uribe, da Universidade de Durham, puseram em marcha um projeto internacional, cujo objetivo é obter datas OSL (Luminescência Óptica Estimulada) de menires de várias regiões megalíticas europeias.

No Alentejo Central, foram recolhidas amostras no menir do Mauriz (Évora) num dos menires do recinto megalítico do Tojal (Montemor-o-Novo), [204] monumentos que, aparentemente, conservavam intactos os alvéolos e as estruturas de implantação e que, por isso, eram, à partida, idóneos para aplicação desse método. 

Os resultados serão apresentados num Congresso Internacional a realizar em Durham, em Agosto de 2027. Aproveito para agradecer aos organizadores o convite para apresentar os resultados referentes ao megalitismo e à neolitização do Sul de Portugal.

 


 

 



[2]  Gonçalves, 1989b; Gonçalves et al, 1992; Calado, 1992; 1993a; Calado e Bairinhas, 1994; Calado, 1994-1995; 1995a; 1995c; 1995-1996; Calado e Sarantopoulos, 1997; Calado, 1997a; Calado e Rocha, 1996-1997; Calado e Mataloto, 1999; 2001; Calado, 2001a; 2001b; 2001c; 2003a; 2003b; Calado et al., 2004

[3] Morin 2025: 17 

[4] Morin 2025: 20

[5] Calado, 2006b

[6] Calado, 2017

[7] Gonçalves, 1975 

[8] Pina, 1969, 1971, 1986 

[9] Henriques, 2023

[10] Mantas, 2024

[11] Lévi-Strauss, 1957 

[12] Calado, 2009; 2014

[13] Rocha, 2022b: 18

[14] Gonçalves e Sousa, 2018: 39

[15] Diniz e Calado, 1997

[16] Diniz e Calado, 1997 

[17] Diniz, 2001: 46-47

[18] Cerrillo e Lopez, 2019: 547  

[19] Rocha, 2005

[20] Gonçalves e Andrade, 2020: 7 

[21] Rocha, 2005

[22] Mataloto et al., 2016-2017

[23] Gonçalves e Sousa, 2018

[24] Gonçalves e Andrade, 2020: 7 

[25] Calado, 2004b

[26] Rodriguez e Marchesi, 2015; Laporte et al., 2022

[27] Clare, 2020 

[28] Cauvin, 1999a; 1999b

[29] D. Calado, 2000a; 2000b; D.Calado et al., 2004a, 2004b

[30] Blanchard et al., 2025 

[31] Blanchard et al., 2025 

[32] Lodolo e Ben-Avraham, 2015

[33] Scerri et al, 2025

[34] Cassen et al., 2000: 345; Calado, 2004b.

[35] Scarre, 2025

[36] Jorge, 1982 

[37] Alvim, 2021

[38] Cassen et al., 2000: 345; Calado, 2004b.

[39] Henriques, 2023

[40] Calado, 2014

[41] Parker-Pearson et al., 1996; Parker-Pearson e de Groot, 2018

 

[42] Viveiros de Castro, 1996, 2002

 

[43] Calado e Rocha, 2010

[44] Alvim, 2021; Scarre, 2012; 2020, 2022; Bueno Ramirez et al, 2015

[45] Kalb, 1996, Scarre, 2022

[46] Alvim, 2021

[47] Scarre, 2004; 2009b; Tiley, 2004. 

[48] Scarre, 2009b: 5

[49] Tiley, 2004; Pétrequin e Pétrequin, 2006 

[50] Bradley, 1993

[51] Mantas, 1986

[52] Caetano, 1986; Calado, 2004b 

[53] Cortes e Calado, 2018  

[54] Costa e Palhete, 2016

[55] Lopes et al., 1997: 34

[56] Soares et al., 1994: 171; Diniz, 1995: 687

[57] Silva, 1989

[58] Gonçalves e Andrade, 2020, Deus, 2002: 92,93; Soares, 2020: 308; Valera et al., 2020: 196

[59] Rojo et al., 2008

[60] Cerrillo et al., 2011

[61] Diaz-Guardamino, 2015

[62] Calado, 2004b 

[63] von Rudloff, 1999: 1

[64] Barata, 2026: 37

[65] Calado et al., 2009

 

[66] Carvalho, 2019: 12 

[67] Calado, 2004b

[68] Carvalho, 2019: 12

[69] Carvalho, 2017

[70] Neves et al, 2015

 

[71] Calado, 2004b 

[72] Neves et al., 2015

[73] Aldeias et al. 2007 

[74] Santos, 1971

[75] Calado, 2004b

[76] Neves et al., 2015: 38;  Neves, 2023: 31; Andrade, 2015: 199;  Gonçalves e Sousa, 2018

[77] Bueno, 2010: 48, fig. 6 

[78] Diniz, 2015: 291

[79] Diniz, 2017: 69

[80] Calado, 2001a

[81] Calado, 1995-1996; Calado e Mataloto, 2020

[82] Simões, 2001; Monteiro-Rodrigues, 2011; Cerrillo, 2008

[83] Diniz, 2015: 292 

[84] Scarre, 2022: 94

[85] Dambeck et al., 2015: 392

[86] Queiroz, 1999; Mateus e Queirós, 1994

[87] Calado, 1990; Gomes, 1994; Calado, 2004b

[88] Carvalho, 2019; Diniz, 2025, Diniz e Neves, 2018; Soares, 2020; Zilhão, 2021; Araújo e Marchand, 2025

[89] Diniz, 2003c

[90] Fiedel e Anthony, 1979

[91] Ammermann e Cavalli-Sforza, 1984; Ammermann, 2020 

[92] Zilhão, 1993

[93] Soares e Silva, 2003; Silva e Soares, 2015

[94] Carvalho, 2008: 267

[95] Araújo e Marchand, 2025: 185, 186; Buric e Tezak-Gregl, 2017; Holst, 2025; Templer, 2024; Scerri et al., 2025  

[96] Araújo e Marchand, 2025: 275; Nukushina, 2016: 48-49

[97] Zilhão, 2011: 62

[98] Sahlins, 1983; Graeber e Wengrow, 2021

[99] Zilhão, 2011: 62

[100] Peyroteo, 2016: 456 

[101] Araújo e Marchand, 2025: 274 

[102] Carvalho, 2017: 10

[103] Soares, 2008; Soares e Silva, 2013

[104] Diniz, 2021: 1662

[105] Soares, 2020: 308

[106] Furholt, 2021

[107] Diniz, 2025: 639

[108] Diniz, 2019: 19

[109] Araújo e Marchand, 2025:267 

[110] Peyroteo, 2016: 485

[111] Araújo e Marchand, 2025: 273

 

[112] Soares, 2020: 308

[113] Gonçalves et al., 2013 

[114] Diniz,  2017 

[115] Silva e Soares, 2020: 27

[116] Silva e Soares, 2020: 306

[117] Zilhão, 1998: 29

[118] Araújo e Marchand, 2025: 273

[119] Alvim, 2009-2010; Holst, 2025: 448; Peyroteo, 2016; Bicho et al., 2015: 599

[120] Holst, 2025: 448; Peyroteo-Stjerna, 2016; Alvim, 2009-2010

[121] Bicho et al., 2015: 599

[122] Calado, 2004b: 143, 144

 

[123] Arias et al., 2015: 209 

[124] Araújo e Marchand, 2025

[125] Holst, 2025: 546

[126] Gonçalves e Sousa, 2018; Cardoso et al., 2013

[127] Davis e Simões, 2016; Davis et al., 2018 

[128] Zilhão e Carvalho, 2011 

[129] Calado, 2002d

[130] Simões, 2003 

[131] Monteiro-Rodrigues, 2011

[132] Davis e Simões, 2016; Davis et al., 2018 

[133] Simões e Sousa, 1999 

[134] Calado, 2004b: 169, 170

[135] Hallgren, 2004

[136] Cunha et al., 2004; Orschiedt, 2025: 592; Stutz, 2025: 584

[137] Araújo e Marchand, 2025: 273

[138] Diniz, 2015: 293

[139] Soares e Silva, 2013: 163

[141] Rocha, 2000b 

[142] Diaz-Guardamino, 2010, 2015; Bueno-Ramirez et al., 2015

[143] Linares et al., 2022 

[144] Pereira et al., 2021

[145] Linares et al., 2021: 125

[146] Linares et al., 2021: 126

[147] Linares, 2021: 118

[148] Pereira et al., 2021

[149] Calado, 1990; Calado, 1993b 

[150] Gomes, 1994b

[151] Gomes, 1982, 1986, 1994b, 2000b

[152] Gonçalves, 1989; Jorge, 2982

[153] Calado, 2004b

[154] Oliveira, 2016 

[155] Oliveira, 2006

[156] Calado, 2002d 

[157] Cerrillo, 2008

[158] Mataloto et. al., no prelo

[159] Santos e Carvalho, 2007; Gaspar, 2009b; Gaspar et al., 2009; Albergaria, 2007

[160] Calado et al., 2012

[161] Alvim e Rocha, 2011; Calado, 2015

[162] Rocha e Santos, 2015

[163] Calado, 2004b 

[164] Rocha, 2022a 

[165] Calado, 2004b  

[166] Mataloto, 2017

[167] Calado e Mataloto, 2002

[168] Calado, 1995-1996 

[169] Calado e Mataloto, 2020

[170] Calado e Roque, 2014 

[171] Mataloto et al., 2018 

[172] Calado, Rocha e Alvim, 2007 

[173]  Zilhão, 2021: 754, Fig. 7, nº 5

[174] Simões, 1999; Sousa e Carvalho, 2015; Carvalho, 2019; Valera et al., 2020: 190

[175] Valera et al. 2020: 63

[176] Deus, 2008 

[177] Galamba e Baião, 2022

[178] Gavilán e Vera, 2005Vera et al., 2010; Bueno Ramírez e Balbín Behrmann, 2004;  Bueno Ramirez et al., 2007; Bueno Ramírez et al. , 2019

[179] Gavilán e Vera, 2005: 538-553

[180] Scarre, 2015: 79  

[181] Cassen e Vaquero-Lastres, 2003, 2004; Cassen et al., 2019

[182] Cassen et al., 2019: 316

[183] Large e Mens, 2017: 53

[184] Calado, 2004b; Cassen, 2009; Cassen et al., 2019

[185] Marchand, 2001b, 2001c; Roche, 1960, 1962, 1964, 1989

[186] Cassen et al., 2009: 747; Blanchard et al, 2025; Large, 2014; Hinguant e Boujot, 2009; 26; Scarre, 2015

 

[187] Diniz, 2003c, 2009; Carvalho, 2008; Neves, 2010, 2015, 2019; Neves e Diniz, 2014

[188] Gonçalves e Sousa, 2018: 254

[189] Gonçalves e Sousa, 2018: 221

[190] Diniz, 2007

[191] Bueno Ramirez et al., 2015a; Gomes, 2002; Oliveira, 2016; Rocha, 2005; Alvim, 2021; Prada e Cerrillo, 1996-2003

[192] Scarre e Torben, 2016: 237

[193] Calado, 2006b

[194] Chauris, 2020; Sellier, 2023

[195] Marchand, 2003: 193

[196] Tinevez et al., 2013; Tinevez, 2018

[197] Chauris, 2020

[198] Tinevez et al., 2013; Tinevez, 2018

[199] Gomes 1997 : 175

[200] D. Calado, 2000a, 2000b

[201] Silva e Soares, 2015: 657

[202] Zilhão, 1998 

[203] Monteiro-Rodrigues, 2011

[204] Calado, 2004b 

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